A ciência é outro conceito que Deleuze estudou, demonstrando que ela tanto pode estar a serviço do Estado, ciência régia, ou da máquina de guerra, ciência nômade. Para ele, a ciência tem sua origem no “modelo hidráulico” dos fluidos e não nos sólidos como afirmam os manuais científicos. A ciência nômade é não só exterior ao Estado como até mesmo “[...] inibida, ou proibida pelas exigências e condições da ciência de Estado”15. A ciência régia normatiza todo o conhecimento adquirido pelos seus cientistas, bem como aqueles que ela consegue capturar da ciência nômade. Exemplo disso foi Vauban (1633- 1707)16, Marechal Francês e Comissário Geral de Fortificações de Luís XIV e responsável
pela colonização francesa no Canadá.
O interesse do Estado em domar a ciência nômade justifica-se por sua necessidade de controlar o fluxo de movimentos não só dos fluidos: (rios, lagos, mares etc.) como também do contingente humano (sob as formas de minorias rebeldes, bandos, maltas etc.). A ciência régia age no estriamento dos espaços, territorializando-os para se fazer soberana frente ao Estado soberano, enquanto a ciência nômade, por não obedecer tais normas disciplinares, tende a fluir nos espaços lisos, desterritorializados e fora do alcance da soberania estatal. Isto nos faz entender o controle que o Estado exerce sobre as construções que regulam os fluxos humanos: (pontes, viadutos, arcos, etc.), bem como o fluxo do comércio por todas as vias (fluvial, lacustre e marítima, através de canoas, barcos, navios, fortificações etc.).
O padre João Daniel também pensou no controle do fluxo de índios do mato para os aldeamentos, de forma a não permitir a sua fuga em retorno ao local de origem. Assim, ele
15 G. Deleuze, Mil platôs, p. 26.
16 Sébastien le Preste de Vauban foi também membro da Academia de Ciências da França. Ele foi
considerado um dos mais renomados engenheiros militares especialista em fortificações. Seu grande mérito estava em adaptar o sistema de defesa às condições geográficas.
sugeriu mantê-los bem longe de suas terras “e não os aldear perto, porque quanto mais longe estiverem, mais seguros estão de tornar a fugir, e pelo [contrário] estando perto, estão prontos a abalarem em tendo qualquer desconsolação na aldeia [...]”17.
No texto “Para ajuizar sobre o estado político da nação”, José Bonifácio manifestou, também, sua preocupação com o controle dos fluxos, tanto de índios, quanto do comércio. Nesse documento ele propôs que fosse feita:
1º) Uma boa carta, em que os diversos distritos estejam notados, e distintos por seus nomes, e ainda por cores.
2º) Uma exata descrição do país, sua história natural, suas produções, e cultivação, sua divisão por comarcas; o número, grandeza, e situação das cidades, vilas, e freguesias, o cálculo mais exato da gente, o estado das fortalezas; e portos de mar; a indústria, artes, e marinha; o comércio que se faz, e o que se poderia fazer etc18.
No texto “Colônia de pretos”, ele queria o estabelecimento de [...] pescarias bem dirigidas e salgações e barcos de costas com negros marinheiros e pilotos brancos [...]. Não comprar nada da Europa senão para vestidos finos e coisas de acepipes”19. Em “Avulsos”, ele acrescenta ainda “formar uma flotilha [...] à maneira sueca [...] reformar o sistema de capitães-mores, milícias, tropas de linha, magistrados”20. Ele questionava as distâncias que separavam as províncias e, principalmente, a falta de estradas que pudessem fazer a ligação entre os pontos de comércio e administração - “Onde estão os palácios, e ainda as estradas por onde rodem as carroças da casa imperial?”21. E finalmente ele lamenta a inoperância
17 Pe. J. Daniel, Tesouro descoberto no máximo Rio Amazonas, p. 381 Vol. 2. 18 J. B. de Andrada e Silva, Projetos para o Brasil, p. 162.
