O desenvolvimento da indústria eólica no Brasil é um fenômeno recente, dado que apenas a partir do ano de 2009 (fase pós-PROINFA) teve início um processo mais consistente de desenvolvimento de projetos eólicos, instalação de parques e estruturação de uma Cadeia Produtiva de bens e serviços (ABDI, 2014).
Os bens que compõem a Cadeia Produtiva do Setor abrangem os aerogeradores e os itens de infraestrutura do parque eólico, como as bases ou fundações e os equipamentos necessários para conexão à rede elétrica. Os aerogeradores são considerados itens críticos, por representarem de 60% a 75% do investimento total de um parque eólico (ABDI, 2014).
Segundo Lage e Processi (2013), os aerogeradores são divididos em dois grupos: de eixo horizontal ou Horizontal Axis Wind Turbine e de eixo vertical ou Vertical Axis Wind
Turbine, sendo a configuração do primeiro (do tipo hélice, composto por três pás) a dominante
no mundo e no Brasil. A Figura 16 ilustra os componentes básicos dos aerogeradores de eixo horizontal, bem como as diferentes configurações em termos de tamanho e formato da nacele, presença ou não de caixa multiplicadora ou de engrenagem e tipo de gerador utilizado (convencional ou multipolos). 150 135 80 80 60 34 12 14 15 1 1 1 0 25 50 75 100 125 150 0,000 1,000 2,000 3,000 4,000 5,000 RN BA CE RS PI PE MA SC PB SE RJ PR Qu an tid ad e d e p ar q u es C ap ac id ad e in stalad a (GW )
Figura 16 - Componentes básicos de aerogeradores de eixo horizontal em diferentes configurações
Fonte: ABDI (2014)
Os serviços que fazem parte da Cadeia Produtiva do Setor de Energia Eólica podem ser classificados conforme a fase de desenvolvimento do projeto eólico com o qual se relacionam. Desta forma, a ABDI (2014) os subdivide em: (a) serviços de desenvolvimento de projetos de parques eólicos; (b) serviços de apoio à negociação com fornecedores e compradores/leilão; (c) serviços de apoio à pré-construção; (d) serviços para implantação dos parques - logística e execução de obras; (e) serviços de operação e manutenção (O&M); e (f) serviços associados à certificação de aerogeradores e treinamento técnico. Vale destacar que é comum que os fornecedores de serviços atuem em mais de uma fase dos projetos eólicos. O Quadro 23 apresenta e descreve os principais serviços e elenca as atividades que as compõem.
Quadro 23 - Serviços da Cadeia Produtiva do Setor de Energia Eólica
Serviços Descrição Atividades
Serviços de desenvolvimento de
projetos de parques eólicos
Podem ser conduzidos pelas próprias equipes das empresas geradoras de energia ou serem
contratados de empresas especializadas.
Prospecção de áreas Estudos de viabilidade Desenvolvimento de projeto Serviços de apoio à negociação com fornecedores e compradores/leilão
Há empresas que oferecem serviços de apoio à negociação com fornecedores, para atuação nos leilões, e de apoio à relação com investidores.
Negociação com fornecedores
Negociação com compradores
Relação com investidores
Serviços de execução
Para a construção, podem ser contratadas
individualmente diversas empresas ou contrata-se uma empresa que se responsabiliza por todas as atividades.
Pré-construção
Construção e montagem
Serviços de operação e manutenção
Os produtores de energia geralmente terceirizam as atividades de operação e manutenção do parque eólico, as quais são contratadas dos fornecedores das máquinas (aerogeradores) na forma de serviço de pós-venda de longo prazo.
