Capítulo 5 De santa a orixá: transformação na Festa do Rio Vermelho
5.4. Com foco no limite entre a capela e o mar
Se, até a década de 1940, a Festa de Iemanjá era coadjuvante nos eventos do Rio Vermelho, na coleção imagética ela é a protagonista. Não há muita variação temática além das embarcações no mar, a saída do presente principal e detalhes da devoção à rainha do mar. É como se toda a festa coubesse no conjunto formado pela Casa do Peso e a beira do mar.
Figura 56: Concentração na praia
Elementos constitutivos da fotografia Fotógrafo: não identificado
Assunto: Festa do Rio Vermelho Personagens: não identificados Tecnologia: analógica
Catalogação em A Tarde: Festa do Rio Vermelho nº 2757-C (Fotos e negativos antigos até a década de 70)
Coordenadas de situação Tempo: 2/2/1968
Espaço: Rio Vermelho
A fotografia mostra uma cena que delimita o que é o espaço da festa na leitura do jornal. À esquerda aparece parte da nova igreja de Sant’Anna, construída em 1959. Mais próxima da praia, no lado esquerdo, e com apenas o telhado visível, está a sede da colônia de pesca Z-1. O contraste entre a dimensão dos dois imóveis – o templo católico e a capela para a orixá do candomblé – é bem sugestivo sobre a própria dinâmica da festa.
A festividade católica, mesmo com o poder da instituição que a realiza, acabou ofuscada por um culto que era periférico e pertencente a uma tradição religiosa perseguida, inclusive pela polícia. O culto que o jornal considerava primitivo, indicativo da ideia de atraso, é agora o novo, que faz a cidade diferente, para capitalizar espaço no poderoso campo do imaginário que alimenta indústrias tão poderosas como o turismo e que começa a se tornar crucial para a Bahia já nesse período. Iemanjá
é agora a soberana do Rio Vermelho, mas ainda faz o jornal confundir no momento de narrar detalhes da festa.
No texto em que a foto acima foi utilizada há informações que parecem desconexas. Fala- se em presentes para “Naná”, possivelmente Nanã, que é associada a Sant’Anna, embora essa referência não fique tão evidente em trabalhos sobre a festa, como o de Couto (2010). Nanã também é uma orixá com regência sobre as águas, mas tem o seu governo sobre as escuras, como lagoas e áreas de manguezais.
No mesmo parágrafo as baianas são chamadas de “babalorixás”, termo equivocado, pois o título é reservado para homens que assumem a liderança de um terreiro de nação ketu125. Há confusão também em relação aos instrumentos musicais usados nos ritos de candomblé, quando se afirma que a dança aconteceu ao som de atabaques, ru e rubi. Na verdade, os tambores chamados de atabaque, são três: rum, rumpi e lé.
Minutos depois, pescadores e devotos de “Naná” conduziram até um barco que permanecia na praia diversos balaios contendo sabonetes, perfumes, pó de arroz, fitas, espelhos e bonecas, tudo para ser lançado em alto mar e, segundo a crença, colhido nas profundezas das águas por Janaína. Os presentes são em agradecimento aos favores concedidos durante o ano que passou. Para animar a cerimônia, baianas tipicamente trajadas (Babalorixás), ao som de atabaques, rubi e ru,, dançavam em homenagem à Rainha do Mar, no interior da Casa do Peso. (A Festa de Iemanjá, A TARDE, 3/2/1968, p.3).
É uma amostra de que a familiarização do jornal com as religiões afro-brasileiras seria um processo demorado, com resquícios das tensões, como já foi citado anteriormente no episódio envolvendo a Paris Match e O Cruzeiro. Mas a imagem mais antiga da coleção sobre o Rio Vermelho é um registro da procissão de Sant’Anna, o único no conjunto de 346 imagens.
125 Nação é um termo que se usa para definir o pertencimento de origem e também as características litúrgicas
de um terreiro de candomblé, principalmente a língua utilizada para os ritos. Em Salvador, as nações predominantes são: ketu, originada de elementos culturais trazidos por povos de onde hoje está a Nigéria; sua língua litúrgica é o iorubá e as divindades são chamadas de orixá; Iemanjá faz parte do panteão dessa tradição. A angola tem o kikongo e o kimbundu, idiomas do sistema banto como sua referência litúrgica; a nação possui elementos herdados de grupos vindos de Angola e Congo. A jeje tem variação originada de etnias com origem no atual Benim; a língua litúrgica é o fon-ewé e os deuses são chamados de voduns. Por fim, a ijexá, que também cultua orixá e usa o iroubá como base litúrgica, mas se diferencia do ketu principalmente pelo toque que é regido pelo gã; Oxum é a principal divindade dessa tradição ao lado de Logun-Edé, seu filho. Os afoxés, como o Filhos de Gandhi, constituem-se em volta do ritmo que embala essa nação e que também é chamado de ijexá. Os instrumentos gã, xequerê e tambores chamados de ilu formam a orquestra deste ritmo. Tem ainda o giro de caboclo. Entre o povo de santo, há quem o defenda como uma nação específica. O assunto é controverso, pois o caboclo, antes cultuado exclusivamente pelos candomblés angola, acabou sendo absorvido pelas outras nações. O texto de Vivaldo Costa Lima – O conceito de “nação” nos candomblés da Bahia – é pioneiro na discussão sobre estas questões: https://portalseer.ufba.br/index.php/afroasia/article/view/20774. Consultado em 5/7/2017.