19 Ibid., pp. 158-9. 20 Ibid., p. 173. 21 Ibid., p. 256.
da polícia brasileira por ser ela “[...] uma potência oculta, que não recebe forças senão da opinião que se tem no seu chefe [...]”22.
Pelo exposto, percebem-se as falhas e obstáculos operacionais que José Bonifácio percebeu existirem nos aparelhos da máquina burocrática estatal. No ramo do comércio, deixou entender que o Brasil não deveria importar o que tinha condições de produzir, desde que fossem feitos investimentos adequados no setor da pesca. No que se refere à justiça e defesa do Estado, propôs que fossem reformadas tendo em vista a administração, a segurança, a proteção do Estado e, conseqüentemente, do comércio. Entretanto, ao lamentar a ineficácia do aparelho repressivo do Estado brasileiro, ele não percebeu que o seu funcionamento obedecia justamente à relação entre o corpo disciplinado (corporação militar) e a administração estatal. Segundo Deleuze, a relação que o Estado mantém com o trabalho de seus funcionários é muito diferente daquela que a máquina de guerra tem com os seus afiliados. O Estado não consegue manter um mínimo de solidariedade em seu corpo de funcionários, porque a relação que os nutre é assaz hierarquizada, vigiada, suspeita dentro do corpo coletivo estatal, posto que o Estado retira toda a capacidade de operação dos seus funcionários, porque:
[...] não confere um poder aos intelectuais ou aos conceptores; ao contrário, converte-os num órgão estreitamente dependente, cuja autonomia é ilusória, mas suficiente, contudo, para retirar toda potência àqueles que não fazem mais do que reproduzir ou executar.23
Já o nomadismo da máquina de guerra opera numa relação de profundidade tal com o seu corpo de simpatizantes que acaba por torná-lo uma ‘solidariedade agnática’ ou natural – na expressão de Deleuze. Esta solidariedade original, natural, tem seu fundamento nos laços e linhagens familiares que acabam formando um verdadeiro
22 J. B. de Andrada e Silva, Projetos para o Brasil, p. 231. 23 G. Deleuze, Mil platôs, p. 35.
“espírito de corpo” agnático, nutrindo e fazendo uma máquina de guerra perene, quase como mágica. Esta mesma posição é defendida por Sahlins segundo o qual a solidariedade do grupo está na sua descendência comum de linhagens.
Ao impor uma camisa-de-força à ciência, o Estado buscou estriar o conhecimento científico para poder domá-lo e legalizá-lo segundo seus preceitos ideológicos de racionalização científica. Portanto, essa pretensa racionalidade não se sustenta porque os segredos científicos estatais ficam tão bem guardados nas magias laboratoriais, que acabam por igualarem-se às magias sacerdotais, que imperavam nas ciências nomádicas. Segundo Deleuze, só existe a magia, o mistério e a irracionalidade nas ciências régias a partir do momento em que elas caem em desuso, a exemplo do que ocorreu com a astrologia e a alquimia.
O Estado se acha política e juridicamente no direito de ser a única instituição capaz de agir como catalizador entre o corpo rebelde da máquina de guerra (bando, malta etc.,) e o corpo disciplinado de “sujeitos dóceis” do aparelho estatal (funcionalismo, sociedade civil etc.). Contudo, esse Estado aparentemente racional exigirá cada vez mais a obediência do sujeito. O seu postulado é obediência [...] sempre, pois quanto mais obedeceres, mais serás senhor, visto que só obedecerás à razão pura, isto é, a ti mesmo”24. Mas isto contraria toda a filosofia da máquina de guerra nomádica, pois ela obedece tão-somente ao espírito de corpo, o nomos da tribo.
Vejamos o que Deleuze disse sobre a tribo:
A tribo-raça só existe no nível de uma raça oprimida, e em nome de uma opressão que ela sofre: só existe raça inferior, minoritária, não existe raça dominante, uma raça não se define pela sua pureza, mas, ao contrário,
24 G. Deleuze, Mil platôs, p. 45.
pela pureza que um sistema de dominação lhe confere. Bastardo e mestiço são dois verdadeiros nomes de raça25.
