No negócio jurídico oriundo do fato jurídico conjugado com a vontade humana qualificada que se manifesta com o intuito de regular direitos e deveres de uma relação jurídica calcada em um objeto lícito139, os particulares conseguem estabelecer normas individuais para regular suas situações particulares. Com essa permissividade, o negócio jurídico assume papel de destaque por possibilitar o exercício da autonomia privada. Por essa razão, a vontade existente na ação humana criadora do negócio jurídico representa elemento importante de reflexão, ensejando a classificação, de acordo com esse critério, em negócio jurídico unilateral, bilateral ou plurilateral.
No negócio jurídico unilateral, existe um contratante que manifesta sua vontade, cuja obrigação vinculará apenas o declarante. No negócio jurídico bilateral, existem duas manifestações de vontade que convergem para o mesmo objeto, porquanto que no negócio jurídico plurilateral existem mais de duas vontades manifestadas em torno do mesmo bem jurídico tutelado.
Em razão do nosso tema, estar circunscrito nos negócios jurídicos bilaterais e pluraterais que representam o contrato, observaremos a seguir apenas a estrutura destes.
Nos negócios jurídicos bilaterais e plurilaterais, a obrigação é formada por dois sujeitos (credor e devedor), o objeto (prestação de dar, fazer, ou não fazer) e os requisitos legais (objeto lícito, possível, determinado ou determinável, capacidade civil dos agentes, forma prescrita ou não defesa em lei – CC, art. 104) e os elementos acidentais derivados do contrato, da lei ou do princípio da boa-fé140.
139
TARTUCE, Flávio. Direito civil: direito das obrigações e responsabilidade civil. Lei de introdução e parte
geral 1, p. 226.
140
A relação obrigacional representa o liame existente entre o direito subjetivo do credor diante do dever jurídico do devedor, na medida em que “... el acreedor tiene derecho ‘a’ la prestación (a recebirla), mas no que tenga derecho ‘sobre’ la prestación – como lo tiene el propietario sobre la cosa) y que su derecho se dirige ‘contra’ el deudor; pero no es un derecho sobre la persona del mismo, como ocurre con la propiedad sobre la cosa141”.
A diferença abordada no parágrafo anterior refere-se a distinção entre direito obrigacional e real. O direito subjetivo do credor existente no direito obrigacional é diferente do exercício do direito real, sendo necessário destacar a diferença entre ambos para compreendermos que no primeiro a vinculação existente recai em face do devedor, passível de execução apenas patrimonial, sendo um direito relativo em razão de não possuir validade perante terceiros; enquanto que o direito real exerce influência sobre a coisa, sendo absoluto no sentido de que todos devem respeitá-lo. 142
Por outro lado, na sua estrutura, “a relação obrigacional pode ser entendida em sentido amplo ou em sentido estrito. ‘Lato sensu’ abrange todos os direitos, inclusive os formativos, pretensões e ações, deveres (principais e secundários dependentes e independentes), obrigações, exceções, e ainda posições jurídicas”143. “Neste sentido lato, apresenta-se como sinómino de dever jurídico e de sujeição ou estado de sujeição. Num significado ainda mais amplo, abranger-se-á também o ônus jurídico144.” Por sua vez, em sentido estrito, “... dever- se-á defini-la tomando em consideração os elementos que compõem o crédito e o débito, como faziam os juristas romanos145”.
141
LAPENZ, Karl. Op. cit., p. 24.
142
Cf. Edmundo Gatti, Teoría General de los Derechos Reales, p. 15.
143
ZEPOS, Zu einer “gestalttheoretischen” Auffassung”. p. 486. Archiv fl. Die civ. Praxis, 155. apud COUTO E SILVA, Clóvis. Op. cit. p. 8.
144
COSTA, Mario Júlio de Almeida. Op. cit., p. 53.
145
O autor Mário Júlio de Almeida Costa classifica a obrigação como dever jurídico, no sentido lato, recaído no efeito impositivo da norma jurídica de determinada conduta, em relação a uma (efeito particular) ou mais pessoas (efeito geral), sob pena do infrator sofrer sanções previstas no ordenamento. O estado de sujeição, segundo referido autor, seria os direitos potestativos, ou seja, aquele que é exercido pelo ato de vontade de seu titular.
