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3 A PM ENQUANTO INSTITUIÇÃO TOTALITÁRIA

3.3 AS SUTIS ESTRATÉGIAS DO PODER DISCIPLINAR

3.3.1 O olhar hierárquico

Para além do uso da força ou de qualquer outro tipo de violência ostensiva, a estratégia utilizada pelo poder disciplinar é a vigilância total e irrestrita. No intuito de alcançar uma vigilância produtiva, utiliza-se o olhar como técnica capaz de efetuar manobras de poder; uma espécie de “observatório”, segundo Foucault (1999,) capaz de tornar absolutamente visíveis os indivíduos que estão sob vigilância.

Para isso, o poder lança mão da disciplina, pois absolutamente eficaz (a disciplina) como técnica que transforma os indivíduos não só em objetos mas também em instrumentos. Em outras palavras, o olhar hierárquico dos indivíduos é um dos sutis instrumentos utilizados pelo poder disciplinar para tornar os indivíduos reféns (objetos) do seu exercício.

O poder disciplinar é, portanto, sutil, mas capaz de estar sempre alerta, vendo e sabendo de tudo, através do controle contínuo e esquadrinhamento dos indivíduos, reféns dos olhares atentos onde todos exercem certa vigilância a todos.

“(...) O sucesso do poder disciplinar se deve sem dúvida ao uso de instrumentos simples: o olhar hierárquico, a sanção normalizadora e sua combinação num procedimento que lhe é específico, o exame” (Foucault, 1999, p.143).

O autor dá continuidade ao seu pensamento sobre o poder disciplinar, argumentando que as vigilâncias hierarquizadas encontram-se, durante muito tempo, materializadas nas arquiteturas. O olhar vigilante só é possível por encontrar apoio na forma como são dispostas espacialmente as instituições disciplinares. A configuração espacial é pensada para tornar mais e mais visíveis os que nela se encontram, e funciona como uma arquitetura cujo objetivo é transformar os indivíduos através da observação vigilante. Uma observação que modifica os indivíduos, produzindo efeitos de poder sobre eles, exercendo domínio sobre os

comportamentos desses indivíduos. Somam à arquitetura os chamados quadros vivos ou o quadriculamento detalhado dos comportamentos individuais.

É exatamente assim que acontece, segundo Foucault, (1999) nos hospitais, asilos, prisões, escolas, acampamento militar, e outras instituições totalitárias. Instituições que trazem, segundo o autor, “um modelo de acampamento ou, pelo menos, o princípio que o sustenta: o encaixamento espacial das vigilâncias hierarquizadas” (Foucault, 1999, p.144). São, portanto, instituições disciplinares que produziram um conjunto de controle do comportamento, através da observação e do consequente registro e treinamento dos indivíduos. Instituições que conformam o que Foucault (1999) denominou de “estabelecimento circular”; tão circular que capaz de fazer com que o olho do poder vigie efetivamente e permanentemente tudo.

Um elemento que potencializa os efeitos do poder disciplinar é a estrutura piramidal, hierárquica das instituições disciplinares, pois permite a organização de uma vigilância escalonada. E, assim, o poder disciplinar amplia ainda mais a sua prática sutil e, consequentemente, a sua função produtiva. Isso porque, tornar a vigilância mais hierárquica é torná-la mais funcional, pois os efeitos do olhar hierárquico são ainda mais produtivos e eficientes nas diversas instituições disciplinares.

Mas, isso não significa que a vigilância hierárquica só funcione no sentido verticalizado. A sua máxima eficiência está, exatamente, no fato de que o poder está organizado a partir de múltiplos olhares que “despontam” não só de baixo para cima, mas de cima para baixo e, também, pelas laterais. Na verdade, trata-se de uma rede de poder configurada numa rede de relações onde os indivíduos se apóiam uns sobre os outros, ou seja, trata-se de um espaço onde “fiscais encontram-se perpetuamente fiscalizados (...) é o aparelho inteiro que produz poder e distribui os indivíduos nesse campo permanente e contínuo.” (Foucault, 1999, p.148). Sob vários ângulos, olhares diversos “espiam” uns aos outros e disciplinam corpos, fazendo, inclusive com que essa disciplina sobre os corpos não apareçam concretizadas apenas e principalmente na força física, na violência ostensiva, mas sob as chamadas por Foucault de “leis da ótica”, que compõem as técnicas da vigilância.

