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O neoliberalismo nasce na região da Europa e da América do Norte logo após a 2ª. Guerra Mundial onde imperava o capitalismo, constituindo-se numa reação teórica e política contra o Estado intervencionista e do Bem-estar. O texto fundador, “O Caminho da Servidão” de Friedrich Hayek, foi escrito em 1944, cujo conteúdo se constitui em um ataque fervoroso a qualquer limite imposto aos mecanismos de mercado por parte do Estado, em defesa da liberdade econômica e política, constituindo-se numa corrente oposta à social-democracia e ao Estado do Bem-estar Social que naquele momento se organizavam (ANDERSON, 1995).

Em 1947, os partidários dessa corrente de pensamento fundaram a Sociedade de Mont

Pélerin que tinha como propósito combater o keynesianismo e o solidarismo. Na perspectiva de seus seguidores, a desigualdade era um valor positivo e até imprescindível para as sociedades modernas. Esta visão de mundo não logrou êxito naquele momento (ANDERSON, 1995).

Quando a crise do modelo econômico do pós-guerra se instala em 1973, as idéias neoliberais tomam fôlego. Naquele momento, eles justificavam a crise pelo excessivo poder

do movimento operário que, com suas conquistas de salários e de políticas sociais, tinham corroído as bases da acumulação capitalista. A solução era romper com o poder dos sindicatos, promover reformas fiscais e a disciplina orçamentária, contenção dos gastos sociais e restauração da taxa “natural” de desemprego. Após uma década, a hegemonia deste programa realizou-se, começando pela Inglaterra em 1979 no governo de Thatcher, atingindo os Estados Unidos em 1980 no governo Reagan e em 1982 a Alemanha no governo de Khol. Atinge, posteriormente, quase todos os países da Europa e América do Norte, independente das opções políticas dos governos no campo da direita ou esquerda. A aplicação das receitas neoliberais diferenciou-se em cada país (ANDERSON, 1995). Na Inglaterra os governos de Thatcher

[...] contraíram a emissão monetária, elevaram as taxas de juros, baixaram drasticamente os impostos sobre rendimentos altos, aboliram controles sobre os fluxos financeiros, criaram níveis de desemprego massivos, aplastaram greves, impuseram uma nova legislação anti-sindical e cortaram gastos sociais [...] se lançaram num amplo programa de privatização, começando por habitação pública e passando em seguida a indústrias básicas como aço, a eletricidade, o petróleo, o gás, e a água (ibid .,p. 12).

Os Estados Unidos priorizaram a competição militar com a União Soviética, além de reduzir os impostos dos ricos, elevarem a taxa de juros e reprimirem as greves. No continente europeu privilegiou-se a disciplina orçamentária e as reforma fiscais. Na França, embora Miterrand tenha resistido, o modelo neoliberal foi também aplicado, inclusive com o abandono do pleno emprego. Foi na Nova Zelândia que as teses neoliberais foram aplicadas de forma mais rigorosa, com um desmonte radical do Estado do Bem-estar Social. Na Europa oriental e na União Soviética a queda do comunismo fez emergir as teses neoliberais também com vigor. Na América Latina a experiência do Chile com Pinochet é referenciada como a pioneira nas experiências neoliberais no mundo contemporâneo. Depois do Chile, Bolívia, México, Peru, Brasil, Argentina e Venezuela. Nesta última, a experiência fracassou, uma vez que a democracia partidária impediu o autoritarismo político das reformas. O neoliberalismo passa a se constituir em um movimento ideológico em escala mundial, como nunca visto antes (ANDERSON, 1995).

Para Fiori (1998), no neoliberalismo mantém-se a tese do liberalismo dos séculos XVIII e XIX, contrária a promoção da igualdade entre os indivíduos e grupos sociais por meio de uma intervenção pública. Para os liberais, as diferenças e as capacidades individuais possibilitam resultados distintos e necessários para a dinâmica da sociedade capitalista. Portanto, os liberais de hoje como os de ontem desconsideram que a sociedade real é

recortada de imensas desigualdades, e que, portanto, não existe e nunca existiu igualdade de condições.

Para Anderson (1995)

Economicamente, o neoliberalismo fracassou, não conseguindo nenhuma revitalização básica do capitalismo avançado. Socialmente, ao contrário, o neoliberalismo conseguiu muito dos seus objetivos, criando sociedades marcadamente mais desiguais, embora não tão desestatizadas como queria. Política e ideologicamente, todavia, o neoliberalismo alcançou êxito num grau com o qual seus fundadores provavelmente jamais sonharam, disseminando a simples idéia de que não há alternativas para os seus princípios, que, todos, seja confessando ou negando, têm que de adaptar-se a suas normas. Provavelmente nenhuma sabedoria convencional conseguiu um predomínio tão abrangente desde o início do século como o neoliberal hoje. Este fenômeno chama-se hegemonia, ainda que, naturalmente, milhões de pessoas não acreditem em suas receitas e resistam a seus regimes” (ibid., p. 23).