Trata-se de um indicativo de como a celebração católica era cada vez menos visível enquanto a homenagem a Iemanjá seguia o caminho inverso.
A imagem ilustrou uma fotolegenda, publicada no alto da página 3 da edição de 6 de fevereiro de 1961. É um lugar de destaque, mas curiosamente um registro raro, pois mesmo no período em que era o centro da festa, os ritos como missa e procissão ficavam em segundo plano nas publicações do jornal. A ênfase era para outros eventos como os desfiles do Bando Anunciador.
Figura 57: Procissão de Sant´Anna
Elementos constitutivos da fotografia Fotógrafo: não identificado
Assunto: Festa do Rio Vermelho Personagens: não identificados Tecnologia: analógica
Catalogação em A Tarde: Festa do Rio Vermelho nº 2757-C (Fotos e negativos antigos até a década de 70)
Coordenadas de situação Tempo: 6/2/1961
Segundo o texto que a imagem ilustra, a procissão encerrou as festas para a padroeira. É o período ainda em que os dois eventos compartilham o mesmo espaço, mas já com uma supremacia do rito para Iemanjá. A descrição mais precisa sobre os eventos para Sant’Anna, que faltam na coleção documental do jornal, mais atenta ao Bando Anunciador e depois à Festa de Iemanjá, encontra-se na pesquisa de Edilece Couto (2010), que analisa também as celebrações para Santa Bárbara e Nossa Senhora da Conceição. De acordo com a autora, além do Rio Vermelho, a santa era também cultuada na freguesia de Sant’Anna, região atualmente de bairros do centro antigo, como Nazaré e Saúde.
No Rio Vermelho, a devoção, mais tarde apropriada pela elite que formava a população flutuante de veranistas, começou com moradores locais. Uma aparição atribuída à santa deu início ao culto local. Sant’Anna avisou a moradores que os portugueses estavam prestes a chegar ao local durante a guerra pela Independência, em 1823 (COUTO, 2010, p.120-121). De acordo com a autora, o ponto alto das homenagens a Sant’Anna era o décimo dia de festejos, que começavam com as novenas. Seguiam-se missas a cada hora e, por fim, a solene. Às 16 horas acontecia a procissão que, na imagem exibida na página anterior, já não tinha o brilho de relatos do passado.
Os pescadores, vestidos de capas e carregando tochas, ocupavam posição de destaque. O mais velho carregava um crucifixo. Em seguida, um grupo de crianças “trajadas de alvo” carregava a figura de um peixe feito de papelão. Os andores dos santos eram enfeitados de flores naturais. As senhoritas da sociedade baiana carregavam o andor de Sant’Ana. Seguindo o costume baiano, a santa era acompanhada pelo Menino Jesus e Nossa Senhora do Parto. O cortejo retornava à igreja ao anoitecer. Os fiéis assistiam ao
Te Deum, ao sermão do pároco e à queima de fogos de artifício às 22 horas, horário em
que todos deveriam se recolher, pois marcava a saída do último bonde para Salvador e o desligamento da iluminação pública. (COUTO, 2010, p.123).
Até então, como frisa a autora, a festa era uma devoção de pescadores chamada inclusive de “Romaria dos Jangadeiros”. Na programação estava incluída uma procissão marítima, como já foi registrado anteriormente em A Tarde. Posteriormente, a romaria foi substituída por uma corrida de jangadas (COUTO, 2010, p.124). Aos poucos elementos das festas religiosas e cívicas da elite foram incorporados aos festejos, como o Bando Anunciador e os banhos à fantasia.
Mas não demoraram a aparecer tensões, principalmente entre os pescadores e a paróquia. Em 1919, eles se recusaram a pagar um dízimo à administração paroquial. É desse período, de acordo com a autora, a construção da atual Casa do Peso. Durante um período de escassez, eles resolveram dar um presente à mãe-d’água, em 1924.
“No primeiro momento, ficaram temerosos de realizar aquela “bruxaria”, desconfiados quanto à eficácia de tal ato. Resolveram mandar celebrar uma missa na igreja e, em seguida, partiram para alto-mar a fim de oferecer o presente, composto de perfume e flores”. (COUTO, 2010, p.156).
Para garantir a eficácia do presente, os pescadores recorreram aos serviços de Júlia Bugã126. De acordo com a ebomi Cidália Soledade, Júlia Bugã era a líder de um terreiro ijexá,
localizado onde hoje está o Departamento de Polícia Técnica (DPT). Cidália contava que no quinto dia da festa de Oxum no Gantois, Júlia Bugã comandava uma procissão de suas sacerdotisas até esse terreiro. Elas seguiam tocando pequenos tambores chamados de ilu e próprios do culto a Oxum. Quando chegavam ao Gantois, Mãe Menininha estava esperando na porta. Neste dia, o xirê do Gantois era todo feito em ijexá127.
Com a chegada de Júlia Bugã, o presente dos pescadores passou da condição de uma “simpatia” para um novo patamar: um rito realizado por uma especialista religiosa. Em 1930, segundo Edilece Couto (2010), o padre recusou-se a celebrar uma missa durante os festejos de Sant’Anna. Para ela, é o momento da separação, embora eu considere a transferência da festa para o mês de julho, em 1971, e a proibição de retomada da lavagem da igreja, seis anos depois, como a ruptura definitiva entre a tradição católica e a do candomblé.