• Nenhum resultado encontrado

Atitude positiva perante o próprio sofrimento e êxito

No documento Sentido de vida da pessoa com dor crónica (páginas 68-72)

Capítulo II Sentido de Vida da Pessoa com Dor Crónica: Desafio Para a Ciência

2.2 Sentido de Vida, Saúde e Desenvolvimento Humano

2.2.1 Atitude positiva perante o próprio sofrimento e êxito

Reportando-se às circunstâncias traumáticas da vida, Viktor Frankl e Carlos Díaz afirmam que a sobrevivência é possível se “a esperança for orientada por um propósito significativo”, capaz de “desenvolver a vida espiritual profunda” (Díaz, 2004, p. 31; Frankl, 2005b). O facto de ao homem ser vedada a possibilidade de se furtar às adversidades da vida (dor crónica), não lhe retira a responsabilidade ou o direito de responder “não ao porquê, mas de escolher a forma como” as vai experienciar (Frankl, 2005a, p. 143).

Quando, nesta perspetiva de conversão espiritual, a dor é enfrentada com a força da responsabilidade interior, produz-se o desenvolvimento pessoal que torna o homem mais “rico e capaz”, altruísta e empático. É esta transformação que facilita ao profissional de saúde, nomeadamente ao enfermeiro, o exercício da CoCIP (Kraus et al., in press). Em termos pedagógicos e didáticos, esta competência, núcleo de qualquer processo de cuidado psicoterapêutico ou educativo, assenta na estrutura dialógica logoterapêutica, atribuindo prioridade à qualidade da relação interpessoal (Frankl, 2005a, p. 143; Bruzzone, 2008, p. 174).

Logoterapia é, assim, a “ciência que procura a consciencialização do espiritual através da análise existencial, ou seja, procura trazer o ser humano à consciência de ser-

Sentido de Vida da Pessoa com Dor Crónica: Desafio Para a Ciência

responsável – enquanto fundamento essencial da existência humana” (Frankl, 1986, p. 55). Trata-se de uma metodologia do diálogo41, que pressupõe o prévio estabelecimento de uma relação Pessoa-a-Pessoa, não apenas enquanto dispositivo funcional da ativação de determinados processos psíquicos, emocionais e cognitivos, mas enquanto pressuposto ontológico. Desta forma, também Bruzzone (2008, p. 107) considera como verdade antropológica fundamental a autotranscendência, característica fundamental da existência do homem, isto é, “apenas quando este se alheia de si e se liberta de interesses e da atenção centrada em si mesmo, alcança um modo autêntico de existir”. Ao homem que vive esta possibilidade, Frankl (2006, p. 45) denomina de “homo religiosus”42.

Sentido pode ser traduzido como a consciência do objetivo, o sentimento de se ter uma tarefa a cumprir. Esse sentimento pode “equipar” o homem para a conservação de uma verticalidade interna frente a condições desafiantes. Frankl refere que uma missão a cumprir na vida ou um sentido a realizar, em muito influencia a saúde geral da pessoa. Essa missão pode ter um objetivo válido de vida, amar alguém, ou ter um trabalho a desenvolver. Refere-se sempre a atividades externas ao indivíduo para as quais ele irá apresentar aptidões que lhe permitirão ser capaz de enfrentar desafios. O autor ilustra essas afirmações com a sua própria experiência no campo de concentração onde, apesar das condições desfavoráveis, sobreviveram alguns dos que possuíam uma visão positiva da vida.

Em oposição heurística ao puramente psíquico, o termo “logos” é aqui referido por um lado à emoção que atrai (ortopatia) e, por outro, à coerência cognitiva (ortodoxia), ambas conjugadas sob a forma de atitudes e comportamentos adequados (ortopráxis) (Frankl, 1990; Ortiz, 2009a, 2009b).

Seligman, o pai da psicologia positiva, designa, por sua vez, vida significativa aquela que resulta de uma escolha do rumo, com a adição de fortalezas que fomentam o conhecimento (educação, ciência, literatura, periodismo…etc.), o poder (tecnologia, engenharia, construção, serviços de saúde, fabricação…etc.) ou a bondade (lei, ordem, proteção civil, religião, ética, política, organizações de beneficência … etc.). Desta forma, também Seligman corrobora o postulado de Frankl, ao considerar que vida significativa é aquela que consiste em utilizar as fortalezas ao serviço de algo mais elevado, acima de nós

41Frankl refere-se à estrutura dialógica como algo que por natureza sela a “relação interpessoal Eu-Tu” e, em última instância, culmina

no “ato de fé e de total autotranscendência em direção ao tu ancestral (Ur-Du) que constitui o fundamento ontológico da responsabilidade” (Frankl, 2005b, pp. 95-97).

