• Nenhum resultado encontrado

Capítulo 4 Bonfim: a festa que mobiliza a cidade

4.1. Holofotes para a folia na Lavagem do Bonfim

Em A Tarde, o que emerge sobre a Festa da Bonfim parece ser sua dimensão profana, para além dos ritos religiosos. Nas narrativas, o destaque para a lavagem mostra que, mesmo ocorrendo na área externa da igreja, esta continuava animada:

Pela manhã de hoje, realizou-se no outeiro do Bomfim a tradicional romaria que foi a lavagem do templo. Carroças e animais d’água enfeitados de crótons e flores deram um aspecto pitoresco ao bairro. [...] Muitas famílias estiveram no adro, assistindo à curiosa festa. [...] As novenas de N. S. do Bomfim têm estado concorridíssimas, sendo de prever este ano “animação sem igual para as festas do glorioso padroeiro. (N. S. do Bomfim, A TARDE, 13/1/1921, capa).

Nas duas primeiras décadas do século XX, segundo as narrativas de A Tarde, a estrutura da festa incluiu novenário, lavagem, desfile de ranchos, venda de comidas típicas nas barracas, como o caruru, e de vez em quando episódios de violência, especialmente em um rito enfatizado nas reportagens do jornal: a Segunda-feira Gorda, que ainda não havia virado uma festa independente. Desde a primeira citação no jornal, esse evento é particularmente destacado, assim como o sábado e a terça. A festa, portanto, tinha duração de seis dias, além do novenário.

88 O livro de Ruth Landes foi publicado nos EUA em 1947. A primeira edição no Brasil circulou em 1967, realizada

Na edição de 18 de janeiro de 1927, embora com dificuldade para a leitura do texto, devido à má qualidade da reprodução89, informa-se que pela manhã (o jornal era vespertino) a animação

continuava pelas ruas de Itapagipe como resultado da festa na noite anterior.

Figura 28: Depois da Segunda-feira, a terça..., A Tarde, 13/1/1921, capa

Encontrei na coleção a referência à ocorrência de uma Festa do Bonfim também no Terreiro de Jesus, nome popular da Praça XV de Novembro, onde fica a Catedral Basílica, no Centro Histórico de Salvador. Realizada na Igreja de São Domingos, a comemoração era animada, embora estivesse muito distante da fama desfrutada pela ocorrida em Itapagipe. Mas,

89 Para a digitalização das coleções mais antigas, diante da impossibilidade de utilizar as edições impressas,

recorreu-se às cópias em microfilme que o jornal possui. O resultado é que nem sempre é possível conferir o conteúdo facilmente. Nesses casos, recorri a uma ferramenta do software Photoshop que permite escurecer os trechos, após a sua transformação em arquivo de imagem. Quando ainda assim o trecho continuava ilegível, recorri ao auxílio de uma lupa, o que funcionou na maioria dos casos.

segundo a edição de A Tarde de 18 de janeiro de 1928, o evento começava na sexta-feira e ia até a segunda com música no coreto, além do desfile de ternos e ranchos90.

A década de 1930 foi um período conturbado na Bahia, com os reflexos do movimento que depôs o presidente Washington Luís (TAVARES, 2001, p.378-416). Getúlio Vargas assumiu o comando do país, e a Bahia, que estava vivendo conflitos com o envolvimento de coronéis da Chapada Diamantina, foi colocada sob intervenção federal um ano depois91.

Apesar das turbulências no período, a festa continuou ocupando espaço nobre nas páginas do jornal. Na cobertura da edição dos festejos em 1930, o destaque foi para a inauguração das melhorias urbanas, como o alargamento da Ladeira do Bonfim:

Figura 29: Galgando a Sagrada Colina, A Tarde, 13/1/1930, capa

Os casos de violência ainda não são a tônica dos relatos sobre a festa, como vai acontecer a partir dos anos de 1970 de forma mais sistemática. Mas, em 1935, o assassinato de Henrique Gonçalves Teixeira, um funcionário da companhia de bondes, ocorrido durante a festa, foi

90 A Tarde, edição de 18/1/1928, p.2

91 O cearense Juracy Magalhães foi nomeado interventor. O proprietário de A Tarde, Ernesto Simões Filho,

manteve-se na oposição. Em 6 de outubro de 1930, a sede do jornal na Praça Castro Alves, então parte do centro administrativo e comercial da cidade, foi depredada. Após mover uma ação pedindo indenização ao Estado, Simões Filho foi para a França, onde ficou até 1932.

assunto de A Tarde por todo o ano. O autor, Albino Daltro de Castro, era chefe de fiscalização de armas.

