CAPÍTULO III: REPRESENTAÇÕES MENTAIS
5. O ESTUDO DA ATIVIDADE CEREBRAL COMO CAMINHO PARA A COMPREENSÃO DA CEGUEIRA E DAS REPRESENTAÇÕES MENTAIS
5.2. ATIVIDADE CEREBRAL E REPRESENTAÇÕES MENTAIS
As neurociências e o estudo da atividade cerebral têm vindo a alcançar o seu espaço na investigação relacionada com as representações mentais. Em alternativa ao verbo
alcançar, poderíamos ter utilizado conquistar ou ganhar, mas estamos em crer que não se trata de uma conquista ou de uma vitória, no sentido de tomar posse do que até aí pertencia a outrem. Trata-se de ocupar um espaço próprio, o dos conhecimentos ligados à atividade cerebral propriamente dita, na construção das representações mentais. Como nos dizem Kay e seus colaboradores (2008), um dos objetivos mais desafiantes para as neurociências é virem a ser capazes de ler e descodificar o conteúdo mental resultante da atividade cerebral. Nos últimos anos têm-se feito avanços significativos no conhecimento da atividade cerebral, a qual se tornou acessível ao estudo graças ao desenvolvimento de um conjunto de técnicas não invasivas, as técnicas de neuroimagem, destinadas prioritariamente ao diagnóstico clínico mas, com enorme alcance e utilidade para a investigação dos fenómenos direta ou indiretamente relacionados com o cérebro. No estado atual dos nossos conhecimentos acerca das representações mentais, dispersos, incipientes e, por vezes, contraditórios, a humildade científica não pode deixar de contar com o contributo de novas disciplinas, como não pode menorizar as tradicionalmente envolvidas nesta demanda, como sejam a Psicologia e a Filosofia. Cada uma destas áreas tem o seu espaço por mérito próprio, mas devem canalizar cada vez mais sinergias para a colaboração convergente entre si, buscando aquilo que Edward Wilson sagazmente denominou de Consiliência, que segundo ele significa a unidade do conhecimento (Wilson, 1999).
Na sua obra, Paivio (1990) fala-nos das assimetrias funcionais entre os dois hemisférios cerebrais, as quais se têm revelado através de estudos envolvendo sujeitos com cérebros intactos (“normais”), doentes com lesões em apenas um dos hemisférios e doentes em que o corpo caloso (estrutura que estabelece a ligação entre os dois hemisfério) foi seccionado. O hemisfério esquerdo controla o discurso e revela-se mais eficiente que o hemisfério direito em várias tarefas envolvendo material verbal, enquanto o hemisfério direito está mais envolvido em tarefas não-verbais, como a identificação e memorização de faces, de outros padrões espaciais e o reconhecimento de sons não-verbais. Em consonância, pacientes com lesões no lobo temporal esquerdo evidenciam défices em tarefas de memória verbal, mas não em tarefas de memória não-verbal, enquanto pacientes com lesões no lobo temporal direito evidenciam défices em tarefas de memória não-verbal, mas não em tarefas de memória verbal (Paivio, 1990). Não obstante, ambos os hemisférios possuem sistemas representacionais para a recognição visual de objetos comuns.
Partilhando destas ideias, Kosslyn (1995) acrescenta que os processos envolvidos nas transformações de imagens mentais ocorrem, de forma mais efetiva, no hemisfério direito, tendo-se demonstrado que sujeitos com lesões no lobo parietal direito apresentam dificuldades em tarefas de transformação, como a rotação mental. Não obstante, sublinha que, de acordo com algumas investigações, o hemisfério esquerdo poderá desempenhar, também, um papel importante nas tarefas de transformação das imagens mentais. Não obstante as especificidades de cada hemisfério, Fernandes e Pinho (2007) lembram-nos a existência do corpo caloso, o qual com mais de dez milhões de fibras mielinizadas, une ambos os hemisférios numa unidade funcional. Alguns dados apresentados por Habib (2003), demonstram que as funções da linguagem não são um exclusivo do hemisfério esquerdo, existindo no entanto especificidades. Afirma o autor que “tal como o hemisfério esquerdo está encarregado de elaborar os aspectos instrumentais da linguagem, o hemisfério direito está por sua vez especializado no tratamento e na produção de toda uma componente, em particular emocional, da linguagem, designada por prosódia” (p. 20).
