FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
3.2 MODELOS EDUCACIONAIS EMERGENTES
3.2.5 Cognição Distribuída
Esta importante teoria usa as possibilidades proporcionadas pelos avanços tecnológicos emergentes e surge como uma abordagem inovadora ao processo de construção do conhecimen- to. Entende a cognição e o conhecimento, não como uma entidade que se possui, mas como um processo de interacção que relaciona eventos culturais, individuais e do ambiente. A Teoria da Cognição Distribuída defende que o conhecimento e o saber dos indivíduos não é um acto isola- do, mas construído a partir da relação entre todos os componentes do meio envolvente. Esta
teoria tem uma das suas origens nas ideias de Vigotsky sobre o desenvolvimento sócio-histórico- cultural das actividades mentais e está teórica e metodologicamente ligada às ciências cognitivas, cognição antropológica e às ciências sociais.
A Cognição Distribuída foi desenvolvida originalmente a partir de meados dos anos 80 por Edwin Hutchins e os seus colegas da Universidade da Califórnia (São Diego, US), como sendo um paradigma radical que pretendia repensar todos os domínios do fenómeno cognitivo (ROGERS, 1997). Enquanto a visão tradicional da cognição é explicada em termos de processa- mento de informação a nível individual, Hutchins defendia que a cognição podia ser melhor compreendida como um fenómeno distribuído. O conceito tradicional de cognição via a mente como uma central de processamento onde a memória funcionava como um recuperador de informação armazenada numa base de dados, e o corpo visto como um mero dispositivo. Pelo contrário, a perspectiva da cognição distribuída aspira a reconstruir a ciência cognitiva de fora para dentro, começando pela configuração social e material da actividade cognitiva, para que assim a cultura, o contexto e a história possam ter ligações com os conceitos nucleares da cogni- ção (HUTCHINS, 2000). Ou seja, em vez de o foco estar exclusivamente centrado nos processos cognitivos internos, a cognição distribuída centra a sua atenção nos processos que têm lugar num expandido sistema cognitivo, que inclui comportamento verbal e não-verbal, os mecanismos coordenadores usados pelos actores sociais, as formas de comunicação que surgem e a maneira como o conhecimento implícito e explícito é partilhado e acedido (ROGERS, 2004). A grande vantagem da cognição distribuída, relativamente ao sistema cognitivo tradicional, é precisamente tentar explicar as complexas interdependências entre pessoas, artefactos e sistemas tecnológicos. Aliás, o primeiro estudo levado a cabo por Hutchins, compreendia o processo de navegação de um barco, que, naturalmente, compreende equipas de marinheiros a trabalhar com vários tipos de artefactos. Neste estudo Hutchins descreve como os diferentes indivíduos usam as ferramentas para gerar e manter estados representacionais, que são depois propagados através do sistema para finalmente fixarem a localização do barco (HARRIS, 2004).
A Cognição Distribuída é assim um conceito bastante útil para a aprendizagem colaborati- va. SCARDAMÁLIA & BEREITER (1994) criam mesmo a ideia de uma escola renovada, basea- da no conceito de comunidades de construção de conhecimento (knowledge-building communities querendo ser uma opção à escola tradicional, que, pelo contrário, quase sempre centra a aquisição do conhecimento no indivíduo.
A Cognição Distribuída utiliza variadas unidades de análise do processo cognitivo, que, por corresponderem a representações externas, são observáveis. Para isso utiliza diferentes métodos,
desde análises detalhadas de vídeos ou cassetes áudio contendo acontecimentos da vida real, até diferentes tipos de simulações e experiências laboratoriais (ROGERS,1997).
Para analisar como os variados estados representacionais se propagam, é necessário prestar atenção às actividades das pessoas, à comunicação entre elas e ao processo de interacção com os diferentes media. ROGERS (2004) dá-nos um exemplo prático da forma como isto se processa, considerando a actividade de voar para uma maior altitude numa situação que tem lugar através da acção coordenada de um controlador de tráfego aéreo, um co-piloto e um piloto. O controla- dor de tráfego aéreo diz ao co-piloto pelo rádio quando é seguro voar para uma maior altitude. Isto é uma instância de propagação de um estado representacional, envolvendo comunicação verbal. Depois, o co-piloto alerta o piloto, que está a conduzir o avião, movendo um botão no painel de instrumentos na frente dele e indicando que é agora seguro voar. Este é o próximo pas- so da propagação do estado representacional, mas agora em termos de alteração física na posição de um instrumento.
Em suma, a Cognição Distribuída envolve explicar vários aspectos do processo de interac- ção composto por indivíduos e pelos artefactos que usam, nomeadamente as representações internas do indivíduo e/ou exibidas pelos artefactos, e também a compreensão da coordenação entre indivíduos e artefactos (Jonassen cit. in COSTA, 2006). Segundo ROGERS (2004) existem os seguintes aspectos a analisar:
• A forma como as pessoas trabalham em conjunto na resolução dos problemas; • O papel do comportamento verbal e não-verbal (incluindo o que é dito, o que está
implicado à primeira vista, instantes e também aquilo que não é dito); • A coordenação dos vários mecanismos envolvidos (regras, procedimentos);
• As várias maneiras de comunicação que têm lugar em função do progresso das actividades colaborativas;
• A forma como o conhecimento é partilhado e acedido.
O modelo da Cognição Distribuída tem sido usado ao longo de praticamente duas décadas em numerosas áreas, nomeadamente em áreas que envolvem equipas de trabalho, como Centros de atendimento, equipas de desenho e engenharia e sobretudo em equipas de desenvolvimento de variado software. Existem várias ferramentas inspiradas na teoria da cognição distribuída, como por exemplo (COSTA, 2006):
• ISJS (SW de intranet para suportar a comunicação, colaboração e reflexão - desenvolvido no CTIE11);
• CaMILE12 (Ferramenta da Internet baseada em Macintosh - sistema de hipertexto
distribuído);
• CoVIS (Projectado como suporte eficiente para a pesquisa e colaboração científi- ca sendo também um sistema de hipertexto distribuído);