Outra técnica da vigilância que, aliás, subsidia o olhar hierárquico, dando-lhe legitimidade, é a sanção normalizadora. O termo “sanção normalizadora” nos remete, a princípio, à aplicação de “castigos’, no intuito de corrigir comportamentos considerados desviantes. Mas, a sanção normalizadora vai mais além no interior das instituições totalitárias.

Goffman (1987) nos revela que há, no interior das instituições totais, instrumentos diversos de normalização das condutas. Instrumentos que vão desde os castigos físicos, passando pelas privações calculadas, até as atitudes que resultam em humilhações. São, no entanto, esses instrumentos, um conjunto de procedimentos sutis utilizados para fazer com que o indivíduo (re) tome o comportamento esperado pela instituição da qual faz parte.

Esses instrumentos disciplinares que compõem a sanção normalizadora penalizam, na visão de Goffman, os aspectos mais minuciosos e tênues do comportamento dos indivíduos. E os coloca como parte de um universo punitivo e persecutório - uma espécie de “micropenalidade repressiva” que, segundo Goffman - ainda que não resulte sempre num castigo físico, pois não deixa de ser repressão - atua sobre os mais íntimos comportamentos e detalhes de conduta dos indivíduos.

Necessário é que os indivíduos que fazem parte das instituições totalitárias e disciplinadoras sigam normas e regras preestabelecidas, a fim de que não venham a receber a sanção normalizadora. Submeter-se aos processos padronizados no interior das instituições disciplinadoras é norma; não submeter-se é correr o risco de retornar ao interior da norma de “mortificação do eu”, (Goffman, 1987, p. 24), que consiste em humilhações, degradações, enfraquecimento e profanização da

identidade dos indivíduos. A punição através da “mortificação do eu” levará o

indivíduo à internalização dos processos padronizados que não deveriam ter sido infringidos.

Mas, vale salientar que muitas das normas estabelecidas em instituições disciplinadora são resultantes do que Goffman (1987) chamou de “um mecanismo penal autônomo”, auto-criado para exercer leis próprias e criar, inclusive, suas próprias instâncias de julgamento do que é correto ou não, e suas formas particulares de punições. Poder-se-ia dizer que uma espécie de legislação se inscreve no interior dessas instituições e conformam sanções diversas, a exemplo da sanção terapêutica no hospital, da pedagógica na escola, da legal no campo jurídico, através de regulamentos.

Uma forma de expressão e exemplificação da sanção normalizadora é a retirada da autonomia e liberdade de ação do indivíduo. As instituições totalitárias, por serem disciplinadoras, modelam o indivíduo ao invés de escutá-lo, e retiram dele, através de regulamentos e julgamentos da equipe dirigente, qualquer expressão espontânea que possam caracterizar uma capacidade de decisão do indivíduo. A essa forma de expressão Goffman (1987, p. 41) denominou “processo de infantilização social”, através da “tiranização” do indivíduo. .Alguns indivíduos podem oferecer resistência a essa forma de punição e humilhação, mas estarão susceptíveis a outras punições e humilhações. Ademais, a permanência na organização é determinada por avaliações dos dirigentes, o que obriga os indivíduos a estarem mais atentos aos procedimentos e normas institucionais.

Cada norma de conduta retira do indivíduo a capacidade de buscar e conquistar eficientemente as suas necessidades e objetivos, o que implica na “mortificação do seu eu.” O controle de atividades e a manipulação de comportamentos por meio de punições ou prêmios são importantes formas de levar o indivíduo a essa “morte ritual”. Os indivíduos passam pela inibição através do controle minucioso e tendem a estarem, inclusive, vigiando os seus próprios comportamentos, principalmente no processo inicial de chegada à instituição, quando ainda não “inculcaram” os regulamentos a que passaram a estar submetidos. Após essa fase, a auto-vigilância contínua, mas sofre diminuição, uma vez que já capazes da projeção de gestos e movimentos sem pensar, agora de forma mais mecânica, pois completamente “adestrados”.

Além da tiranização, as instituições disciplinadoras submetem os indivíduos ao processo de “autoridade escalonada”, o que implica na submissão desses às ordens e imposições de qualquer dos membros da equipe dirigente. Uma espécie de “autoridade onipresente” e “regulamentos difusos” colocam os indivíduos em situação de maior vulnerabilidade à sanção normalizadora. (GOFFMAN, 1987).