No ponto 3 deste capítulo, referimos diferenças entre as representações mentais evocadas por palavras abstratas e as evocadas por palavras concretas. Estas diferenças estão, segundo Paivio (1990, 2006) relacionadas com o hemisfério cerebral predominante no processamento das mesmas. Interpretando os resultados de várias investigações, sugere que as representações mentais evocadas por palavras concretas, com elevada probabilidade de evocarem imagens mentais, assim como os objetos a que as mesmas se referem, são processados em ambos os hemisférios, enquanto as representações mentais evocadas por palavras abstratas, com baixa probabilidade de evocarem imagens mentais, são processadas preferencialmente no hemisfério esquerdo. Para o autor, as diferenças na eficiência funcional de ambos os hemisférios cerebrais evidenciada nos parágrafos anteriores, quanto ao processamento verbal e não-verbal, constituem evidência consistente acerca da independência funcional dos sistemas de representação simbólica (SRI e SRV), assim como da interconetividade e interação dos mesmos, postulados pela sua Teoria do Processamento Dual. Atendendo às ideias de Mackay (2009), o hemisfério esquerdo assume a especialidade de discriminar finamente sequências temporais (processamento sequencial), logo é compreensível que Paivio situe predominantemente o SRV neste hemisfério, responsável pelo reconhecimento e compreensão da linguagem falada e escrita. O mesmo autor afirma que o hemisfério direito discrimina combinações imagéticas com
constrangimentos temporais flexíveis (análise espacial e sincrónica). Paivio situa o SRI predominantemente no hemisfério direito, proeminente no processamento do fluxo visual da linguagem escrita e no reconhecimento de vozes.
Os estudos baseados em neuroimagens têm acrescentado evidência, tanto a favor das ideias de Paivio como das de Damásio, quanto às interligações multimodais entre o SRV e o SRI. Assim, frases com conteúdos que apelam e facilitam a representação mental de natureza visual tendem a ativar as áreas cerebrais responsáveis pela visão (Knauff e May, 2005). Por exemplo, as palavras que designam cores ou ações (palavras concretas), ativam as mesmas áreas cerebrais que as respetivas cores e ações, quando percecionadas (Paivio, 2006). Assim, Farah (1988) considera as representações mentais de natureza visual como realmente visuais, não no sentido de representarem, necessariamente, informações adquiridas sensorialmente via visão, mas no sentido de dependerem, pelo menos em parte, do mesmo substrato neurológico que a visão, o que explica que sujeitos cegos sem lesões neurológicas, mesmo que congénitos, possam utilizar as suas áreas visuais corticais intactas para a construção de representações mentais. Para Paivio (1990), as representações mentais multimodais que integrem informações acerca de acontecimentos e objetos não- verbais, estão relacionadas com a ativação de áreas corticais posteriores centrais, em estreita associação com os sistemas sensoriais primários. O seu carácter multimodal é o resultado de repetidas e variadas experiências sensoriais e motoras, as quais conduziram à construção de representações mentais sincrónicas e integradas, em que cada uma das modalidades sensoriais (visual, auditiva, háptica, olfativa e/ou gustativa) pode ativar a construção de uma representação mais holística. Acrescenta o autor que os padrões associativos se desenvolvem, também, entre diferentes representações, intra e inter hemisférios, de forma que a ativação de uma representação pode ativar outra(s), dependendo da informação sensorial e da sua natureza contextual. Os padrões associativos poderão explicar-se, de forma satisfatória, através das ZDC. Estas representações e associações ocorrem em ambos os hemisférios no entanto, um dos hemisférios, geralmente o direito, desenvolve maior proficiência, em atividades integrativas, associativas e transformacionais. Ainda segundo Paivio (1990), as relações entre o SRI e o SRV resultam do desenvolvimento de padrões associativos entre as representações neuronais visuo espaciais (não-verbais), localizadas nas regiões corticais posteriores centrais e as representações auditivo motoras (verbais), localizadas mais frontalmente, principalmente
no hemisfério esquerdo. Conexões funcionais desenvolvem-se também entre as representações verbais e as representações não-verbais correspondentes a outras modalidades sensoriais (auditiva e háptica), localizadas mais centralmente. São estas interconexões que tornam possível que as palavras e as descrições verbais evoquem representações imagéticas em qualquer modalidade sensorial, ao mesmo tempo que permite a realização de atividades organizativas e transformacionais. De forma inversa, permite que objetos e imagens representados mentalmente possam ser nomeados ou descritos.
Também os resultados provenientes dos estudos de caso clínicos parecem apoiar as relações postuladas entre o SRV e o SRI. Farah (1988) fala-nos de uma paciente estudada por Beauvois e Saillant em 1985, cujas áreas visuais foram neuroanatomicamente desconectadas das áreas da linguagem em consequência de um acidente vascular cerebral. Mostrou-se capaz de realizar tarefas puramente visuais envolvendo cores, uma vez que as áreas visuais, em si mesmas, não foram lesadas. As suas capacidades verbais não foram afetadas, obtendo pontuações elevadas num teste de QI verbal, uma vez que as áreas da linguagem também não foram lesadas. No entanto, se a tarefa implicar a coordenação entre elementos visuais e elementos verbais, como por exemplo nomear uma cor apresentada visualmente ou apontar uma cor em função da sua designação verbal, aqui as suas performances eram extremamente pobres, em virtude da desconexão neuroanatómica entre as áreas da visão e as áreas da linguagem.