Outro estudioso da tribo, o pesquisador e antropólogo Marshall Sahlins, definiu-a como:
[...] um corpo de pessoas de origem e costumes comuns, que possui e controla toda a extensão de seu território [...] suas várias comunidades não estão unidas sob o governo de uma autoridade soberana, nem os limites do todo estão clara e politicamente determinados26.
Outras características usadas para a definição de tribo relacionam o parentesco e a conduta do grupo pautada em instituições que regulamentam a vida econômica, social, ritual e as crenças do grupo como um todo. Last but no least, outra característica é a ausência de uma identidade, porque segundo a expressão de Sahlins “não tem nome, exceto enquanto as pessoas são consideradas ‘indesejáveis’ ou algo semelhante por seus vizinhos”27.
As características que marcam o espaço cultural e territorial das tribos, não raro sua trajetória se prestam a se confundir com a dos imigrantes. Entretanto, o imigrante é o sujeito que parte de um ponto definido em direção a outro, mesmo que incerto.
A imigração proposta por José Bonifácio tinha origem certa, mas os pontos de chagada eram difusos, com referências apenas regionais, sem pontos específicos de fixação. Como exemplo, ele fala em trazer o índio do mato para a aldeia, mas não especifica um local, alegando apenas que não sejam aldeados índios de nações inimigas. Ele dizia ainda que não se deveria aldear menos de “150 almas” ou 35 casais nas aldeias mistas, contendo estas não mais que “um terço de brancos”. Já o nômade difere do
25 G. Deleuze, Mil platôs, p. 50. 26 M. Sahlins, Sociedades tribais, p. 7. 27 Ibid., p. 30.
imigrante justamente pelo fato de não caminhar tendo em vista um itinerário prescrito, demarcado, porque “[...] os pontos são para ele alternância num trajeto”28, e não um fim a ser definido, como o é para o imigrante que parte em um espaço demarcado, estriado, à procura da polis estática, cercada, murada. Os pontos nomádicos são distribuídos num espaço liso, portanto, não comportam uma chegada, um fim, porque a partida é uma constante no nomos fluído, aberto. Era justamente esse nomos fluído, que os índios procuravam em sua errância sob a denominação de Yvÿ Marã Eÿ ou Terra sem Mal.
Dessa forma como foi colocada a questão da imigração, para José Bonifácio, não passava de um simples deslocamento numérico de corpos de um ponto a outro, atendendo assim à eficácia territorializante de interesse do Estado. Ocorre, porém, que o índio não poderia ser tratado como imigrante, e sim como nômade. Conseqüentemente, não se poderia administrar um deslocamento de corpos e territorializá-lo, porque sendo nômade importaria a eles o deslocamento desterritorializado. Em que pesem as experiências dos jesuítas no processo de aldeamentos indígenas, era de conhecimento na época que a Companhia de Jesus só obteve êxitos onde houve a atuação de aparelhos repressivos. De outro modo, as fugas seriam constantes.
Na afirmação de Toynbee de que o nômade é “aquele que não se move”, temos claramente que a posição do nômade é de uma mobilidade constante. Ele não se move porque ele é o próprio móvel, inversamente do que ocorre com o imigrante, que é, por natureza, fixo. Por isso, é tão difícil e estranho compreender seu deslocamento. E é justamente por ser fixo que o imigrante é capturado pelo aparelho de Estado para, posteriormente, tornar-se senhor e fustigar o nomadismo em nome de uma razão estatal.
