• Nenhum resultado encontrado

Instrumentos e procedimentos de análise de dados

No documento Sentido de vida da pessoa com dor crónica (páginas 185-189)

Capítulo VI Estudo 3 – Fontes de Sentido e História de Sofrimento

6.1.3 Instrumentos e procedimentos de análise de dados

Para implementar as três etapas do estudo mencionadas no ponto anterior, indispensáveis à identificação das fontes gerais e específicas de sentido de vida, foi necessário proceder à análise de conteúdo das descrições livres, das subamostras de participantes com patologia reumática, em resposta à pergunta aberta da Parte C da PIL.

Como já referido, esta análise de conteúdo foi efetuada com recurso à Escala de sentido e à Escala de Atitude, desenvolvidas por Lukas (1983) para identificar a realização de sentido, o esforço desenvolvido e o progresso em termos de satisfação atingida, permitindo distinguir entre realização interior de sentido e consciência de êxito, e distinguir entre atitude positiva perante o sofrimento e êxito, respetivamente.

Para completar o Objetivo 7, implementou-se a quarta e última etapa do estudo, nomeadamente, conhecer a história de sofrimento inevitável das subamostras de participantes com dor crónica reumática. Para o efeito recorreu-se à análise das respostas à pergunta 1 da parte B) da MIST-P (Starck, 2008), que informa quanto ao índice de sofrimento segundo a escala numérica (já descritas na Tabela 46), e à análise e codificação das três respostas mais cotadas, às perguntas abertas e mistas (fechadas e abertas) da MIST-P parte B). Pela análise destas perguntas percebeu-se que fazia sentido serem agrupadas segundo as mesmas categorias do Guia Orientador de Boa Prática da “História de Dor” da Ordem dos Enfermeiros (2008).

Desta forma o guião para a entrevista sobre a história de sofrimento inevitável, orienta para a recolha de dados sobre: Conhecimento/Perceção e Expetativas (perguntas 2, 8 e 10); Estratégias de coping (pergunta 3); Fatores de alívio e gestão do sofrimento inevitável (perguntas 4, 11 e 12); Impacto sobre o quotidiano, as emoções, os objetivos de vida e a qualidade das relações (perguntas 5, 6, 7, 13, 14 e 15); Caraterísticas do sofrimento inevitável e sintomas associados (perguntas 1, 9 e 16) e Opção religiosa (pergunta 17). Para o efeito transcreveram-se as três respostas mais referidas por cada uma das subamostras a cada uma dessas questões, permitindo identificar a história do sofrimento inevitável de cada uma das amostras de participantes com dor cronica reumática.

Critérios gerais de codificação do sentido e da atitude

As descrições livres das fontes ou categorias de realização de sentido de vida, por subamostra de participantes de doença reumática, foram avaliadas com as escalas de

Fontes de Sentido e História de Sofrimento

186

sentido e de atitude de Elisabeth Lukas. Ambas as escalas são, segundo Noblejas (1999, p. 84), “exaustivamente definidas e exemplificadas, para assegurar uma adequada interpretação”.

De acordo com as instruções, iniciou-se a análise de conteúdo com a escala de sentido, que identifica a realização de sentido e distingue a realização interior de sentido da consciência de êxito, sendo cotada de 0 a 4 (Lukas, 1988). Voltaram a analisar-se as mesmas descrições, mas agora com recurso à escala de atitude82, que avalia a atitude relatada, segundo o ponto de vista logoterapêutico enquanto atitude positiva, perante o próprio sofrimento e perante o próprio êxito, sendo a sua cotação de 0 a 2.

Constatou-se que, no geral, as categorias de realizações de sentido propostas por Lukas (Frankl, 1994) são coincidentes com as fontes de sentido de vida identificadas por Peralta (2001): bem-estar pessoal/aquisições materiais – vida agradável, comer-beber; realização/aquisições pessoais – autoeducação, presença bem-sucedida; família/filhos, casa, independência económica; ocupação principal/formação, educação, ocupação, tra- balho; sociedade/amor, contacto social, deveres sociais; interesses/ciência, conhecimento, hobbies, desporto, viagens; experiências/querer viver experiências, natureza, arte,...; serviços e ideais/religião, política, reforma, compromisso e atitude; necessidade vital/saúde, autossuficiência, abastecimento na necessidade.

Atendendo a que, segundo Krippendorff (1990), a AC pode assegurar o equilíbrio entre duas tendências, a qualitativa e a quantitativa, Vala (1986) salienta que se podem efetuar análises quantitativas “das ocorrências”, “avaliativas” ou “estruturais” partindo da hipótese de que “a linguagem representa e reflete diretamente aquele que a utiliza”. Vala (1986, p. 119) apresenta a análise avaliativa como a que melhor se adequa ao “estudo das atitudes da fonte relativamente a determinado objeto”, permitindo que os indicadores mani- festos na comunicação possam ser utilizados para fazer inferências a respeito da fonte da emissão” (Bardin, 1977, p. 155). Para assegurar os critérios de validação da AC, Daval (1963) e Vala (1986) recomendam vários processos, sendo o mais comum aquele que implica a colaboração de juízes externos. Para o efeito deve solicitar-se a uma ou duas pes- soas que, partindo de um bom conhecimento do sistema de categorias e respetivas defini- ções, isto é, dos mesmos critérios de análise, procedam à categorização de uma amostra

82Citando Lukas (1983), Noblejas (1999, p. 181) salienta que a mudança definitiva de uma atitude exige, normalmente, grande esforço

de argumentação, exemplificação e contraposição por parte do logoterapeuta. No seu trabalho, ele pode dispor do apoio técnico como o diálogo socrático (“técnica de preguntas ingénuas” para reconduzir a contraposição segundo a variante desenvolvida por Elisabeth Lukas, ou para “sacar del inconsciente” e facilitar a autocompreensão, para a definição de objetivos e compromissos significativos).