Neste sentido, independe a vontade do sujeito passivo, tendo o titular do direito total autonomia para exercê-lo. Em um significado mais amplo, representa o ônus jurídico que significa “... a necessidade de adoptar certa conduta para a obtenção ou conservação de uma vantagem própria146”.
Por sua vez, o sentido estrito da obrigação, segundo a visão do jurista Mário Júlio de Almeida Costa, consiste nas relações obrigacionais ou creditórias. Sob esta ótica, ele define obrigação como “o vínculo jurídico por virtude do qual uma pessoa fica adstrita para com outra à realização de uma prestação que deve corresponder a um interesse do credor, digno de proteção147”.
É importante frisarmos essa concepção da obrigação do ponto de vista do interesse do credor, que é digno de tutela jurídica, que nos será bastante útil ao analisarmos a questão do inadimplemento em face do adimplemento, bem como a extensão dos interesses da parte adimplente e a tutela jurídica do devedor no capítulo V, uma vez que mister valorar o interesse daquele de forma equânime, a fim de não onerar demais o devedor, evitando assim qualquer desequilíbrio do negócio jurídico construído sob o equilíbrio das obrigações de ambos contratantes; e, especialmente, para verificarmos com maior precisão a extensão de inadimplemento absoluto, relativo ou mínimo.
No negócio jurídico bilateral ou plurilateral celebrado, a relação jurídica disposta sob as obrigações elencadas pelas partes é justificada pela satisfação do interesse do credor em receber a prestação do devedor que, uma vez satisfeito, liberará o devedor, com êxito do
146
COUTO E SILVA, Clóvis. Op. cit., p. 54.
147
vínculo contratual estabelecido, sendo neste momento exigível a contraprestação por parte do credor. Neste contexto, a obrigação apresenta como objeto, a prestação que “… puede consistir en una acción o en una omisión del deudor (§ 241, frase 2) y concretamente puede ser la entrega de una cosa o de un derecho, la concesión del uso de la cosa o de sus provechos, o cualquiera outra actividad. La prestación ha de serle en algún aspecto ventajosa al acreedor; no se exige que se trate de una ventaja patrimonial148”.
A satisfação do interesse do credor oriundo do vínculo do negócio jurídico é correlata ao benefício decorrente da execução da obrigação a favor do credor, o qual desafia a questão da patrimonialidade da obrigação por ser matéria controvertida pelas doutrinas estrangeiras, sendo certo, v.g., que na doutrina italiana a patrimonialidade da obrigação é elemento intrínseco da sua estrutura, como preconiza o artigo 1321 do Código Civil italiano: “Il contratto è l’accordo di due o più parti per costituire, regolare o estinguere tra loro um rapporto giuridico patrimoniale”.
Ao comentar o referido dispositivo legal, Emílio Betti fundamenta as razões da patrimonialidade da obrigação, verbis: “La ragione per cui la prestazione, oggettivamente considerata, deve essere suscetttibile di una valutazione econômica, è facilmente identificabile. Il diritto, infatti, nel prevedere l’eventualità che la prestazione non sia eseguita, distingue nettamente due ipotesi: 1º) che la prestazione abbia carattere fungibile e quindi la cooperazione mancata possa surrogarsi, in quanto la tipica utilità che essa è destinata a conferire al creditore è conseguibile anche mediante l’attività di un terzo, sia questo un organo dello Stato o un organo giurisdizionale o esecutivo, ovvero dando la possibilità allo stesso creditore di soddisfare il suo interesse mediante autodifesa autorizzata (vendita coattiva); 2º) che la prestazione sia infungibile e quindi non sia surrogabile: nel qual aso deve essere data al creditore la possibilità di soddisfarsi per la cooperazione mancata mediante un ‘compenso’ pecuniario, il quale fungerà da risarcimento del danno (art. 1223), o, eventualmente, da riparazione satisfattoria di un torto che non consista propriamente in una lesione patrimoniale (art. 185 cod. pen.)149”. Bianca também acompanha esse posicionamento150.
148
LARENZ, Karl. Op. cit., p. 20.
