CAPÍTULO III: REPRESENTAÇÕES MENTAIS
1. EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO CONCEITO
2.1. O PAPEL DA MEMÓRIA NA CONSTRUÇÃO DAS REPRESENTAÇÕES MENTAIS
No ponto 1 deste capítulo referimos já os contributos da construção de imagens mentais, muitos deles conhecidos de há longa data, para o funcionamento da memória. Procuraremos agora definir os contributos conhecidos da memória para a construção de representações mentais.
Na sua obra intitulada A Unidade do Conhecimento – Consiliência, o biólogo Edward Wilson dedica um capítulo à mente, no qual descreve os contributos da memória na construção das representações mentais. O seu discurso reconhecidamente preciso, claro e motivador leva-nos a transcrever um excerto, que por ser demasiado longo, desde já nos penalizamos. Nas suas palavras:
“… A memória de curto prazo é o estado de prontidão da mente consciente. Compreende todas as partes atuais e lembradas dos cenários virtuais. Consegue lidar apenas com cerca de sete palavras ou outros símbolos ao mesmo tempo. O cérebro leva cerca de um segundo para esquadrinhar totalmente esses símbolos e esquece a maior parte das informações em trinta
segundos. A memória de longo prazo é adquirida em muito mais tempo, mas possui uma capacidade quase ilimitada e uma grande fração dela é retida por toda a vida. Pela activação propagadora, a mente consciente evoca informações do depósito da memória de longo prazo e conserva-as por um breve intervalo na memória de curto prazo. Durante esse tempo, processa as informações, a uma velocidade de cerca de um símbolo por 25 milissegundos, enquanto os cenários que surgem das informações competem pelo domínio. A memória de longo prazo evoca eventos específicos trazendo determinadas pessoas, objectos e ações para a mente consciente através de uma sequência de tempo. Por exemplo, ela recria facilmente um momento olímpico: o acender da tocha, um atleta correndo, os brados da multidão. Recria não apenas imagens em movimento e som, mas também o significado na forma de conceitos associados simultaneamente experimentados. O fogo é associado ao quente, vermelho, perigoso, cozido, paixão do sexo, ato criativo e assim por diante através de inúmeras vias de hipertexto selecionadas por contexto, às vezes formando novas associações na memória para futura evocação…” (Wilson, 1999, p. 105).
No geral, esta perspetiva é também a adotada por Stephen Kosslyn, eminente académico associado ao estudo das representações mentais, Professor da Universidade de Standford e Diretor do Centro de Estudos Avançados em Ciências Comportamentais desta Universidade. Afirma, de forma indubitável que é na memória a longo prazo que guardamos as informações necessárias para construir as representações mentais (Kosslyn, 1995). A evocação de informações guardadas na memória pode conduzir à visualização de lugares e objetos não imediatamente disponíveis no nosso campo percetual (Handy et al., 2004). No mesmo sentido, representações mentais evocadas a partir da apresentação de estímulos, não incluem todas as informações disponíveis perceptualmente acerca dos mesmos, incluindo em contrapartida informação não presente perceptualmente nesses mesmos estímulos (Kalakoski, 2006). Assim, em condições normais, o nosso cérebro caracteriza-se por uma capacidade admirável que faria corar de vergonha o mais potente dos computadores, a de apreender informação composta e reproduzi-la mais tarde, quer queiramos, quer não e segundo uma grande variedade de perspetivas (Damásio, 2010). É o que acontece aos veteranos de guerra, certamente contra a sua vontade, que vivem retrospetivas perturbantes e indesejadas da sua estadia na frente de combate, ouvindo os sons, sentindo os cheiros e vendo as imagens do campo de batalha. As emoções desempenham um papel fundamental nestes processos de memorizar e evocar (Fernandes, 2004; Damásio, 2010; Jensen, 2002). Nas palavras de António Damásio:
“… desde que na altura houvesse suficiente emoção, o cérebro apreende imagens, sons, odores e sabores, num registo multimédia, e irá recuperá-los na altura própria. Com o tempo, a recordação poderá desvanecer-se. Com o tempo, e com a imaginação de um fabulista, o material será embelezado, baralhado e voltará a ser ordenado num romance ou num argumento cinematográfico. Passo a passo, aquilo que começou como imagens fílmicas não-verbais poderá mesmo transformar-se num relato verbal fragmentado, recordável tanto pelas palavras de uma narrativa como por elementos visuais e auditivos…” (Damásio, 2010, p.168).
Outros autores alargam a abrangência conceptual e introduzem o conceito de memória de trabalho, enquanto mecanismo subjacente à manutenção e disponibilidade da informação relevante para determinada tarefa, como a compreensão linguística, a leitura, a construção de imagens mentais e a resolução de problemas, sendo que a construção de representações mentais requer a cooperação efetiva da memória de trabalho com a memória a longo prazo (Kalakoski, 2006).
Anteriormente, apresentámos a hipótese defendida por Gregory (1979) e por Jimenez (2002) segundo a qual, a perceção corresponde a uma hipótese antecipada sobre a realidade, formulada ao nível cerebral com base (i) nas representações preexistentes, (ii) no contexto e (iii) nos valores individuais, a qual é testada pelos dados sensoriais. Assim, sem memórias de (i) representações, (ii) contextos e (iii) valores, a perceção resultava um processo difícil, mais lento, menos eficaz e com dispêndio acrescido de energia. Analogamente, sem memória, dificilmente poderíamos construir representações mentais, até porque, com alguma consistência, os estudos revelam que as imagens mentais de natureza visual ativam a maioria das áreas cerebrais ativas no decorrer de uma perceção visual, sugerindo que imagens mentais visuais e perceções visuais, poderão sobrepor-se como formas alternativas de representação ao nível da memória (Gonsalves e Paller, 2000).
Evaristo Fernandes propõe-nos uma classificação de memória baseada nos seus conteúdos:
“…a memória figurativa emana das imagens dos objectos anteriormente percepcionados e da memória dos movimentos realizados; a memória emocional dos sentimentos e afectos vivenciados; a memória semântica dos pensamentos ouvidos ou expressos; a memória lógico-verbal dos pensamentos exteriorizados através das palavras, que são o invólucro material do pensamento, e, a memória sensorial que emana da acção dos sentidos, sobretudo, da visão, da audição, do tacto, do paladar, do olfacto, etc….” (Fernandes, 2004, p. 23).
2.2. MODELOS EXPLICATIVOS DAS REPRESENTAÇÕES MENTAIS: A TEORIA