Operação e manutenção
Exploração
A Figura 17 sintetiza a Cadeia Produtiva de bens e serviços do Setor de Energia Eólica, conforme a ABDI (2014), a qual é composta por: (a) fornecedores de materiais para a fabricação dos aerogeradores; (b) fornecedores de componentes e subcomponentes do aerogerador; (c) fornecedores de aerogeradores ou montadoras (manufatura); (d) fornecedores de serviços (logística e operações); (e) produtores de energia; e (f) distribuidores de energia (uso final). Figura 17 - Cadeia Produtiva de bens e serviços da indústria eólica
Fonte: Adaptado de ABDI (2014)
A ABDI (2014) descreve as principais empresas que compõem a Cadeia Produtiva: Fornecedores de componentes: focam, geralmente, na produção de um determinado componente;
Montadoras ou OEMs - Original Equipment Manufacturers: são responsáveis pela montagem do cubo do rotor e da nacele do aerogerador, já que os demais componentes (torres e pás) são adquiridos junto a terceiros;
Desenvolvedores ou promotores dos projetos de parques eólicos: são responsáveis pela prospecção de oportunidades e pela execução de todas as fases de desenvolvimento do projeto até o estágio onde esteja “pronto para construção”;
Consultores de projeto: auxiliam ou executam tarefas relativas ao projeto básico do parque e de avaliação técnica do potencial da localidade;
Gerenciadores de projeto: fabricantes de aerogeradores ou firmas de engenharia que coordenam o projeto eólico;
Empresas de transporte, movimentação e montagem: são responsáveis, respectivamente, pelo transporte de componentes até o parque, movimentação (horizontal e vertical) de componentes e montagem final do aerogerador;
Materiais Aço Fibra de vidro Resinas Materiais para o núcleo da pá Imãs permanentes Cobre Componentes Torre Pá Cubo Nacele Manufatura Montadoras (OEMs) Logística e operações Promotores de Projeto Consultores de Projeto Gerenciadores de Projeto Transporte, movimentação e montagem Operação e manutenção Produtores de energia Empresas do setor elétrico Bancos Eletro- intensivos Construtoras Fundos de pensão Uso final Empresas privadas Empresas públicas municipais Empresas públicas estaduais Empresas públicas federais
Empresas de operação e manutenção: as montadoras fornecem este serviço em função da facilidade com as peças de reposição e do conhecimento sobre o funcionamento do aerogerador;
Produtores ou geradores de energia (proprietários de parques eólicos): detêm a concessão para exploração da energia por períodos de 20 a 35 anos, tendem a ser o centro da Cadeia Produtiva, por centralizarem bens e serviços necessários para a implantação do parque. Conforme a ABDI (2014), apesar de no Brasil já haver uma razoável capacidade produtiva, as importações ainda predominam na aquisição de componentes e subcomponentes do aerogerador, devido os custos internos maiores; falta de capacidade ou capacidade produtiva local limitada; capacidades ociosas em outros países; preferência por fornecedores globais; e ausência de fabricantes locais para determinados itens. Porém, muitas destas motivações são suplantadas pelas regras de exigência de conteúdo local para financiamento de parques eólicos do BNDES, pois a necessidade de atender os requisitos de conteúdo local é preponderante na decisão de compra das montadoras e fornecedores.
Diversos fornecedores mundiais de aerogeradores têm sido atraídos para o país, motivadas pelo acesso ao financiamento da Agência Especial de Financiamento Industrial - FINAME, subsidiária do BNDES. Por conseguinte, o Brasil tem evoluído o modelo industrial do setor, com a montagem local do aerogerador, fabricação local de diversos componentes, como torres, pás, subcomponentes do cubo e da nacele, e importação de um número cada vez menor de itens (ABDI, 2014).
A Figura 18 apresenta uma visão geral da Cadeia Produtiva nacional de bens da indústria eólica, incluindo montadoras de aerogeradores e fabricantes de componentes, subcomponentes e outros insumos. Os Estados de Pernambuco e de São Paulo são os únicos que reúnem os três elos fundamentais da Cadeia Produtiva (montagem de aerogeradores, torres e pás), sendo que o segundo concentra o maior número de fornecedores de subcomponentes e insumos (ABDI, 2014).
Figura 18 - Visão geral da Cadeia Produtiva de bens da indústria eólica
Fonte: ABDI (2014)
Em termos de serviços, o mercado brasileiro é bem mais preparado, já que possui fornecedores locais para os vários serviços em todas as fases do desenvolvimento de projetos eólicos, além de vários escritórios de empresas de origem estrangeira (Espanha, Alemanha, Portugal, Dinamarca, França, Holanda e EUA), com técnicos especializados para atendimento ao mercado brasileiro, estabelecidos em parceria ou não com empresas nacionais (ABDI, 2014).
Como a Cadeia Produtiva está em fase de estruturação, não é comum o estabelecimento de contratos anuais de fornecimento, logo, diversos fornecedores de bens e serviços vêm recebendo pedidos “por pulsos” e com prazos curtos de entrega, comprometendo preços e volumes no curto prazo. Deste modo, a otimização da capacidade de fornecimento da Cadeia Produtiva poderia ser atingida pelo estabelecimento de relações de parceria e de contratos de fornecimento e compras de capacidade no médio ou longo prazo, que contribuiria significativamente para a minimização de possíveis gaps de fornecimento, redução de custos, aumento de competitividade, garantia de fornecimento, além de outros benefícios. Deste fato, surgiu no Setor Eólico o incentivo à adoção de estratégias de Cadeias de Suprimentos Colaborativas, foco do presente estudo (ABDI, 2014).
4 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS