ESTUDO EMPÍRICO
H 10.: Não existem relações entre a integração social das crianças cegas congénitas em turmas do EBER, e as diferenças das suas representações mentais (riqueza, complexidade e
6. INSTRUMENTOS DE COLHEITA DE DADOS
6.1.1. Pré teste das entrevistas (entrevistas piloto)
Construída uma primeira versão do guião da nossa entrevista, nas suas diferentes partes e respetivos itens, havia que sujeitá-la a um primeiro teste, tendo em mente os seguintes objetivos: identificar possíveis dificuldades com a terminologia e o formato dos itens; testar, avaliar e refinar os aspetos processuais; registar e avaliar a adequação do tempo associado a cada processo; identificar as reações de sujeitos com características da amostra, quando confrontados com os itens e processos associados.
O conjunto de estímulos a aplicar na segunda parte da entrevista, estava dividido por categorias, tal como referimos anteriormente. Duas dessas categorias correspondiam a palavras, as quais classificamos quanto ao seu grau de concretização em, palavras abstratas e palavras concretas. Assim, consultámos as Normas de Concretude para 909 Palavras da Língua Portuguesa de Janczura et al. (2007), tendo obtido os seguintes valores médios, correspondentes à aplicação de uma escala de Likert de sete valores:
Quadro 3 - Grau médio de concretização das palavras estímulo
Palavras Grau médio de concretização [1, 7] Inteligência Amizade Estrela Nuvem Neve Montanha Baleia Cão Galinha Força Limpeza Malandrice Rejeitar Sujidade 2,31 2,44 5,76 5,84 5,97 6,14 6,55 6,62 6,77 Não especificado Não especificado Não especificado Não especificado Não especificado
O autor e seus colaboradores solicitaram a 719 sujeitos que julgassem o grau de concretização de 151 ou 152 palavras cada um, utilizando uma escala de Likert que variava entre 1 (altamente abstrata) e 7 (altamente concreta). Analisando a distribuição de resultados, os autores sugerem que as classificações médias das palavras abstratas se situam num intervalo que varia entre 1,61 e 4,45, enquanto as classificações médias das palavras concretas se situam num intervalo que varia entre 4,47 e 6,93. Paralelamente a esta análise de natureza quantitativa, solicitámos a uma especialista em Língua Portuguesa, a qual desconhecia a nossa própria classificação a priori, que classificasse cada uma das 14
palavras em abstratas ou concretas. As palavras foram-lhe entregues numa lista aleatória, sem qualquer outra indicação. Os resultados desta classificação estão expressos na figura 3, pela ordem em que se apresentaram na lista aleatória. Da sua análise, resulta que as classificações propostas pela especialista em Língua Portuguesa estão de acordo com os resultados obtidos por Janczura et al. (2007), para todas as palavras contempladas por estes últimos. As classificações propostas estão, também, de acordo com a nossa classificação a priori.
Figura 3 - Palavras estímulo quanto ao grau de concretização
Palavras Classificação Inteligência Montanha Estrela Sujidade Força Galinha Baleia Cão Malandrice Neve Nuvem Rejeitar Limpeza Amizade Abstrata Concreta Concreta Abstrata Abstrata Concreta Concreta Concreta Abstrata Concreta Concreta Abstrata Abstrata Abstrata
Posteriormente, conduzimos um conjunto de procedimentos exploratórios de natureza qualitativa, tal como recomendam Almeida e Freire (2000), com a intenção de avaliar os itens e os procedimentos, levando sempre que necessário à sua reformulação, acrescento ou retirada. Assim, conduzimos duas entrevistas piloto a dois dos sujeitos dos estudos de caso exploratórios descritos no ponto 2.1.2. do capítulo IV, o sujeito B1 (cego congénito) e o sujeito B2 (vidente), ambos a frequentar a mesma turma. Para avaliar os procedimentos de aplicação da entrevista, assim como o conteúdo e a forma dos itens, nomeadamente quanto à sua clareza, compreensibilidade e adequação aos objetivos da investigação, seguimos o processo designado por reflexão falada (Almeida e Freire, 2000), pensar alto nas palavras de Foddy (1996). Procurámos que estes sujeitos nos descrevessem abertamente a sua interpretação de certos itens e procedimentos, a forma como os abordaram e realizaram, assim como as facilidades ou dificuldades que encontraram.
