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Boa-fé: o substrato da Teoria do adimplemento substancial

1. A estruturação da Teoria do adimplemento substancial

1.2. O princípio da boa-fé

1.2.3. Boa-fé: o substrato da Teoria do adimplemento substancial

A boa-fé objetiva é o fundamento essencial da Teoria do adimplemento substancial, ao exigir das partes condutas calcadas na confiança, lealdade, probidade, especialmente no momento do adimplemento, a fim de mensurar sua exata extensão e, ao detectar, algum desvio da prestação prometida pela outra parte, será por meio dos elementos da boa-fé objetiva que se compreenderá o efeito da prestação executada, bem como as sanções de seu eventual inadimplemento mínimo . Em outras palavras, este princípio relativiza a aplicação do instituto da resolução por uma questão de justiça substancial e de eqüidade, evitando-a se houver o preenchimento dos requisitos do adimplemento substancial.

No momento do adimplemento das obrigações assumidas pelas partes, a boa-fé exigida é a objetiva, segundo a qual as disposições contratuais e o comportamento das partes (regra de conduta padrão socialmente exigível) devem ser compatíveis com o equilíbrio econômico e os pressupostos do contrato, sob pena, em alguns casos, de ocasionarem a nulidade do contrato284, como por exemplo, na hipótese do abuso de direito.

Dentro de um programa contratual, o credor deve ter um motivo justo e legítimo, segundo os ditames da boa-fé objetiva, para recusar-se a receber determinada prestação, na medida em que “un suo rifiuto di ricervela deve essere giustificato da un motivo legitimo. É un rifiuto controllabile dal giudice in sede giurisdizionale; c’è indubbiamente, da parte del creditore, un

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dovere di buona fede, e a sanzione di questo dovere, una sua soggezione, poichè se non adempie spontaneamente a questo dovere di bouna fede, egli è soggeto agli effetti giuridici della mora (art. 1207), effeti per lui pregiudizievoli, e che costituiscono la sanzione, per l’apppunto del dovere a lui incombente di collaborare all’adempimento, di collaborare all’esecuzione della prestacione285”.

O princípio da boa-fé objetiva atua de forma a proteger o devedor frente a um credor malicioso e inflexível (infrator da boa-fé subjetiva), como causa de limitação do exercício de um poder jurídico, no caso, do direito formativo de resolução que se for exercido diante do adimplemento substancial será abusivo. Isso porque se a obrigação foi substancialmente adimplida, o pedido de resolução não trará nenhum benefício legítimo ao credor, apenas prejuízos para o devedor que, tendo praticamente satisfeito a totalidade da obrigação, verá tudo retorar ao status quo ante, sem ser contemplado com o recebimento proporcional da contraprestação devida pelo credor.

Além desse prejuízo causado ao devedor, é inegável que a resolução nos casos de adimplemento substancial também trará prejuízos ao credor que arcará com o custo das despesas desembolsadas para o retorno da obrigação ao status quo ante que serão maiores do que o prejuízo gerado pelo inadimplemento de parte mínima da obrigação. De fato, é sútil essa questão, às vezes, não valorada pelo credor, que em um primeiro momento, no anseio de resolver o contrato pela frustação ínfima de não ter o seu interesse satisfeito totalmente como previa o programa contratual, acaba rompendo o vínculo contratual. Se não houvesse a aplicação do princípio da boa-fé objetiva, na configuração do adimplemento substancial, o credor perderia duas vezes diante do adimplemento substancial: (i) perderia porque não obteria nenhum proveito da prestação executada quase que totalmente, em razão da resolução do contrato; e, (ii) perderia, pela segunda vez, com o desfazimento do vínculo contratual em razão do suporte das despesas geradas por este rompimento.

Assim, o princípio da boa-fé objetiva não assume apenas a função de tutelar o devedor contra qualquer indício de exercício arbitrário do direito potestativo de resolução por parte do credor,

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mas também age como critério balisador do interesse do credor que deve ser avaliado por meio da mensuração do real benefício extraído da utilidade da prestação executada, ainda que ausente uma parcela mínima, posto que “... non si dice che solo il debitore nell’adempimento della obbligazione deve comportarsi secondo buona fede, ma si dice che tanto l’una quanto l’altra pate, tanto il debitore quanto il creditore nei reciproci rapporti debbono tenere un contegno rispondente al criterio di correteza...286”.

