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ESTUDO EMPÍRICO

H 10.: Não existem relações entre a integração social das crianças cegas congénitas em turmas do EBER, e as diferenças das suas representações mentais (riqueza, complexidade e

4.2. CARACTERIZAÇÃO DA AMOSTRA

4.2.3. Caracterização geral

Neste ponto escalpelizamos as características dos sujeitos não refletidas nos pontos anteriores, com particular incidência nos sujeitos cegos congénitos.

Em 2008/2009, ano letivo em que decorreu a recolha de dados, C1 e C2 frequentavam, ambos, a mesma escola do ano letivo anterior. A turma era constituída pelo mesmo conjunto de alunos45 do ano transato (19 alunos). C1 cegou nos primeiros meses de vida em consequência de um glaucoma congénito. Tal como referimos no ponto anterior, não frequentou a Educação Pré-escolar, tendo iniciado o 1ºCiclo do Ensino Básico com seis anos de idade. Segundo o seu professor de EE, que o acompanha desde o 1ºCiclo do Ensino Básico, manifesta dificuldades moderadas na área curricular de Matemática, no entanto apresenta resultados satisfatórios. Manifesta competências muito desenvolvidas na área curricular de Expressão Musical. Em conversa com o aluno, apurámos que já praticava música antes de ingressar na escola, mais concretamente acordeão e piano. Para o professor de EE, seria de todo o interesse C1 frequentar o conservatório mas, considera que este tipo de instituições, em alguns casos, não estão preparadas para aceitar e lidar com a diferença, ao mesmo tempo que, muitas delas são pagas, o que também poderá constituir um obstáculo. Em contacto direto com C1, observámos a manifestação descontinuada de estereotipias características da cegueira, nomeadamente balançar repetidamente o troco para trás e para a frente, agitando simultaneamente os braços.

Reportando-nos agora aos casos D1 e D2, ambos frequentavam a mesma escola do ano letivo anterior. A turma era constituída pelo mesmo conjunto de alunos do ano transato. D1 nasceu às 24 semanas de gestação, vindo a sofrer de retinopatia da prematuridade, a qual conduziu à cegueira. Iniciou o 1ºCiclo do Ensino Básico com seis anos de idade. Segundo a professora de EE que o acompanha desde o início da escolaridade básica, D1 é uma criança com competências de autonomia desenvolvidas, nomeadamente na locomoção, manifestando dificuldades na área curricular de Matemática as quais, na sua perspetiva, não são consequência da cegueira. É uma criança com suporte

45 Quando referimos “mesmo conjunto de alunos”, não queremos com isso significar conjunto inalterado, mas mudanças pontuais até cinco elementos (entradas e saídas).

familiar adequado, sem configurar superproteção, nomeadamente pela mãe, a qual aprendeu Braille para poder apoiar a filha no seu desenvolvimento.

Tal como nos casos anteriores, E1 e E2 frequentavam a mesma escola do ano letivo anterior e a turma era constituída pelo mesmo conjunto de alunos. E1 cegou no final do primeiro ano de vida em consequência de uma retinopatia. Iniciou a escolaridade básica com seis anos de idade, tendo ficado retido nos 1º e 3ºanos do 1ºCiclo do Ensino Básico, na sua perspetiva, em consequência da cegueira. No ano letivo 2008/2009 foram estruturadas várias adaptações curriculares ao seu caso sendo que, no final do segundo período, não havia obtido aproveitamento a uma disciplina. A sua história de vida pessoal e familiar revela alguma instabilidade. Segundo informações colhidas junto do então Diretor do Agrupamento, E1 vive com os avós desde os primeiros anos de vida, consequência da atitude ausente e distanciada da mãe e do abandono por parte do pai. O abandono por parte do pai significa total ausência de contactos, enquanto a atitude ausente e distanciada da mãe, se revela no facto de ter constituído nova família, sem materializar plenamente a integração de E1 na mesma. Segundo as interpretações do Diretor do Agrupamento e da professora de EE, estas vivências, a par da cegueira, terão originado em E1 alguma instabilidade emocional, a qual tem sido trabalhada, também em contexto escolar, vindo a diminuir.

A escola frequentada por F1 e F2 era a mesma do ano letivo anterior e a turma era constituída pelo mesmo conjunto de alunos. O relatório médico de F1 refere uma acuidade visual nula, de forma permanente e irreversível, apontando como causa “provável persistência de vítreo hiperplástico primitivo com deslocamentos bilaterais da retina de ambos os olhos”. Iniciou a Educação Pré-escolar em 2002 e o 1ºCiclo do Ensino Básico em 2005/2006. É acompanhado pela EE desde o início da Educação Pré-escolar. Segundo a professora de EE, a frequência deste nível de escolaridade contribuiu para a estimulação e desenvolvimento adequados de F1. Nunca havia sido retida e aquando da recolha de dados, em Junho de 2009, era já certa a sua transição para o 5ºano de escolaridade. A referida professora caracterizou F1 como sendo uma criança autónoma, nomeadamente nas deslocações no espaço da escola, que questiona sobre vários assuntos e que aceita a cegueira com naturalidade, embora não goste de ser tratada por “cega” e, ainda menos, por “ceguinha”.