149
BETTI, Emilio. Op. cit., p. 51-52.
150
Todavia, esse ponto de vista não é adotado pela doutrina pátria conforme as lições de Renan Lotufo que aponta um simples exemplo para impugnar o requisito patrimonial da obrigação: se apenas obrigações de cunho patrimonial são passíveis de formarem o contrato, o matrimônio não será contrato por ser um negócio extrapatrimonial151. No entanto, cabe frisar que no ordenamento pátrio, a maioria dos contratos insere-se na categoria de patrimonialidade.
Independentemente da controvérsia acima suscitada, é fato que toda obrigação tem por objeto um comportamento humano expresso pelas ações de dar, fazer ou deixar de fazer alguma coisa, e tais atos realizados representam o objeto da obrigação, ou seja, a prestação que “está integrada por un comportamiento del deudor, por una conducta activa u omisiva del obligado152.”
Por conseguinte, a prestação é uma expectativa útil do credor, que tem por objeto receber uma atividade no seu interesse; trazendo um resultado à disposição do credor, desde que seja executada no modo, lugar e tempo previstos no contrato ou na lei; sendo que “in mancanza, essere rimesso al debitore, il quale deve comportarsi secondo buona fede, ‘in modo di conciliare gli opposti interessi153”.
A ressalva existente na doutrina italiana de que a ausência de previsão legal ou contratual do modo, lugar e tempo de execução da prestação ensejará a realização da obrigação pelo devedor de forma a conjugar os interesses contrapostos, sob os ditames do princípio da boa-fé objetiva, é pilar concreto para sustentar a tese de que a estrutura do negócio jurídico bilateral ou plurilateral deve estar pari passu ao equilíbrio da prestação útil e benéfica ao credor mas também à contraprestação equânime e proporcional ao devedor. Se não for possível a concretização destes dois elementos, o contrato esvazia-se, perdendo seu fim: o adimplemento.
151
Anotações de aula da matéria “Contratos e o Código Civil” ministrada no 1º semestre de 2004 do curso de mestrado em Direito na PUC/SP.
152
ROMERO, Pablo Casafont. Op. cit., p. 15.
153
Dessa forma, mesmo ausente a previsão das condições da obrigação exige-se do devedor uma conduta responsável de executar a prestação, e por outro lado, também obriga-se ao credor a estar disponível nesse momento para facilitar a realização do adimplemento. Nada adianta a boa-fé objetiva do devedor em querer efetivar o programa contratual, se o credor também não contribuir para esse fim.
Essa conduta do devedor, na doutrina pátria, advém da aplicação do princípio da boa-fé objetiva e também deve ser exigida com a razoabilidade que lhe é implícita, bem como dos fins sociais e econômicos assumidos pelo negócio jurídico.
Assim, a causa do negócio jurídico, considerada o interesse prático do contrato, ao passo que “não há contrato sem causa154”, pode ser classificada como causa razoável ou causa suficiente. A primeira confere juridicidade ao acordo realizado entre as partes contratantes, a fim de impigir-lhe os efeitos jurídicos próprios do negócio jurídico típico ou atípico. A segunda identifica o liame existente entre a prestação e a contraprestação.
Em razão da relevância da causa do negócio jurídico, é mais adequado justificar a real natureza das obrigações sinalagmáticas ao preconizar que: “el juego de la causa, en efecto, presta base cierta y de innegable contenido jurídico para admitir el por qué, ante el incumplimento por una de las partes de sus prestaciones nacidas de un contrato bilateral, pueda la otra pedir la resolución de éste liberándose de las obligaciones que le incumben. Si el vínculo de reciprocidad se muestra en las obligaciones bilaterales y si en virtud de esa interdependencia de prestaciones se entiende, como ya se dijo, que cada parte asume su obligación para obtener el cumplimiento de la obligación de la outra, ello denota la mutua causalidad de los vínculos, que desaparece desde el momento en que sobreviene el incumplimiento155”.
A Teoria da causa, no sentido que lhe dá a doutrina italiana, representa a causa do negócio jurídico como a função econômico-social do contrato. E sob esse prisma, também
154
AZEVEDO, Antonio Junqueira de. Negócio jurídico e declaração, p. 123.
