2 Ver Tabela n.º
2.6. D ESENHO DOS P ROGRAMAS C URRICULARES
2.6.1. C URRÍCULO B ASE
O interesse em estabelecer um currículo base é quase tão antigo quanto o percurso académico de estudo do turismo, e advêm sobretudo do reconhecimento das suas limitações e falhas.
Reconhecendo que o turismo constitui uma área de interesse do ponto de vista da investigação e do conhecimento, foram feitas diversas tentativas ao longo das últimas décadas no sentido de sistematizar e agrupar de forma coerente, áreas de conhecimento susceptíveis de integrar os programas curriculares dos cursos de turismo.
Por programa curricular entendam-se as actividades/conhecimentos planeados para os alunos durante a sua passagem por determinada instituição de ensino. (Tribe in Richards s. d.)
Numa fase inicial, o conteúdo dos primeiros cursos de turismo foi influenciado por publicações da época, conteúdos esses que Burkart and Medlik (1974) sistematizaram da seguinte forma: − Desenvolvimento histórico; − Anatomia do turismo; − Estatísticas do turismo; − Transporte de passageiros; − Alojamento; − Visitas e agências; − Marketing em turismo; − Planeamento e desenvolvimento; − Organização e finanças; − Futuro do Turismo.
Em 1981, a Sociedade de Turismo britânica estabeleceu o seu próprio core body of knowledge, no seguimento de um estudo realizado acerca das ocupações, carreiras e conhecimentos em turismo, realizado por Nightingale em 1980:
− O que é o turismo (conceitos de lazer, recreio e turismo; tipos de turismo; conceitos de destino turístico, serviços e indústria);
− Determinantes e motivações em Turismo (factores que estimulam o crescimento do turismo e incitam as pessoas a viajar; influências da oferta); − Medidas e dimensões estatísticas (estatísticas de turismo e suas limitações;
turismo doméstico e turismo internacional);
− O significado do turismo (contributo do turismo para a economia; significado e impacto social do turismo; ambiente e uso do território);
− Sectores (indústria do turismo e os diferentes sectores);
− Marketing (papel do marketing no turismo; planeamento e investigação; mercados e produtos; elaboração de produtos; promoção e vendas);
− Planeamento e desenvolvimento físico;
− Organização (estrutura institucional do turismo; sector público e privado); − Finanças.
A informação recolhida é considerada de interesse não só para a Sociedade de Turismo, mas também para qualquer organização relacionada com a educação, formação e desenvolvimento de carreira em turismo.
Através de um estudo apresentado na conferência do National Liaison Group em Londres, Holloway (1995) defendeu a existência de um currículo comum para os cursos de turismo, composto por 7 áreas essenciais:
1. Significado e natureza do turismo; 2. Estrutura da indústria do turismo;
3. Dimensões do turismo e formas de avaliação; 4. O significado e os impactos do turismo; 5. Marketing do turismo;
6. Planeamento e gestão em turismo; 7. Política e gestão em turismo.
Com base neste currículo, a ATLAS desenvolveu uma consulta a nível europeu entre 1996 e 1997, envolvendo a indústria turística e as universidades, da qual resultou o esboço de um currículo semelhante ao proposto por Halloway:
1. Significado do turismo; 2. Indústria do turismo;
3. Dimensões e avaliação do turismo; 4. O significado e os impactos do turismo; 5. Marketing dos serviços de turismo; 6. Planeamento e gestão em turismo; 7. Gestão da experiência turística.
Mais recentemente, a Organização Mundial de Turismo identificou alguns conhecimentos necessários para o exercício de uma profissão em turismo: (Airey, 1999)
I. Competências Gerais
II. Competências em Negócios II. Competências em Turismo
− Economia do turismo – conhecimentos básicos − Estrutura da indústria do turismo
− Recursos turísticos − Economia do turismo
− Sociologia do turismo e questões culturais − Turismo e questões ambientais
− Política do turismo IV. Macro Turismo
V. Micro Turismo
O facto de ao longo dos anos se verificarem tentativas de elaboração de um currículo comum, demonstra que este assunto não reúne consenso entre os diversos intervenientes no sector.