Esse papel de captura foi desempenhado tanto pelos bandeirantes, quanto pelos bugreiros do sul do país e, em especial, sob o comando dos senhores de engenho do
28 G. Deleuze, Mil platôs, p. 51.
nordeste – Garcia D’Ávila, Teles Barreto, Cristóvão de Barros, Fernão Cabral29 etc. Nesses exemplos, o capturado na qualidade de força de trabalho, cumpre o papel determinado pelo aparelho de Estado, como também atua como força policial, na captura dos nômades, a serviço do seu opressor, o Estado. Segundo Alencastro, uma:
provisão régia de 1672 dá aos moradores um desconto de dois
terços nos direitos de entrada dos escravos angolanos importados no Maranhão. Motivo alegado à concessão do incentivo
fiscal: ‘se diminuirá a ambição daqueles moradores no cativeiro dos índios’. Logo depois, a fim de iniciar o cultivo do anil – encarecido em Lisboa por causa da perda das zonas de comércio asiáticas especializadas no produto -, o governador do Maranhão traz de Lisboa um ‘engenheiro anileiro’ e manda vir cinqüenta escravos de Angola30.
Em conseqüência desta Provisão, ocorreu um episódio conhecido como revolta de 1684, liderada por Manuel Backman31. O padre João Daniel relatou que, na tentativa de dominar os nômades, os portugueses exterminaram entre 1615 e 1652 “com morte violenta para cima de dous milhões de índios, fora os que cada um chacinava às escondidas”32. E nesta matança até os escravos negros eram utilizados no extermínio dos índios:
um mineiro, entrado em um rio com o intento de tomar os seus haveres e comércio com os índios, como costumava quando os viu mais descuidados, de repente os investiu com uma boa comitiva de pretos, e fizeram tal matança neles, que corria o sangue em rios; e destas áfricas têm feito muito outros portugueses33.
29 Sobre as ações destes senhores, veja-se R. Vainfas, A heresia dos índios, cap. 3. 30 L. F. de Alencastro, O trato dos viventes, p. 141.
31 Os irmãos Thomas e Manuel Backman lideraram em 1684, no Maranhão, o que ficou conhecido como
Revolta de Backman. Contrários à Companhia de Jesus por defender os índios da escravidão, os revoltosos
destituíram o governador e a Companhias de Comércio de Estado do Maranhão. Em 1685, Thomas foi preso pelo novo governador Gomes Freire de Andrada; seu irmão, Manuel, juntamente com outros revoltosos, foram enforcados e decapitados.
32 Pe. J. Daniel, Tesouro descoberto no máximo Rio Amazonas, p. 352. 33 Ibid., p. 352.
José Bonifácio não tinha certeza da eficácia de seu projeto. Nos artigos 10º e 11º dos “Apontamentos...”, ele previu medidas para evitar as possíveis reações contra o desejo de aculturação que permeava seu discurso. Por isso, propôs a construção de presídios e cadeias, com o propósito de conter os tumultos e as desordens que eventualmente poderiam ocorrer. Impedir os imigrantes oriundos da África, era bem diferente, porque a eles não restava a possibilidade de territorialização, exceto pelas quilombadas; quanto aos índios, somente pela desterritorialização poderiam ceder aos interesses de aculturação que estava sendo propostos nos discursos de José Bonifácio.
A territorialização é um conceito que só pode ser aplicado ao sedentário – daí ser extensivo ao imigrante – porque a relação do sujeito com o espaço, o território a ser ocupado “[...] está mediatizado por uma outra coisa, regime de propriedade, aparelho de Estado [...]”34. No caso do nômade, a sua relação com a terra não sofre a mediação advinda de propriedade codificada na jurisprudência da polis, que pela delimitação, demarcação – cercas, muros, vertentes, rios etc. – reterritorializa o espaço em nome daqueles que acatam a soberania do Estado. Mas, no caso do nômade, a territorialização dá-se pelo próprio ato da reterritorialização, numa clara expressão do possuir sem ter, do estar sem ser, já que não é demarcado por liames.
A mediação da terra para o índio está simplesmente no estar, sem permanecer. Esse estar é tão-somente uma passagem que territorializa pela desterritorialização e vice-versa. Entretanto, o que dificulta a compreensão desta aparente contradição é a visão etnocêntrica ocidental, pautada pela produção baseada na instituição da propriedade privada.
34 G. Deleuze, Mil platôs, p. 153.