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Ascensão e fim do período sanatorial entre 1930 e

CAPÍTULO 3 PRIMEIRA IGREJA BATISTA EM SÃO JOSÉ

3. PRIMEIRA IGREJA BATISTA EM SÃO JOSÉ DOS CAMPOS (PIBSJC): UMA VERIFICAÇÃO EMPÍRICA

3.1. Produção social de espaço em São José dos Campos

3.1.1. Ascensão e fim do período sanatorial entre 1930 e

O município de São José dos Campos representou para o governo Vargas uma de suas estratégias para se romper com um passado republicano no país3, marcado pela hegemonia

dos grupos ligados à República Velha4 (1889-1930), em que paulistas e mineiros representantes das oligarquias latifundiárias se revezavam no poder federal, e, de certo modo, determinavam as linhas gerais de desenvolvimento brasileiro nesse período.

Essa ruptura se expressou, para o município de São José dos Campos, nas intervenções federais a partir da emergência da Era Vargas (1930-45), mais em termos dos processos de

planejamento territorial5 do que no sistema de governo dos municípios do país6, que, em linhas gerais, mantinham alijadas de participação no poder as amplas camadas populares.

Essa forma de governo da cidade visava a certas orquestrações de poder entre as novas elites políticas e econômicas da época, objetivando seus interesses hegemônicos, de modo a impedir a constituição de quaisquer formas de cidadania que implicassem em uma participação da população em geral, que vai compondo as cidades brasileiras desde então, a partir dos fluxos migratórios no país, atraindo para os núcleos urbanos parte da população

miserável do campo7.

As aspirações à modernidade advindas das classes dominantes no município de São José dos Campos já estavam presentes nas primeiras décadas do século XX, desde que a

cidade já contava com uma infraestrutura básica a um processo inicial de industrialização8.

Na mesma época, em termos culturais, a cidade também contava com um teatro

ideológico e cultural não apenas com a capital brasileira à época, a cidade do Rio de Janeiro, mas também com a capital do estado de São Paulo, entre as quais se situava esta pequena cidade paulista, nos anos 20, que contava à época com uma população de pouco mais de 30 mil habitantes, majoritariamente na área rural do município, mas que apontava para certa

pujança socioeconômica já no início do século XX10.

A construção do referido teatro permitiu a apresentação das novidades teatrais europeias, ainda que em uma escala de produção modesta, e também a exibição da produção cinematográfica norte-americana representada por Hollywood, apontando para certa ‘afeição de gostos’ pela produção cultural estrangeira, e por uma ideologia do progresso advindo das atividades capitalistas europeias e estadunidenses.

A Era Vargas, no entanto, apresentava suas contradições, sobretudo por seu caráter ditatorial. Apenas para se traçar uma breve ilustração do que essa ditadura política firmava no plano da cultura, é interessante perceber a polarização de visões históricas da realidade brasileira à época, representadas, por um lado, por Cassiano Ricardo, tido por um dos expoentes máximos da cultura joseense e também nacional, e, de outro, por Sérgio Buarque de Holanda, intelectual que viria a firmar uma leitura crítica das origens e da formação da sociedade brasileira.

Buarque de Holanda buscava ampliar o círculo de leitores críticos da realidade do país, através de publicação do ensaio ‘Corpo e Alma do Brasil’, em uma revista modernista carioca denominada ‘Espelho’, em março de 1935.

Por sua vez, Cassiano Ricardo apresentava sua visão da política brasileira através de publicação, para o público em geral, em março de 1941, do ensaio ‘O Estado Novo e seu

sentido bandeirante’, no número inicial da revista ‘Cultura Política’, uma publicação do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), de que foi diretor, durante o governo ditatorial de Vargas11.

Tal alinhamento de Cassiano Ricardo à ditadura Vargas traz um significado particular à construção de uma identificação desse poeta e de sua obra à cultura joseense, que se estende até a atualidade, denotando o tipo de sociedade que tem se edificado nessa cidade paulista desde então até os dias de hoje, ou seja, uma população relativamente ‘silenciada’ por suas elites locais.

Isso aponta para determinada mentalidade política de intervenção social que se efetivaria nas diversas formas de planificação para a cidade de São José dos Campos e a região desde então, de caráter excludente e totalitário em relação à população em geral.

Um exemplo disso, à época, é o fato de que, em 1935, a cidade de São José dos Campos foi transformada em Estância Climatérica e Hidromineral, justificando sua administração por interventores federais, determinando em muito o tipo de cidadania que viria a se formar nesse município ao longo dos anos que compuseram a Era Vargas no país.

No período, a sociedade brasileira foi marcada por uma ideologia do progresso, que se expressou na cidade de São José dos Campos através de vários planos de obras públicas para

reformular visualmente seu espaço urbano12, mas cujo sentido maior foi a manutenção do

status quo vigente, (re)produzindo um espaço urbano excludente, atendendo majoritariamente aos interesses dos grupos hegemônicos da sociedade joseense de então, e em detrimento à maioria da sociedade.

Parte desse esforço de modernização se deu a partir de intervenções urbanas mais profundas, caracterizadas pela estruturação planificada da cidade em quatro áreas de zoneamento: residencial, comercial, industrial e sanitária.

