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Como legislador ou Ministro de Estado, José Bonifácio desempenhou o papel de colonizador, posto que trabalhou na condição de redator dos discursos oficiais do Estado, em função de seu conhecimento da máquina administrativa, vale dizer, de um habitus.

No pensamento de Bourdieu, o habitus é designado como sendo a resultante de um trabalho pedagógico que leve à “interiorização dos princípios dum arbítrio cultural capaz de se perpetuar depois da cessação da AP e, por isso, de perpetuar nas práticas os princípios do arbítrio interiorizado”16. Ainda, de conformidade com o mesmo autor, o

habitus pode ser um: “[...] conhecimento adquirido e também um haver, um capital [...]17. Desta forma, o habitus pode ser interpretado como um princípio dinâmico em que se fundamentam os atos individuais ou coletivos na mediação dos confrontos das idéias. O

habitus torna-se assim uma espécie de moeda, cujo valor de investimento na forma de capital cultural forma o lastro que lhe confere os devidos créditos de argumentação em discursos nas transformações das relações sociais.

Os efeitos do trabalho pedagógico em função de uma dada ação pedagógica (AP), só podem se transformar em habitus se o trabalho for realizado de forma contínua e num espaço de tempo consideravelmente longo, para que a imposição cultural possa surtir os efeitos desejados, porque a violência simbólica que vem embutida no trabalho pedagógico

15 A. Memmi, Retrato do colonizado precedido pelo retrato do colonizador, p. 25. 16 P. Bourdieu & J-C Passeron, A reprodução, p. 55.

precisa reproduzir “[...] as condições nas quais foram produzidos os reprodutores, i.e., as condições de sua reprodução”18.

Podemos concluir que a longa ação pedagógica exercida no seio das etnias, quanto à formação dos índios, só poderia ser destruída no decorrer de um período extremamente longo, de tal monta que pudesse apagar todos os traços culturais remanescentes de uma cultura tida como selvagem. Em suma, no trabalho pedagógico dos missionários lusitanos teria que ser desenvolvido uma ação pedagógica (AP), que visasse primeiramente romper o

habitus tradicional dos índios para, posteriormente, inculcar novos habitus que não comportassem o tradicionalismo tribal. Assim, o trabalho que foi desenvolvido pelos jesuítas junto às comunidades indígenas foi provavelmente aquele que tenha mais se aproximado, qualitativa e quantitativamente, como ação pedagógica (AP) duradoura e em condições de formar um habitus que pudesse atender ao arbítrio cultural português.

Ao preterir os jesuítas em função dos padres da Congregação de São Felipe Neri, José Bonifácio estaria cometendo um erro de ação pedagógica (AP), porque os italianos não teriam nem trabalho pedagógico, nem ação pedagógica (AP) que pudessem preencher os requisitos necessários para uma dominação eficaz e geradora de “[...] práticas conformes aos princípios do arbítrio cultural dos grupos ou classes que delegam na ação pedagógica (AP) a autoridade pedagógica (AuP) necessária à sua instauração e à sua continuação [...]”19. Isto quer dizer que estaria faltando à Congregação o capital cultural originado do habitus. Assim, valemo-nos dos argumentos de Bourdieu, para o qual o:

Instrumento fundamental da continuidade histórica, a educação considerada como processo através do qual se opera no tempo a reprodução do arbítrio cultural pela mediação da produção do habitus produtor de práticas conformes ao arbítrio cultural [...] é o equivalente, na

18 P. Bourdieu, O poder simbólico, p. 55.

ordem da cultura, do que é a transmissão do capital genético na ordem biológica: sendo o habitus análogo ao capital genético [...]20.