Da análise às entrevistas piloto resultou a necessidade de proceder a retiradas e reformulações ao nível de alguns itens, assim como à reformulação de alguns
procedimentos. Constatámos que as entrevistas piloto resultaram demasiado longas, aproximadamente duas horas e meia cada, levando a uma maior influência negativa em consequência do cansaço manifestado pelos sujeitos. No decorrer destas entrevistas, os próprios sujeitos nos chamaram a atenção para estímulos muito semelhantes, intra ou inter- categorias. Por exemplo, na categoria palavras concretas, tínhamos contemplado como palavras estímulo galinha e cão, as quais foram retiradas, em virtude da categoria sons já contemplar como estímulos um galo a cantar e um cão a latir. Optámos por retirar as palavras, em virtude da categoria palavras concretas deter, à partida, um maior número de itens. A categoria objetos tridimensionais incluía, entre outros, os estímulos maçã e laranja, cujas características tácteis ao nível da textura são muito semelhantes ás da pêra e do limão, respetivamente, pelo que, em certa medida, se tornavam objetos estímulo redundantes. Optámos por manter os objetos pêra e limão em detrimento da maçã e da laranja, uma vez que os primeiros se compõem de formas mais ricas e específicas. Entre as várias figuras em relevo propostas, encontravam-se um quadrado e um retângulo, figuras geométricas com várias características comuns, nomeadamente serem constituídas por quatro lados, paralelos dois a dois e por quatro ângulos retos, pelo que, poderiam tornar-se estímulos redundantes. Atendendo à necessidade de reduzir a duração das entrevistas, decidimos manter o estímulo retângulo em detrimento do estímulo quadrado, pelo primeiro possuir mais um elemento de diferenciação e análise em relação ao segundo, ou seja, ter os lados iguais dois a dois, enquanto no quadrado todos os lados são iguais.
Durante a aplicação das entrevistas piloto, constatámos que os sujeitos demoravam aproximadamente um minuto, em média, na descrição oral das representações mentais evocadas por cada um dos estímulos. Uma vez que tínhamos previsto dois minutos para esta tarefa, procedemos ao devido ajustamento, reduzindo de dois para um minuto o tempo máximo previsto para a descrição verbal oral das representações mentais. Ao observarmos B1 e B2 na exploração táctil dos objetos tridimensionais e das figuras em relevo, constatámos que o minuto previsto inicialmente se revelava excessivo, uma vez que os sujeitos investiram, em média, aproximadamente 30 segundos na exploração táctil de cada um destes estímulos. Consequentemente, reduzimos para metade o tempo previsto para a exploração táctil dos objetos tridimensionais e das figuras em relevo. Com a retirada de alguns itens e a reformulação dos procedimentos, a duração da entrevista reduziu aproximadamente 60 minutos.
Paralelamente, Solicitámos a dois professores do 1ºCiclo do Ensino Básico, a professora titular de turma de B1e de B2 e o professor de Educação Especial de B1, Mestre em Educação Especial com especialidade na Área da cegueira, que analisassem o guião da nossa entrevista, nomeadamente quanto à adequação dos itens e dos procedimentos, nomeadamente ao nível das tarefas a propor aos alunos. Ambos os docentes consideraram os procedimentos e os itens adequados na generalidade, sendo que a professora titular de turma nos alertou que a entrevista poderia resultar demasiado longa, levando à desmotivação dos sujeitos. Por sua vez, o professor de Educação Especial sugeriu a introdução de um novo item, o som das ondas do mar, recomendação que acatámos.
Na aplicação das entrevistas piloto identificámos a necessidade de clarificar e destacar adequadamente a natureza linguisticamente livre das descrições verbais orais relativas às representações mentais, sendo que os únicos constrangimentos eram o limite de tempo e a necessidade das palavras representarem, o mais fielmente possível, as representações mentais evocadas pelos estímulos. Tal necessidade de clarificação surgiu quando o sujeito B1 nos questionou se a descrição que pretendíamos era equivalente às atividades de associação de palavras que havia realizado nas aulas. Não obstante essa ser uma forma possível e viável de recolher dados sobre as representações mentais dos sujeitos, as descrições que pretendíamos não impunham essa restrição.
No ponto seguinte apresentamos um conjunto de análises quantitativas, as quais nos permitiram avaliar a fidelidade e a validade das entrevistas, assim como a consistência dos itens.
6.1.2. Construção e validação das entrevistas definitivas: análise e seleção dos itens