O objeto da sanção normalizadora é, portanto, o desvio dos regulamentos que enquanto instrumentos disciplinares fazem funcionar as instituições. Desvios esses que se encontram materializados, segundo os dirigentes das instituições disciplinares, na inobservância e/ou inadequação às regras, e na conseqüente penalidade disciplinar. A penalidade disciplinar ou sanção normativa deve estar acompanhada de uma correção dos desvios apresentados pelos indivíduos, através da aplicação do castigo disciplinar, que deve ser corretivo, no sentido de devolver ao

indivíduo a adequação aos procedimentos exigidos pela instituição. Para isso, o castigo disciplinar deve estar sempre baseado nos exercícios repetitivos que possibilitem um aprendizado mais intensificado, sugerindo que o indivíduo “desviante” tenha uma atenção redobrada às normas e procedimentos estabelecidos pela instituição totalitária.

Isso nos faz remeter à Foucault (1999, p. 152), quando afirma que

“(...) A penalidade nas instituições disciplinares, normaliza os indivíduos, diferenciando-os uns dos outros com base no critério da norma: o que se deve fazer funcionar como base mínima, como média a respeitar ou como o ótimo de que se deve chegar perto.” (Foucault,1999).

A partir dessa perspectiva de Foucault, o objetivo da punição disciplinar não é a promoção da repressão, mas produzir indivíduos normalizados, pois busca relacionar os desempenhos singulares dos indivíduos ao que se considera um conjunto de normas ideais que devem ser seguidas. Cria-se nessas instituições uma espécie de parâmetro normativo, segundo Foucault, quando as normas são consoantes a uma conformidade a ser alcançada através dos corpos dos indivíduos. Ao mesmo tempo, essa norma comportamental que estabelece o que é proibido ou permitido acaba por estabelecer, também, comparativos entre os indivíduos que os classificam, os hierarquizam e distribuem os lugares desses indivíduos nessas instituições disciplinares, diferenciando-os. Isto porque, a regulamentação das normas tem como objetivo dar utilidade às diferenças entre os indivíduos, quando mede os comportamentos desviantes através da observação, e estabelece as especificidades de cada um.

3.3.3 O exame

O exame deve ser entendido como uma sanção normativa porque tem a capacidade de controlar os indivíduos e, inclusive, de determinar níveis de saberes individuais. Situa-se, portanto, (o exame) no campo do saber-poder, uma vez que atribui poder a quem demonstra saber e, ao mesmo tempo, apresenta-se como um mecanismo através do qual as relações de poder permitem a obtenção e a constituição de campos de saber.

O exame é um procedimento regulamentar de exercício do poder, através do qual os indivíduos são captados e (re)classificados num mecanismo de sujeição e, ao mesmo tempo, de objetivação. Isto porque,

“(...) No coração dos processos de disciplina, ele manifesta a sujeição dos que são percebidos como objetos e a objetivação dos que se sujeitam.” (Foucault,1999, p.154).

Além disso, Foucault (1999) traz a tona o fato de que o exame funciona, também, como uma espécie de mecanismo de poder que reforça as diferenciações entre os indivíduos, uma vez que se encontra apoiado em documentações, a exemplo de relatórios, prontuários, fichas, pastas pessoais e dossiês.

Através de uma série de documentações, um conjunto de informações detalhadas sobre os indivíduos são captadas, arquivadas e permitem o traçar dos perfis desses sujeitos, estabelecendo, inclusive, diferenças entre eles. A individualidade desses sujeitos está, agora, “ancorada” nesse “banco de dados”, que produz e fixa o conhecimento que deles se pode ter. “Os procedimentos de exame são acompanhados imediatamente de um sistema de registro intenso e de acumulação documentária” (Foucault,1999, p.157).

Ainda segundo Foucault (1999), o exame transforma o indivíduo em objeto de conhecimento e de poder ao mesmo tempo, na medida em que produz efeitos de controle individualizantes e normalizantes. O indivíduo passa a poder ser descrito, medido e comparado a outros indivíduos para, então, ser treinado, classificado, normalizado e, finalmente, submetido a um saber permanente. (FOUCAULT, 1999).

A partir das colocações de Foucault, o exame, enquanto técnica normalizadora, leva os sujeitos ao cerceamento da sua individualidade e à conseqüente posição de objeto de poder e de saber. Ele qualifica, classifica e, inclusive, pune os indivíduos, pois produz, através da disciplina que impõe e do controle que exercita, uma vigilância produtiva para as instituições que o utiliza.