O trabalho pedagógico é em si o equivalente à violência física, e tem como objetivo “[...] sancionar os insucessos da interiorização dum arbítrio cultural [...] tão eficaz no fim como a violência física”21. Quando José Bonifácio propõe aldear primeiramente os jovens e as crianças, ele tinha a consciência de que a interiorização do arbítrio cultural sobre os mais velhos não poderia surtir os efeitos esperados. Daí, ele ter proposto atingi-los pelo orgulho ao afirmar que o projeto civilizatório deveria ter como objetivo primeiro as crianças indígenas, pois só assim:

[...] se conseguirá que os pais folguem de ver seus filhos adiantados e premiados, por suas boas ações e comportamento; e com essas funções e jogos se divertirão e instruirão ao mesmo tempo, sem constrangimento da nossa parte22.

José Bonifácio entendia que os índios jovens poderiam ser persuadidos se os missionários os cativassem com “presentes, promessas, e bom modo”, posto que somente desta forma as missões conseguiriam eliminar a ignorância e a barbárie de seus costumes. Ele acreditava ainda que as técnicas utilizadas pelos jesuítas, em especial os desenvolvidos por Manoel da Nóbrega, seriam as ideais uma vez que o “cristianismo, pelas suas festas, procissões, foguetes, repiques de sino etc. são para os índios um manancial fecundo de divertimento e alegria. Folgam com a música e dança; mas deve-se-lhes dar outras mais vivas e alegres”23.

20 P. Bourdieu & J-C Passeron, A reprodução, p. 56. 21 Ibid., p. 60.

22 J. B. de Andrada e Silva, Projetos para o Brasil, p. 109. 23 Ibid., pp. 131-2.

As festas indígenas bem como os jogos deveriam ocorrer com freqüência, sendo bem “aparatosas”, pois no seu entender elas é que injetariam a animosidade, à letargia e à preguiça, que eram naturais nos índios, denotando assim o filtro etnocêntrico que José Bonifácio usava para referir-se aos índios.

Contudo, José Bonifácio fez uma ressalva no que dizia respeito à política jesuíta de isolamento do índio, bem como o fato de os missionários insistirem na conservação da

língua mater indígena. Ele propunha a instrução na língua portuguesa e acrescentava: “é preciso que os meninos sejam os mestres dos pais”24.

A comunicação foi apenas um instrumento pelo qual José Bonifácio pretendia tornar o índio civilizado. Entretanto, a comunicação não podia se fazer enquanto as línguas indígenas permanecessem livres para as manifestações culturais e interesses dos autóctones. Por isso, José Bonifácio propôs a introdução da Língua Portuguesa como instrumento de comunicação entre os índios e os colonizadores, o que promoveria a destruição da cultura dos índios, configurando o que Bourdieu denominou violência simbólica.

Para Bourdieu, o trabalho pedagógico:

[...] enquanto assegura a perpetuação dos efeitos da violência simbólica, tende a produzir uma disposição permanente para dar, em toda a situação, (v.g., em matéria de fecundidade, de opções económicas ou de compromissos políticos) a boa resposta [...]”25.

A ação pedagógica (AP) e o trabalho pedagógico sobre os índios são concebidos de tal forma a dar suporte ao habitus do grupo, formando assim um capital cultural próprio daquele específico grupo.

24 Ibid., p. 141.

José Bonifácio propôs buscar, por meio da escola, o reconhecimento por parte das tribos da superioridade técnica quanto ao saber-fazer do europeu, através da inculcação de

habitus ao mesmo tempo em que promovia a desaculturação ou a liquidação do capital cultural indígena. Diante da supremacia tecnológica do europeu, os índios foram aos poucos absorvendo a cultura européia – mais por dissimulação que assimilação – como tática e estratégias de subserviência para não perder de todo um pouco da identidade do grupo.

Vejamos como Bourdieu abordou esta problemática:

[...] um dos efeitos menos observados na escolaridade obrigatória consiste no facto de que ela consegue obter das classes dominadas um reconhecimento do saber e do saber-fazer legítimos [...] conduzindo à desvalorização do saber e do saber-fazer que elas dominam efectivamente [...]”26.