É importante salientar que as atividades dessa Zona Sanatorial contavam com intensa participação das organizações religiosas que se faziam presentes no município à época, notadamente católicas, evangélicas, pentecostais, espíritas e judaicas, expressões do campo religioso de então, de modo a ir formatando, no contexto dessa cidade, uma tradição política não-participativa no atendimento às necessidades da população.

Nesse contexto, as atividades religiosas possuíam um papel específico nas práticas sanatoriais, no caso de São José dos Campos, produzindo certa imbricação entre religião, espaço e política na cidade neste período, fazendo do ‘tratamento à saúde’ um tema de especialistas, urbanistas e caridosos.

Essa especialização pode ser verificada a partir de um processo de planejamento urbano que teve curso no município no ano de 1961, em que as equipes de planejadores, ao

realizarem um inventário do espaço da cidade13, assinalavam a presença desses sanatórios e

Campos de então, uma cidade sanatorial, seria importante considerar o papel dessas sociedades beneficentes, religiosas e de saúde para um determinado planejamento urbano.

Haveria, portanto, no planejamento urbano da época, uma imbricação particular entre o fenômeno religioso e a realidade social na cidade, refletida na disciplina dos espaços, da saúde e da religião, conforme uma ‘política sanitária’ dos poderes públicos e da universidade, que registrava a ocorrência de expressões religiosas católicas, evangélicas, pentecostais, espíritas e judaicas, ligadas à atividade sanatorial, nada dizendo acerca das religiões afrobrasileiras, o que não garantiria que estas não se fizessem presentes na cidade.

No período de 1930 a 1960, algumas das ‘funções sociais’ das igrejas e de outras instituições religiosas no município refletiam certo alinhamento com as atividades sanatoriais, através da prestação de serviços de assistência social e médico-hospitalar, entre outros correlatos.

A partir dessas práticas de planejamento não participativo, uma ‘não-cidadania’ se perpetuaria no município enquanto uma ‘ideologia’ acerca das funções sociourbanas da religião e da pessoa religiosa, contribuindo para disciplinar os comportamentos do joseense desde então, tomando-se as organizações religiosas de uma forma instrumental aos interesses de representantes do poder político na cidade, visando à construção do ‘citadino sadio’ e ‘trabalhador’, em benefício dos investimentos estatais e capitalistas no município.

De 1950 até 1960, o processo histórico de produção social do espaço em São José dos Campos foi marcado pelo declínio das atividades dos sanatórios para o tratamento da tuberculose, ocorrendo uma ascensão das atividades industriais, militares e de pesquisa no

município14, marcando uma nova ‘vocação’ para a cidade, notadamente de cunho industrial-

científico e militar15, em que diversas intervenções no espaço caracterizariam esse fato, entre

estas a abertura de rodovias, de mais instalações industriais e de um complexo militar, atraindo intensa migração, responsável em parte pelo incremento das taxas demográficas e de urbanização na cidade16.

A modernização brasileira à época, no entanto, mantinha as tradições em termos de uma cultura política herdada de uma sociedade rural e escravocrata, marcada pela não- participação da população em geral nas decisões que a afetam, de modo a não ver atendidas suas demandas mais imediatas.

As intervenções urbanas à época visavam a uma produção de espaço urbano adequada para a acomodação de uma embrionária sociedade de massas, que viria a se estruturar no

município a partir de então, tornando-o sede de uma das cidades médias brasileiras17 desde

esse período.

Aponta-se, por exemplo, nesse sentido, a estruturação de uma rede de iluminação pública em São José dos Campos, marca de certa ‘ideologia do desenvolvimento’ que se

inscrevia no espaço da cidade desde então18.

Ironicamente, ao iluminar a noite da cidade, visava-se a apagar um passado recentíssimo rural, escravocrata e latifundiário, cuja mentalidade contribuiria em muito para as modalidades de especulação imobiliária que viriam a ter curso na cidade a partir de então.

Certo domínio no sistema de abastecimento/consumo da população em geral significava também um profundo controle da vida do cidadão, que apenas exerceria sua cidadania quando ‘apto e imerso no mercado de trabalho’, sobretudo na ótica das elites de então, o que é parte de um modo de estruturação das relações sociais que perpassa a sociedade brasileira contemporânea, e joseense em particular, desde o início da República.

É ainda desse período de desenvolvimento industrial o primeiro Plano Diretor do Município de São José dos Campos (1954-58), um dos primeiros de todas as cidades do interior paulista e que refletia parte dessa problemática de desenvolvimento da cidade, pautando-se por incorporar as modernas técnicas de planejamento urbano e regional de então, visando a concretizar/preservar certa hegemonia das elites locais, em consonância com os

interesses governamentais e do capital nacional e internacional à época19.

Não se incluíram, nesse documento legal de ordenamento territorial da cidade, algumas das questões sociais relativas aos modos de desenvolvimento urbano no município,

que, desde então, conduziam a diversos processos de favelização20, ironicamente indicando o

‘lugar’ dos excluídos das benesses da modernização na cidade, marcando profundamente os desenvolvimentos posteriores do processo de urbanização excludente e não-participativo em São José dos Campos, como se apresenta a seguir para o período de 1960 a 1990.