Fontes de Sentido e História de Sofrimento

aleatória do corpus documental. De seguida comparam-se as codificações dos colaborado- res com a realizada pelo investigador. Uma vez realizada essa análise procede-se a um cálculo, tendo em conta os acordos e desacordos. A fórmula mais simples e mais frequentemente utilizada é a seguinte: F = 2 C12 ÷ (C1 + C2)

Ou seja, o dobro do número de acordos entre os codificadores (C12) é dividido pelo total de categorias efetuadas por cada um (C1+C2). Se o resultado rondar os 0,80, já se pode considerar satisfatório. É evidente que a fidelidade dos resultados depende em grande parte da experiência e do conhecimento dos codificadores e de uma correta formulação e definição das categorias.

Porém, Graneheim & Lundman (2004) defendem a importância do painel de peritos no apoio à produção do conceito ou na resolução de problemas de codificação, daí a importância do recurso à reflexão falada para garantir a concordância na forma como os dados são codificados.

Critérios de codificação do sentido

As categorias avaliativas da análise de conteúdo referentes à escala de sentido são: 0 – Valor de sentido ótimo: em relação à pontuação final;

1 – Valor de sentido bom: quando apesar de identificar aspetos negativos os positivos prevalecem com determinação;

2 – Valor de sentido indeterminado ou não reconhecido: quando não responde ou quando o que escreveu não contém nenhuma informação sobre o sentido de vida; é o menos falso;

3 – Valor de sentido indeterminado ou não reconhecido: quando manifesta insatis-

fação ligeira a moderada, frente à vida (embora o negativo seja relativizado pelo

positivo, não chega a compensá-lo), mas existe uma base para supor que se trata de um estado transitório identificar-se um tom geral negativo;

4 – Valor de sentido quando manifesta que não encontra sentido na vida. Indicado- res claros da situação são as expressões de desesperança, o que não significa que tenha de ser uma situação de fracasso na vida – pode ser no êxito, ou quando se detetam expressões de ódio, negação à reconciliação, de angústia existencial ou indiferença por tudo que a vida lhe oferece.

Critérios de codificação da atitude

Fontes de Sentido e História de Sofrimento

188

0 – Quando apresenta atitude positiva perante o próprio sofrimento e o êxito; 1 – Quando apresenta atitude positiva apenas perante um dos critérios, o próprio sofrimento ou o êxito;

2 – Quando não refere qualquer informação, nem quanto a atitude positiva perante o próprio sofrimento, nem perante o próprio êxito.

Procedimentos de análise

Para assegurar os critérios de validação da análise de conteúdo (AC) já explicita- dos, preconizados por Daval (1963) e Vala (1986), procedeu-se à categorização de uma amostra aleatória de descrições livres, por um leque nacional, internacional e interdiscipli- nar, de três juízes externos, todos informados quanto ao sistema de categorias e respetivas definições: 1º juiz – Maria Angeles Noblejas, psicóloga clínica, doutorada em Psicologia Evolutiva e da Educação, logoterapeuta, Vice-Presidente a Associação Espanhola de Logoterapia (AESLO) e docente de logoterapia, com vasta experiência na codificação de descrições livres da PIL C); 2º juiz – Ana Leonor Alves Ribeiro, enfermeira, professora coordenadora na Escola de Enfermagem de São João do Porto, com uma vasta produção técnico-científico no âmbito da dor; 3º juiz – Rui Mota Cardoso, Professor Catedrático da FMUP, Investigador Sénior, Coordenador do IPATIMUP, Responsável pela Residência em Saúde Mental da licenciatura em Medicina da Universidade do Minho, e que tem investigado em especial temas relacionados com a angústia e a depressão.

A seleção da amostra aleatória do corpus documental seguiu a regra de contagem de 30 em 30, num total de 6 questionários, sendo o primeiro questionário selecionado o nº 29. Depois de esclarecidas questões metodológicas, enviaram-se estes questionários por correio eletrónico ao 1º juiz, que codificou as descrições e as enviou à investigadora, procedendo-se então à comparação dos resultados com os da codificação original, tendo-se obtido um valor de F=100% de concordância com a codificação da investigadora.

Para reforçar a validade da análise de conteúdo e depois de informados sobre a metodologia da nova análise de conteúdo, foram efetuadas mais duas avaliações, uma por cada um dos juízes portugueses. Após comparação destes resultados com os da classificação original, obteve-se uma coincidência entre 81% e 94% das classificações dos 2º e 3º juízes e a da investigadora, ou seja, perante as 18 possibilidades de classificação, 17 foram coincidentes.

Uma vez efetivada a validação quantitativa da análise de conteúdo, efetuada pela aplicação das instruções e fórmula sugerida por Daval (1963) e Vala (1986), procedeu-se à

Fontes de Sentido e História de Sofrimento

reflexão falada com os dois juízes nacionais, que reconfirmaram a classificação efetuada. Este processo tal como exposto por Graneheim & Lundman (2004) assegura o estabelecimento da concordância partilhada entre todas as codificações avaliadas pelos juízes e a investigadora, e garante a concordância na forma pela qual os dados foram codificados.

No documento Sentido de vida da pessoa com dor crónica (páginas 185-189)