A exigência de comportamento de confiança de ambas as partes é decorrente da boa-fé objetiva, que ao exercer seu controle diante do adimplemento substancial é realizada por meio do controle jurisdicional, caso necessário, porquanto que “... il criterio della buona fede serve a valutare se vi sia stato, o meno, il soddisfacimento dell’interesse della controparte, nei casi in cui si fa questione se la prestazione esiga od offra ancora per il creditore quella utilità che essa è destinadta ad apportagli (artt. 1180, 1256, 1379, 1411,1455 etc). A questo proposito ci limiteremo a richiamare le norme che contemplano la risoluzione per inadempimento (art. 1455) e il così detto termine essenziale (art. 1457). Qui l’apprezzamento se l’inadempienza abbia scarza importanza, o se la prestazione tardiva sia ancora nell’interesse dell’altra parte, è sì rimesso alla iniziativa dellla parte interessata; ma l’apprezzamento non è arbitrario, bensì controllabile. Il giudice potrà controllarlo; e qui, sempre alla stregua della buona fede, sarà da apprezzare se un adempimento tardivo o parciale (art. 1464) sia pur sempre tale da apportare una utilità, o non sia più tale da soddisfare l’interesse del creditore287”.

A confiança, por ser a materialização da boa-fé como já discorrido anteriormente, implica no dever de diligência, que nos termos da boa-fé objetiva, imputa ao devedor a obrigação de adimplir integralmente, desde a fase pré-contratual até todo o desenvolvimento do contrato, buscando, ao máximo, a satisfação dos interesses do credor, evitando-lhe causar danos. Tal dever impõe-lhe o “adequado esforço volitivo e técnico para realizar o interesse do credor e não lesar direitos alheios. (...) Para satisfazer ou respeitar tais interesses, deve o sujeito lançar mão de todo o esforço apropriado, segundo um critério de normalidade, empregando meios materiais, observando normas técnicas e jurídicas, adotando a cautela adequada, etc288”.

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BETTI, Emilio. Op. cit., p. 81

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Idem, Ibidem, p. 105.

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Por sua vez, com fundamento na boa-fé objetiva, o credor também tem o dever de não dificultar a realização do adimplemento da obrigação do devedor, bem como criar um ambiente de cooperação mútua para facilitar a prestação. Esse preceito vem expressamente previsto no artigo 422 do Código Civil, exprimindo a aplicação da boa-fé objetiva dentro do adimplemento, no sentido de propugnar pela atuação da parte adimplente que deverá estar imbuída de lealdade, agindo a gerar confiança no devedor de que a prestação executada será recebida em seus efeitos, mesmo se não adimplida totalmente, cujo descumprimento seja mínimo e ser importância, mas que atingiu a satisfação de seu interesse no escopo principal.

Esse dever de agir conforme a boa-fé objetiva não pode ser excluído ou renunciado pelas partes dentro de um programa contratual, sendo que se existir disposição nesse sentido, a mesma será nula. É um dever imperativo e balisador de todas fases contratuais que aspiram pelo adimplemento, uma vez que não podemos olvidar que o contrato é celebrado, visando seu término, isto é, seu fim regular pelo cumprimento das prestações dispostas no programa contratual. Tanto o credor como o devedor ao celebrarem um negócio jurídico bilateral ou plurilateral não podem assumir posição de partes contrapostas como se estivessem em um litígio, primando pela imposição da força de um contratante sob o outro. A cooperação mútua e a proteção à liberdade negocial decorrentes da boa-fé objetiva devem prevalecer em detrimento de qualquer interesse individual egoístico que possa, eventualmente, se manifestar.

Em suma, com fundamento na boa-fé objetiva, a Teoria do adimplemento substancial pretende proteger e auxiliar aqueles que leal e honestamente esforçaram-se em executar seus contratos de acordo com suas disposições materiais e substanciais, de modo que seu direito de receber a contraprestação devida pelo credor não deva ser obstado em razão de meros descumprimentos mínimos ou não importantes, descontando-se, dentro do critério da razoabilidade, a proporção do pagamento devida pela ausência da parte ínfima da obrigação não executada, se for o caso.