O descaso de José Bonifácio para com o saber-fazer da classe dominada é patente em todo o seu discurso em que os índios foram o alvo, não sendo portanto, exclusividade dos “Apontamentos...” .

No texto “Colônia de pretos”, José Bonifácio idealizou uma colonização exclusiva de negros, na ilha de Santo Amaro. Nesse lugar ele previa a escolarização apenas para “ler e escrever”, em instruções que seria na língua portuguesa, porque o seu projeto previa a aquisição de livros em francês e alemão – para obras referentes à pesca e navegação, com “pilotos brancos”. Ainda no mesmo texto ele fala em comprar livros de economia e tecnologia, na parte em que ele trata da confecção de pólvora e estabelecimento de curtumes. Mais adiante ele dizia ser necessário “Fazer coleções de história natural”27,

26 P. Bourdieu & J-C Passeron, A reprodução p. 67. 27 J. B. de Andrada e Silva, Projetos para o Brasil, p. 160.

deixando entender toda a sua preocupação com os conhecimentos técnico-científicos em detrimento do saber humanístico dos jesuítas28, fato confirmado pelo Art, 16º, em que ele pediu: “Recolher todos os livros novos portugueses e espanhóis”29.

No texto “Avulsos”, ele propunha que os “línguas” ensinassem o idioma português a todos os índios.Em uma carta ao Conde de Funchal30 em 1813, José Bonifácio se dirige ao nobre português questionando a educação brasileira: “Que educação física e científica tem o nosso povo, principalmente no Brasil ?”.31

Para José Bonifácio, a educação era um meio de se evitar revoluções. No texto “Avulsos”, ele queria que os governos das capitanias tivessem uma “livraria pública”. Entretanto, a confirmar o quanto o seu projeto de educação cognosciva tinha como objetivo a camada dirigente, ele escreveu um texto sobre filosofia dizendo que “A filosofia é a mestra da vida, a educadora dos povos e do príncipe, a guia da legislação, a protetora da agricultura e abundância interna do Estado [...]”32.

Quanto ao ensino e exclusão no processo de educação para os índios, José Bonifácio refere-se a ele no Art. 20º dos “Apontamentos...”, nos seguintes termos:

Nas grandes aldeias centrais, além do ensino de ler, escrever, e contar, e catecismo, se levantarão escolas práticas de artes e ofício, em que irão aprender os índios dali, e das outras aldeias pequenas, e até os brancos e os mestiços das povoações vizinhas, que depois serão distribuídos pelos lugares em que houver falta de oficiais [...]33.

Esse modelo educativo proposto pelo autor, objetivava a produção em detrimento da educação, privilegiando assim os interesses dos segmentos sociais tal como observou Bourdieu. Para esse

28 J. B. de Andrada e Silva, Projetos para o Brasil, p. 160. 29 Ibid., p. 160.

30 Trata-se de Domingos de Souza Coutinho, irmão do Conde de Linhares – D. Rodrigo de Souza Coutinho. 31 J.B. de Andrada e Silva, op. cit., p. 168.

32 Ibid., pp. 306-7. 33 Ibid., p. 109.

pensador, os sistemas de ensino são elaborados de forma a privilegiar um determinado segmento social, reservando para os demais, um ensino de exclusão, porque:

[...] o sistema de ensino se contenta em registrar a auto-eliminação imediata ou adiada (por exemplo, a composição de classes ´especiais`para crianças das classes inferiores) ou a favorecer a eliminação através exclusivamente de uma pedagogia de privação eficiente capaz de mascarar sob as operações patentes de seleção a ação dos mecanismos tendentes a assegurar, de forma quase automática, (isto é, missão cultural) a exclusão de certas categorias de destinatários da mensagem pedagógica34.

No documento PODER E VIOLÊNCIA DO DISCURSO (páginas 156-162)

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