Embora frequentassem a mesma escola do ano letivo transato, a atual turma de G1 e G2 apresenta-se alterada em cerca de metade dos elementos, tendo por referência as respetivas turmas do ano letivo anterior. G1 frequentou uma e a mesma turma até ao final do 2ºCiclo do Ensino Básico, tendo então manifestado vontade de mudar de turma em consequência de incompatibilidades com alguns colegas. Tais incompatibilidades manifestavam-se em comportamentos agressivos para com os colegas, nomeadamente em termos verbais. Muitos desses comportamentos deviam-se a uma competitividade excessiva em relação a alguns colegas. Embora G2 tenha frequentado aquela que seria a antecessora da atual turma, ela foi sujeita a muitas saídas e entradas de alunos. Aproximadamente com um ano de idade, foi diagnosticado a G1 um tumor afetando o nervo ótico, de cuja extração viria a resultar cegueira total no olho direito e perceção luminosa no olho esquerdo, sem outras consequências ao nível neurológico. É acompanhado pela mesma professora de EE desde os três anos de idade, segundo a qual, esse acompanhamento terá permitido a estimulação adequada. Começou a aprender Braille aos cinco anos de idade, tendo sempre manifestado um bom rendimento académico, o qual se expressa na inexistência de retenções. A professora de EE caracterizou-o como “muito inteligente”. Segundo a mesma interlocutora, G1 revela frequentemente comportamentos ansiosos, chegando a expressar crises de ansiedade que se manifestam através de choro e vómito, apontando como razões a insegurança associada à condição de cego e “uma grande vontade de fazer bem”. A insegurança manifesta-se, por exemplo, na utilização frequente de expressões do género “eu não sou capaz” ou, aquando da aprendizagem da leitura e da escrita em que se recusava a aprender, dizendo que preferia “ser analfabeto” ou “ir para um lar da terceira idade”. Estas últimas expressões podiam indiciar falta de interesse e desmotivação, mas uma análise mais atenta por parte da professora de EE refletida ao longo dos nove anos de trabalho com o aluno, fê-la perceber que a principal razão destas atitudes estava relacionada com a insegurança, a qual levava G1 a pensar não ser capaz de aprender a ler e a escrever. A vontade de fazer bem evidencia-se na dificuldade de G1 aceitar uma avaliação inferior aos colegas, nas palavras da professora de EE “se alguém obtinha um excelente, ele tinha dificuldades em aceitar uma avaliação inferior a essa”. Enquanto frequentou o 3ºano do 1ºCiclo do Ensino Básico, viveu uma experiência paralela ao ensino regular, frequentando uma instituição especializada para cegos. Esta experiência não foi vivida de forma positiva por G1, o que se revelava, entre outros, no facto de ir e vir

a chorar nas viagens para e da instituição, ao ponto do próprio taxista que efetuava o transporte sentir necessidade de alertar a escola regular para o facto, nomeadamente na pessoa da professora de EE. A família tem para com G1 uma atitude excessiva de proteção, reflete a professora de EE, atitude essa que não tem contribuído para o desenvolvimento de algumas regras e atitudes por parte do educando, contribuindo para a manifestação de comportamentos inseguros, aparentemente “preguiçosos”.

Os casos H1 e H2 frequentavam a mesma escola e a mesma turma do ano letivo anterior. A turma era composta por 22 alunos, sendo que H2 está integrado no conjunto desde o 1ºano de escolaridade, enquanto H1 está desde o 3ºano, quando ingressou nesta escola pela primeira vez, vindo transferido de um outro estabelecimento de EBER. O relatório médico de H1 aponta como causa da cegueira “glaucoma bilateral congénito”. A professora do ensino regular de H1, considerou-o o melhor aluno da turma, com particular sucesso nas áreas curriculares de (i) Matemática (sobretudo cálculo mental, criação e resolução de situações problemáticas), (ii) Estudo do Meio (sobretudo a compreensão e capacidade de aplicação de conhecimentos e processos à vida real) e (iii) Língua Portuguesa (leitura fluida, com retenção, compreensão e aplicação dos conteúdos, quase isenta de incorreções, com entoação adequada; escrita adequada, com erros ortográficos pontuais). É considerado um aluno motivado, o que se evidencia não só nos resultados, mas também nas manifestações de agrado e empenho nas tarefas (“nunca nega uma tarefa”, segundo o relatório pedagógico elaborado pela professora do ensino regular do 2º ano de escolaridade), ou no desagrado com os “tempos mortos”, utilizando expressões como “é uma seca não ter nada para fazer” ou “caramba, não faço nada”. Por vezes, revela alguma instabilidade emocional associada à sua condição de cego. Segundo o seu processo individual, H1 é uma “criança muito protegida e valorizada pela família” que, sem o superproteger, tentou não privá-lo de nenhuma vivência própria das crianças em cada idade.