155
vislumbramos, na estrutura do nosso sistema positivo, a mesma função, sendo a causa do negócio jurídico como justificadora do adimplemento substancial, posto que “para lá dos contratos, essa causa é, em termos de hoje, o próprio ‘reconhecimento social do jurídico’, no negócio jurídico156...”
Essa concepção é adotada pelo fato de que se o fim do contrato é a circulação de riquezas dentro da segurança jurídica, sua função econômico-social apenas será atingida se proporcionar a preservação do contrato de acordo com a proporção da obrigação prestada. Nada adiantaria a aplicação do direito resolutório se o fim sócio-econômico fosse configurado diante do cumprimento quase que integral do programa contratual, restando uma parte mínima da obrigação descumprida.
Por conseguinte, “... a base econômica que origina a contratação, ou seja, a sua ‘causa’, preside tanto o nascimento do vínculo quanto regula seus efeitos. Esta assertiva, aparentemente revestida de encantadora simplicidade, em realidade amplia a causa, deslocando-a do seu lugar natural de elemento de existência do contrato, para conferir-lhe nova feição ‘funcional’, travestindo-a, agora, de ‘fator de eficácia’. Logo, derivando o contrato bilateral da reciprocidade de ‘obrigações’, dito sinalagma genético, ou primeiro e original sentido de causa, o que representa a utilidade visada pelos contratantes, o inadimplemento de um figurante destrói o recebimento do benefício pelo outro, dito sinalagma funcional ou segundo sentido de causa, e, conseqüentemente, aniquila a própria causa do negócio157”.
Adicionalmente, a importância da causa do negócio jurídico pode ser resumida pelas palavras de Serpa Lopes ao afirmar que “a sua inexistência importa na inexistência do negócio jurídico158”.
156
AZEVEDO, Antonio Junqueira de. Op. cit., p. 123
157
ASSIS, Araken de. Resolução do contrato por inadimplemento, p. 67.
158
É deveras fundamental entendermos a abrangência dessa afirmação para que seja possível vislumbrar o porquê o inadimplemento destrói a causa do contrato, ao extinguir a reciprocidade das obrigações, sem deixar espaço para utilidade ou benefício a favor do credor. Essa destruição possibilita o exercício do direito potestativo resolutório, posto que “la resolución por incumplimiento de la contra parte se reduce bien al concepto de ‘falta sobreviniente de causa de la obligación’, esto es, de falta de fundamento de la obligación de cumplir en vista del hecho de que la contraparte no cumple159’.”
Sob essa ótica, o elemento causa do contrato é exigido para conferir validade às obrigações dispostas em um programa contratual, sendo necessária sua presença desde a fase de formação do contrato até o término da relação jurídica obrigacional.
Pela configuração do inadimplemento, e tendo em vista a interdependência das obrigações assumidas dentro de um negócio jurídico bilateral ou plurilateral, a causa deste deve ser compreendida em sentido teleológico e deontológico, ou seja, “atinente à exigência de sociabilidade que preside à função ordenadora do direito. Tal como os direitos subjetivos, também os poderes de autonomia, efetivamente, não devem ser exercidos em oposição com a função social a que são destinados: o instrumento da autonomia privada, colocado à disposição dos indivíduos, não deve ser desviado do seu destino160”.
Considerada sob a sociabilidade exigida dentro da autonomia privada pelo controle externo aplicado a qualquer negócio jurídico, a causa do negócio representa a função econômico- social caracterizadora desse tipo de relação jurídica formada, sendo fonte normativa da determinação dos limites impostos aos direitos subjetivos como recurso salutar de estabelecer os requisitos mínimos e necessários que todo contrato deve seguir. A causa, neste contexto, coíbe excessos no exercício do direito subjetivo, exaltando a sua função socialmente relevante do negócio-tipo.
159
MESSINEO, Doctrina General del Contrato. Tomo II, p. 337.
