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Por ser o adimplemento o momento de apogeu do contrato esvaindo-se logo em seguida em razão do cumprimento integral ou ainda por eventuais frustrações na falha ou na ausência da realização integral da prestação devida (descumprimento parcial ou total), focamos neste capítulo ao estudo do adimplemento pelas diversas ramificações positivas (cumprimento) ou negativas (descumprimento), resultantes de cada forma de cumprimento do sinalagma contratual e os interessantes reflexos deste fenômeno que apresenta aos juristas no século XXI, na fase pós-moderna do contrato, importantes desafios a fim de estancar as atrocidades existentes tanto do lado do credor como do lado do devedor quando ocorre alguma distorção no cumprimento de obrigações equivalentes resultando no desequilíbrio da eqüidade.

O adimplemento é o foco principal de qualquer contrato, por representar a vontade contratual de ambos contratantes expressa na realização da prestação e contraprestação devidas. A extinção normal do contrato pelo adimplemento consiste ao meio através do qual as partes recuperarão sua liberdade individual existente antes da pactuação da liberdade contratual no momento em que decidiram estabelecer o programa contratual, como fundamenta Pablo Casafont Romero, verbis: “Por cumplimiento de la obligación se entiende la realización de la prestación debida, que determina su extinción. Representa tal cumplimiento, en la vida del contrato, su última fase o momento, el de la consumación a diferencia de los de generación y perfección del mismo, supuesto que al ejecutarse la prestación debida, desaparece o se extingue la relación jurídica obligacional, liberándose el deudor y quebando satisfecho el interés del acreedor, sujeitos ambos de la misma, para ser restituídos al estado de libertad en que se encontraban antes del nacimiento del vínculo contractual204”.

Essa liberação advinda do adimplemento é possível em razão da execução regular das obrigações correspectivas dispostas em um contrato no tempo, modo e lugar devidos. Na

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satisfação de interesses de ambas as partes por meio do adimplemento, o estado de liberdade individual dos contratantes é automaticamente reconquistado. Esta força decorrente do adimplemento regular advém da submissão aos seguintes princípios: o da boa-fé; o da correspondência, identidade ou pontualidade; o da integralidade e o da concretização205.

Segundo Judith Martins-Costa, o princípio da boa-fé é expresso por meio da “atuação do credor no exercício do seu crédito como a atividade do devedor no cumprimento de sua obrigação têm de ser presididas pelos ditames da lealdade e da probidade206”. Esse aspecto do princípio da boa-fé decorre da sua modalidade objetiva, cuja imposição é requisito elementar e primário para o adimplemento, posto que ambas as partes contribuem, cada uma com sua obrigação e dever de probidade, para a realização do cumprimento regular e satisfatório. A mesma jurista conceitua o princípio da correspondência, identidade ou pontualidade como o regramento exigido pelas partes de acordo com a obrigação imposta, com a qualidade e forma previstas no programa contratual, ressalvando quanto ao aspecto de pontualidade que “não se pode limitar pontualidade ao tempo da prestação207”. Esse princípio modela o adimplemento, na medida em que estabelece a imperatividade do cumprimento da obrigação seguir as disposições, seja no aspecto formal ou pontual. O princípio da integralidade impõe que a obrigação seja prestada sempre de forma integral, exceptuando os casos de livre pactuação das partes nesse sentido, cumprimento parcial ou de adimplemento substancial. Por fim, de acordo com António Menezes Cordeiro, “o princípio da concretização reúne o conjunto de parâmetros necessários para transmudar o teórico comportamento devido, previsto na obrigação, numa atitude concreta, real e efetiva208”. Luiz Eduardo Bussata ao comentar esse princípio, destaca que embora ele tenha caráter complementar em relação aos outros, ele tem seu campo de atuação e importância, especialmente na relação jurídica obrigacional complexas209.

No entanto, por vezes esses princípios não são seguidos pelas partes – seja ou não em razão de elementos internos ou externos ao programa contratual – impossibilitando o cumprimento

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BUSSATTA, Eduardo Luiz. Resolução dos contratos e Teoria do adimplemento substancial, p. 15.

206

Comentários ao novo Código Civil, p. 871.

207

Idem, ibidem, p. 95.

208

Direito das obrigações, Op. cit., v. 2. p. 187.

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regular das obrigações, ao ensejar desvios na fase de execução que podem levar à inexecução absoluta, relativa, parcial, na impossibilidade de seu cumprimento ou tão somente à execução próxima ao ideal pretendido, mas que não se configura em adimplemento total.

Nas hipóteses de inexecução que podem assumir as espécies de absoluta ou relativa (mora), ou apresentar defeitos de gênero e forma (cumprimento defeituoso ou ruim) ou ainda conter apenas uma parte mínima, sem grande relevo, descumprida, procuramos nortear, nos próximos itens deste capítulo, estas diferentes nuances do descumprimento.

Mas o principal objetivo perseguido no desenvolvimento dos próximos itens sobre as distinções entre adimplemento e inadimplemento consiste no apontamento da linha tênue que separa o momento da configuração do inadimplemento, que “acontece quando o devedor não cumpre a obrigação, voluntária ou involuntariamente210” e, de outro lado, quando o cumprimento da obrigação enseja a satisfação dos interesses do credor, mesmo não tendo sido executada integralmente.

Sob a premissa do adimplemento de acordo com o conceito exarado pelo referido jurista da Costa Rica, buscamos a averiguação dos efeitos da não realização de uma parte mínima da obrigação principal, em contrapartida do inadimplemento, despertando um estudo mais acurado em razão de sua importância no atual momento histórico da Teoria Contratual, em que o credor perde seu trono de imperador absoluto sob o programa contratual estabelecido – anteriormente defendido pelo absolutismo da autonomia da vontade –, para convergir junto com a tutela jurídica do interesse do devedor, buscando-se a satisfação de ambos interesses que pode ser absoluta (adimplemento) ou se aproximar do ideal (adimplemento substancial).