Com o objetivo de determinar como é que o cérebro organiza representações de substantivos, os neurocientistas Marcel Just e Vladimir Cherkassky em colaboração com os cientistas informáticos Tom Mitchell e Sandesh Aryal, todos da Universidade de Carnegie Mellon, realizaram um estudo que demonstrou que o significado dos substantivos é processado de forma similar no cérebro de diferentes sujeitos, ou seja, quando dois sujeitos pensam, por exemplo, sobre a palavra martelo, os padrões de ativação cerebral são bastante similares nos dois casos (Ciencia PT, 2010). Atendendo a Damásio (2003b), esta descoberta não deveria surpreender, uma vez que ao sermos tão parecidos uns com os outros, no que à essência biológica diz respeito, é natural que um mesmo objeto provoque padrões neurais semelhantes, dos quais resultam imagens mentais semelhantes. O mesmo estudo (CienciaPT, 2010) evidenciou que a representação de um substantivo não ocorre independentemente a nível cerebral, ou seja, essa representação não ocorre num espaço
encerrado em si mesmo, antes pelo contrário, ativa áreas responsáveis pela representação de substantivos afins. Por exemplo, a palavra apartamento, ainda que apresentada de forma isolada como todas as outras utilizadas no estudo, provocou a ativação em cinco áreas que se revelaram ativas na representação de outras palavras relacionadas com abrigo. Assim, a expressão rede de conceitos, enquanto conjunto de conceitos interligados com base num conjunto de características afins, parece fazer todo o sentido.
Na procura das localizações corticais mais pormenorizadas para o processamento das imagens mentais, têm-se publicado vários estudos, nem sempre convergentes nos resultados, tal como nos reportam Mazard et al. (2004). De acordo com a meta análise efetuada por esta equipa de investigadores, os aspetos figurativos das imagens mentais visuais e da perceção visual tendem a ser processados no córtex occipito-temporal ventral, enquanto as informações de natureza espacial tendem a ser processadas pelo córtex occipito-parietal dorsal. Notam que esta atribuição de funções não é absoluta, uma vez que alguns estudos referem também o envolvimento do córtex occipito-parietal ventral no processamento de imagens de natureza espacial. Em relação ao envolvimento do córtex visual primário (áreas 17 e 18 de Brodmann), no processamento de imagens mentais visuais, têm-se publicado resultados divergentes. Alguns investigadores reportam a ativação destas áreas corticais, enquanto outros não identificaram qualquer ativação. Mazard e colaboradores apresentam uma explicação possível para esta discrepância. Segundo eles, a maioria dos estudos que lidam com imagens mentais de natureza espacial não reportaram atividade no córtex visual primário, enquanto os estudos que lidam com imagens mentais figurativas tendem a identificar atividade nesta área cortical. Acrescentam que a ativação do córtex visual primário poderá estar, também, relacionada com as características individuais dos sujeitos, uma vez que quanto melhor for a performance individual na construção de representações mentais, mais áreas cerebrais tendem a ativar- se e evolver-se em determinada tarefa.
Numa investigação baseada na utilização de imagens provenientes de Ressonância Magnética Funcional, Handy e colaboradores (2004) estudaram a atividade cortical quando (i) mantendo o conteúdo de uma determinada representação mental constante, (ii) se altera a estratégia de evocação da mesma. Os participantes foram observados enquanto procuravam representar mentalmente objetos comuns em duas condições diferentes: a) evocar imagens mentais de objetos a partir das respetivas imagens visualizadas a priori e
b) evocar imagens mentais desses objetos a partir da visualização do seu nome. Os resultados revelaram (i) ativação bilateral do córtex frontal na condição a), (ii) ativação do córtex frontal esquerdo na condição b) e (iii) ativação das mesmas áreas do córtex temporo parietal nas duas condições. Segundo os autores, estes resultados sugerem que a rede neuronal posterior, ativada do decorrer das imagens mentais visuais, não varia com alterações na forma de evocação, nem com alterações na rede neuronal frontal, responsável por recuperar as imagens da memória e cujo padrão de ativação depende da forma de evocação.
Estruturalmente, Damásio (2010) afirma que as representações mentais resultam da atividade de pequenos circuitos neuronais, que se organizam em grandes redes, as quais são capazes de criar padrões neurais. Estes representam objetos e acontecimentos situados tanto fora como dentro do próprio cérebro. Os situados fora podem pertencer ao mundo exterior ou ao próprio corpo, enquanto os situados dentro, representam o próprio processamento de outros padrões. Os padrões neurais constituem mapas33, uns simples e toscos, outros refinados, alguns concretos e outros abstratos. Construímos mapas quando interagimos34 com objetos, como, por exemplo, pessoas, máquinas, locais e acontecimentos. Em suma:
“… o cérebro mapeia o mundo em seu redor, bem como o seu próprio funcionamento. Esses mapas são experienciados como imagens na nossa mente, e o termo imagem refere-se não só às imagens de tipo visual mas também a imagens com origem em qualquer sentido, sejam elas auditivas, viscerais, ou tácteis…” (Damásio, 2010, p.36).
O autor continua, afirmando que quando recordamos objetos, pessoas, lugares, melodias, estados de dor ou alegria e acontecimentos, bem como as múltiplas relações que puderam estabelecer entre si, a partir dos dados guardados na nossa memória, estamos também a construir mapas. Em condições normais, a construção de mapas é ininterrupta, não parando nem durante o sono, tal como demonstra a ocorrência dos sonhos.