Apesar das vantagens em termos de qualidade, definição de objectivos e comparabilidade, alguns investigadores defendem que um currículo comum pode criar uma educação demasiado homogénea para um sector heterogéneo por natureza, e reduzir a flexibilidade dos programas na satisfação das necessidades da indústria. Uma parte significativa da problemática em torno da educação e formação em turismo poderá ser resolvida através da definição de um currículo, o qual possa constituir uma referência e orientação para todos os cursos de turismo. Contudo, este currículo não
deve restringir a liberdade das instituições de ensino e do tecido empresarial para desenvolverem os cursos de acordo com as necessidades do mercado turístico.
Neste sentido, o currículo base deve constituir entre 25 a 50 % do programa curricular total. Os restantes 75 ou 50 % devem procurar suprir necessidades mais específicas e preparar os alunos, não só para reconhecerem os problemas do turismo, mas também para os resolver através das ferramentas de gestão, comunicação e planeamento. A definição de standards na educação em turismo não deve ser confundida com uma homogeneização excessiva dos planos curriculares. (Gee in OMT, 1996)
O debate acerca do desenho dos programas curriculares prossegue, entre vozes a favor de um currículo comum pelas razões apresentadas e vozes contra, devido à heterogeneidade do sector e à necessidade em apostar na diversidade. Esta situação remete para o debate em torno da generalização e da especialização.
O mercado turístico reivindica um maior nível de especialização dos profissionais do sector, sobretudo em áreas de actividade com elevados índices de competitividade, tais como, a hotelaria e a venda a retalho de viagens. Porém, exige simultaneamente, conhecimentos multidisciplinares e flexibilidade no desempenho das funções.
No contexto pedagógico do turismo, a especialização existe e está a afirmar-se progressivamente graças à segmentação do mercado, ao marketing e às vendas dirigidos a segmentos específicos, e mesmo ao serviço cada vez mais especializado e personalizado. (Dorf 1995)
A especialização da educação em turismo pressupõe um envolvimento directo e activo do sector empresarial no processo educativo, da mesma forma que depende da abertura desse mesmo sector para acolher os alunos e a própria instituição.
Não obstante o interesse demonstrado por ambas as partes, na prática, esta relação nem sempre se revela de simples concretização.
Neste sentido, o sistema educativo deve providenciar que o aluno receba formação intensa em determinada área seleccionada pelo mesmo, para além de uma vasta percepção nas restantes áreas de conhecimento. Tanto as instituições de ensino, como os professores e os programas curriculares e respectivos conteúdos, devem adaptar-
flexibilidade dos alunos face a contextos turísticos e realidades profissionais diferentes.
Segundo Chris Cooper (OMT 2002), os planos curriculares em turismo devem:
− equilibrar as necessidade educacionais gerais com aplicações específicas de conhecimento;
− ser flexíveis o suficiente para se adaptar à mudança, com especial atenção para as novas tecnologias;
− procurar assegurar a satisfação das necessidades do sector, quer a curto, quer a longo prazo;
− reconhecer a diversidade do sector e as suas necessidades específicas;
− transferir para os alunos os conhecimentos constantemente actualizados pela investigação;
− incorporar uma abordagem multidisciplinar ao sector.
Na perspectiva de Chuck Y. Gee (OMT 1996:186), os planos curriculares devem procurar incutir nos alunos capacidades gerais e capacidades de negócio:
Capacidades gerais
a) Comunicação escrita; b) Relações inter pessoais; c) Pensamento crítico;
d) Identificação e resolução de problemas; e) Conhecimentos de informática; f) Línguas estrangeiras; Capacidades de negócio a) Gestão; b) Marketing; c) Contabilidade; d) Finanças; e) Direito; f) Economia.