Essa tese é compartilhada por Fiori (1998) e Hirsch (2002). Fiori reconhece os avanços das idéias neoliberais no mundo e o sucesso no controle da inflação, do déficit público, da retração da atividade sindical e o aumento da lucratividade privada, mas aponta para uma prolongada estagnação econômica, breves ciclos de crescimento, baixa taxa de investimento produtivo e aumento exorbitante da taxa de desemprego nos países centrais e no resto do mundo. Segundo o autor, são nestas condições que o desmantelamento dos sistemas de proteção social se coloca como o único caminho para fazer frente ao desemprego.

Para Hirsch (2002),

[...] a política econômica neoliberal se mostra igualmente incapaz de cumprir suas promessas de prosperidade. Cada vez mais crescem as desigualdades sociais, os processos sociais de exclusão e marginalização inclusive nas metrópoles desenvolvidas. A incapacidade de garantir condições econômicas e sociais de desenvolvimento relativamente homogêneos dentro das fronteiras nacionais estimula processos nacionalistas e movimentos políticos regionalistas. A tendência da regionalização e re-nacionalização coincide com os intentos de criar unidades políticas-econômicas compreensivas (Europa Ocidental, Norteamérica) que devem ser entendidas como reação ante a debilidade do Estado nacional tradicional (ibid., p. 39).

As transformações econômicas e políticas ocorridas desde a crise do capitalismo em 1973, são combinadas de forma virtuosa com “a força das idéias, da ideologia e da teoria, orientando a política” (ibid., p. 214), possibilitando a desregulamentação dos mercados em todo o mundo. A derrota do comunismo no Leste Europeu e em países da Ásia permitiu que as idéias neoliberais se constituíssem em um pensamento quase hegemônico, o que abriu espaço para a tese do fim da História defendida por Fukuyama (FIORI, 1998).

Para Fiori (1998) o neoliberalismo se constitui na mais audaciosa investida contra a política e os trabalhadores, ao desmontar a mais complexa e impressionante obra que a humanidade conseguiu montar: o welfare state.

Os países da periferia capitalista são compelidos a adotar o tripé neoliberal (desregulamentação, privatização e abertura comercial) para obter a credibilidade junto aos novos protagonistas do mundo globalizado: os mercados financeiros. Estes passam a ter o poder de desestabilizar a economia de um país com seus ataques especulativos. Os governos nacionais passam a ser reféns desta nova lógica financeira que a globalização trouxe, reduzindo cada vez mais as possibilidades de implementar de forma soberana uma política macroeconômica, monetária ou fiscal e de realizar políticas sociais.

Para Fiori (1998)

[...] nossos governantes deverão seguir propondo a ”modernização” da administração das políticas públicas, insistindo em teses e propostas abstratas numa sociedade atravessada pela guerra fiscal, fórmulas tais como: descentralização, fazer parcerias ou reengenharias, etc. Tudo isto, em um quadro carente de recursos e de disputa entre as várias instâncias do poder do Estado brasileiro, só pode soar, na prática, como uma tentativa do Estado de desonerar-se de suas responsabilidades públicas com o seu povo e a sua nação (FIORI, 1998, p. 223).

Oliveira (2000) observa que no Brasil, paradoxalmente, na década perdida, a sociedade civil resistiu às propostas do neoliberalismo. Nesta década, três grandes centrais sindicais foram formadas, o impeachment de Collor indicou a força do movimento social, a CPI dos “anões”, dentre outros exemplos, demonstraram a vitalidade da sociedade civil. No entanto, a crise da hiperinflação produziu um terreno fértil onde a neoliberalismo começa a crescer, tendo o Plano Real do Governo FHC um receituário obediente das estratégias neoliberais. Para Oliveira, o maior legado do neoliberalismo foi naquele momento disseminar a desesperança, destruição das organizações sindicais, populares e de movimentos sociais.

Santos (2002) ao apresentar o instigante Relatório Lugano (GEORGE, 2002) faz referência à lógica da globalização e às idéias do neoliberalismo como a lógica do extermínio, defendendo que o sistema atual é uma máquina universal de destruição do ambiente e de produção de perdedores. Para a autora, o sistema capitalista e as idéias neoliberais, de que a capacidade dos próprios indivíduos permite a inserção dos mesmos no mercado livre e justo para a conquista do bem-estar, é um equivoco pois os indivíduos não dispõem das mesmas condições e oportunidades. Para Santos (2002),

[...] A seleção das vítimas não deve ser responsabilidade de ninguém, senão das próprias ‘vítimas’. Elas selecionarão a si mesmas a partir de critérios de incompetência, de inaptidão, de pobreza, de ignorância, de preguiça, de criminalidade, e assim por diante; numa palavra, elas encontrar-se-ão no grupo dos perdedores (ibid., p. 6).