Sentido de Vida da Pessoa com Dor Crónica: Desafio Para a Ciência

70

mesmos, para assim encontrar um sentido da existência “y si Dios llega al final, se trata de uma vida sagrada” (Seligman, 2005, p. 378).

Por sua vez, Elisabeth Lukas destaca uma diferença crucial entre Frankl e as correntes humanistas: “en la logoterapia no se reconoce la realización personal como el

mayor objetivo de la existencia humana, tal como ocurre en las distintas variantes de la psicología humanista”. Refere que, segundo a logoterapia, a “autotranscendência” do

homem se situa “por encima” (Lukas, 2003, p. 20), esclarecendo, como Frankl, que o seu efeito secundário (da autotranscendência) é a autorealização, a felicidade,…etc. A autorealização e a própria felicidade humana “sólo se pueden alcanzar per effectum pero

no per intentionem” (Frankl, 1990, p. 110). Segundo Frankl, a atitude positiva, perante o

próprio sofrimento ou a adversidade, é a atitude heroica para si próprio e a resistência digna e corajosa face às circunstâncias.

Para Elisabeth Lukas, a vivência de sentido não se pode reduzir à consciência do êxito, considerando sentido e êxito duas realidades distintas:

El éxito no equivale a plenitud de sentido ni el fracaso a desesperación. Hay una plenitud de sentido muy interna, incluso en personas que, consideradas externamente, no han tenido ningún éxito en su vida, o en enfermos que soportan su sufrimiento con valor y, a pesar de sus dolores, dicen "si" a la vida. (…), por otra parte, hay muchísimas dudas sobre el sentido de la vida y mucho vacío interno en personas que, desde un punto de vista puramente externo, están en la cumbre de su éxito. (Lukas, 1983,

p. 35).

Arman e Rehnsfeldt (2003) questionam a possibilidade do sofrimento vivido durante a transição poder ser visto como positivamente. Elisabeth Lukas responde à questão com o argumento de que esse desprendimento apenas poderá ser efetuado através do “poder de resistencia del espíritu” que, baseado em valores firmes, opera a transfor- mação do sofrimento inevitável, na realização desses valores,“valores de actitud ante el

sufrimiento inevitable ya que ningún sufrimiento puede derrotarnos si estamos preparados para buscarle sentido” ou seja, “el sufrimiento puede transformarse en una oportunidad de significado” quando o ser humano “descubrir o sentido da sua existencia personal”

Sentido de Vida da Pessoa com Dor Crónica: Desafio Para a Ciência

Deve notar-se que a inevitabilidade é uma condição indispensável à concretização desta atitude, caso assim não seja, suportar desnecessariamente contextos traumáticos não será digno de coragem, devendo ser classificado como atitude masoquista, sem sentido. Por outro lado, entende-se por “atitude positiva perante o próprio êxito” a relação adequada às circunstâncias felizes da própria vida, no sentido de que as completa de sentido e as orienta para o bem de outras pessoas, capacitando o sujeito a fazer algo de útil a partir da sua posição de êxito. Trata-se da disposição (vontade) de usar “aquilo que se possui” para ajudar outras pessoas em posição menos favorável (Lukas, 1983, p. 35).

A revisão da literatura permitiu igualmente concluir que, na sua globalidade, os modelos concetuais de enfermagem incorporam a perspetiva holística do ser humano, reconhecendo que, para além de fatores sociodemográficos e clínicos, a autotranscendência desempenha um papel crucial no seu bem-estar (Reed, 2008).

Analisada a relação entre sentido de vida, saúde e desenvolvimento humano, quanto ao desafio que a vivência da dor crónica representa para a ciência, conclui-se que a CoCIP poderá ser um importante contributo da enfermagem.

Cientes de que o desenvolvimento de instrumentos de medida do sentido de vida apenas é possível a partir de resultados de investigações qualitativas, com recurso à interpretação hermenêutica e metodológica, empiricamente adaptadas à exploração de narrativas existenciais e histórias de vida, apresentam-se de seguida os instrumentos identificados na revisão sistemática da literatura (Kraus et al., 2009).

Figura 1

Modificação de atitudes em situações de fracasso e êxito Adaptado de “Tu vida tiene sentido” (Lukas, 1983, p. 35)

Sentido de Vida da Pessoa com Dor Crónica: Desafio Para a Ciência

72

No documento Sentido de vida da pessoa com dor crónica (páginas 68-72)