160
Com fundamento nessa visão, depreendemos que a causa final do negócio jurídico consiste no efeito jurídico que se espera de um determinado ato (finalidade), isto é, a mudança pretendida pelas partes seja por ação comissiva ou omissiva. Nos negócios jurídicos bilaterais e plurilaterais, compreende a prestação da contraparte. Por outro lado, a causa impulsiva do negócio jurídico engloba a satisfação que a parte deseja obter. Nos negócios jurídicos bilaterais e plurilaterais, engloba o uso (a utilidade) que se fará da prestação. E, por fim, a causa eficiente consiste na fonte do contrato, ou seja o consenso reconhecido pelo ordenamento jurídico como fonte normativa.
Bartolo afirma ser a causa final elemento essencial a todo contrato bilateral e a sua falta, pelo descumprimento do devedor, determinante da extinção da própria relação. Para isso, colaborou com o peso da autoridade de Dumoulin, que estendeu a noção de causa a todos os contratos nominados161. Contudo, vale frisar que não é qualquer ausência da causa final que ensejará a resolução do negócio jurídico; apenas a deficiência fundamental desta que fundamentará o exercício desse direito potestativo. Por este último requisito, o adimplemento substancial incorpora sua vestimenta por se tratar de descumprimento de parte não fundamental da prestação; que não afeta a causa final do negócio jurídico.
Não obstante, na bilaterialidade e reciprocidade existentes no contrato, a causa do negócio jurídico deve subsistir, sob pena de causar a resolução do contrato, na medida em que “dans un contrat synallagmatique l’ obligation de l’ une des parties a pour cause l’ obligation de l’ autre et réciproquement, en sorte que, si l’ obligation de l’ une n’ est pas remplie, quel qu’ en soit le motif, l’ obligation de l’ autre devient sans cause162”.
Se houver a nulidade da causa do negócio jurídico por parte do co-contratante, não haverá espaço para defender o adimplemento, aniquilando o programa contratual como um todo. Diante do inadimplemento de um dos contratantes, a causa do negócio jurídico torna-se desnaturada163, ou seja, dissolve-se, deixando o contratante inocente sem a salvaguarda do cumprimento do programa contratual, possibilitando-o assim a exigir o cumprimento da
161
CAPITANT, Henri. De la Cause des Obligations. p. 330-331.
162
Idem, Ibidem, p.340.
163
prestação pelo devedor mais perdas e danos164; ou a resolução do contrato cumulada com o ressarcimento das perdas e danos causados por esse inadimplemento.
Para explicitar o inadimplemento, alguns juristas165 entendem que a resolução advém da causa do negócio jurídico: “... o incumprimento deixaria o contrato sem causa. Pela doutrina tradicional da causa, que vê a resolução como elemento estrutural da formação do contrato, a assertiva é facilmente refutável: o incumprimento se dá na fase da execução (sinalagma funcional), não podendo ter efeito extintivo sobre a fase genética. CAPITANT, afastou a objeção ao considerar a causa incluída também no sinalagma funcional. Mas, pondera-se, se o incumprimento elimina a causa e, assim, destrói o contrato, a sua extinção pela resolução poderia ser pedida também pelo devedor, o que foge à regra. Além disso, e mais importante, o incumprimento deixa outras alternativas ao credor, que pode buscar, na ação de adimplemento, a execução em espécie ou pelo equivalente. AULETTA é o mais eloqüente defensor da tese da resolução como sanção, conseqüência jurídica aflitiva imposta ao devedor inadimplente. Percebe-se, porém, e com facilidade, que a resolução libera ambos os contratantes, com recíproca restituição das prestações recebidas, pelo que não pode ser definida como sanção ao credor não-inadimplente. Mais aceitável é o entendimento de residir o fundamento da resolução na necessidade de defesa do interesse do credor e, igualmente, na necessária manutenção do equilíbrio das partes no contexto do contrato, com a equivalência entre as correspectivas prestações, a ser garantida também na fase funcional166”.
Distintamente, no adimplemento substancial, a causa final (efeito jurídico pretendido) e a causa impulsiva (a satisfação do interesse da parte e a utilidade da prestação) do negócio jurídico persistem, pois verifica que na relação obrigacional caracterizada pela ausência da prestação de parte mínima há a concretização da causa do contrato, revestindo de validade as obrigações assumidas, ainda que de maneira quase que integral.
164
O ordenamento jurídico vigente admite que o contratante cumpridor de suas obrigações exija o adimplemento