O assassinato aconteceu após uma discussão. Passada a festa, o jornal prosseguiu nos desdobramentos do caso até o julgamento do autor. Tanto que, em 1935, as ocorrências sobre o Bonfim passaram de três, no ano anterior, para 21 citações92. A repercussão pode ser resultado da proeminência dos envolvidos, principalmente da vítima, que o próprio jornal indica como membro de família abastada.

Nas décadas seguintes, a violência foi ganhando cada vez mais espaço nos dias seguintes à realização da lavagem, principalmente quando a Segunda-feira Gorda ganhou independência e tornou-se a Festa da Ribeira, processo mais acentuado nos anos de 1960. Na edição de 12 de janeiro de 1979, página 13, o jornal anunciava como manchete da página: Marginais transformaram Bonfim em palco de violência. A imagem que ilustra a matéria mostra uma mulher, que, segundo a legenda, foi vítima de uma garrafada.

Figura 30: Marginais transformaram Festa do Bonfim..., A Tarde, 13/1/1979, p.13

Na edição de 16 de janeiro de 1987, a chamada de página é sobre um duplo homicídio cometido por um agente policial:

A Polícia do Exército prendeu ontem à noite, durante a Festa do Bonfim, o agente policial José Johnison Dezena e Mendonça, lotado na 5ª Delegacia, depois dele ter matado a tiros Julivaldo Santos da Silva e Sérgio do Espírito Santo Souza, ambos de 19 anos, além de balear também Denise Silva Santos, de 17 anos. (Policial mata dois..., A TARDE, 16/1/1987, p.15).

A partir de então, a página reservada para o noticiário de ocorrências policiais passou a contar com as que aconteceram durante a festa, principalmente à noite. Na edição de 1994, a violência durante os festejos acabou por virar manchete por conta de duas mortes e 16 pessoas atingidas por tiros. No texto há a afirmação de que policiais do Hospital Geral do Estado (HGE) consideram a festa uma mais violentas dos últimos anos, sem precisar detalhadamente a partir de que período.

Figura 31: Violência na Lavagem, 14/1/1994, capa

Os relatos sobre a violência na festa mantêm-se de forma constante. Uma reportagem publicada em 18 de janeiro de 2003, página 21, chegou a noticiar que 87 pessoas acabaram detidas por conta de confusões ocorridas durante a festa, em texto assinado pelos repórteres Cristovaldo Rodrigues e Carla Ferreira com o título Fim de festa marcado pela violência:

Um assassinato, quatro pessoas feridas em acidente de veículos, um vendedor ambulante baleado na Baixa do Bonfim, um garoto gravemente ferido ao cair de um muro que separa a Avenida Contorno e o Solar do Unhão, além de 87 pessoas detidas na 3ª Delegacia, por furtos, brigas, desordens e dois flagrantes por assalto. Esse foi o saldo dos festejos da lavagem em louvor ao Senhor do Bonfim, que misturou o sagrado e o profano e se estendeu até a madrugada de ontem. (A TARDE, 18/1/2003, p.21).

O curioso é que, mesmo com um homicídio e tantas prisões, a polícia, segundo a reportagem, considerou o ambiente de festa tranquilo:

Apesar dessas ocorrências, as autoridades policiais consideram que foi uma festa tranqüila, se compararmos com os anos anteriores e, também, se levarmos em conta o grande número de pessoas que circulou da Igreja da Conceição da Praia, de onde saiu o cortejo até o adro do Bonfim.

Esse discurso de violência como uma das marcas da festa, que perdurou por mais de 30 anos, de certa forma ajudou a diminuir o público da festa a partir do término da lavagem do adro. No meio da tarde, inclusive atualmente, o movimento é bem menor do que no final da década de 1990, quando a festa prosseguia até a madrugada da sexta-feira. Tanto que, a partir de meados dos anos 2000, a ênfase em registros de incidentes violentos ligados aos festejos foi decaindo. Na edição de 12 de janeiro de 2007, página 15, os casos de violência relacionados à Festa do Bonfim desceram da posição de destaque – manchete da página ou metade superior, como vinha acontecendo desde os anos 70 – para o rodapé. Em texto assinado pela repórter Luisa Torreão, a notícia enfatiza os baixos índices de crimes ou agressões:

Prestigiada por cerca de um milhão de pessoas, número estimado pela prefeitura de Salvador, a Lavagem do Bonfim transcorreu sem registros de violência mais graves. Até o final da noite de ontem, a 3ª CP, que cobre a área, havia recebido muitas queixas, mas a maior parte sobre ocorrências de furtos e brigas sem maior gravidade.[...] A maioria dos registros foi de incidentes leves. Não teve nada de mais grave”, assegurou a titular da delegacia, Inalda Cavalcante. (Festa sem ocorrências graves, A TARDE, 12/1/2007, p.15).

No período de 2010 a 2016, o espaço reservado para o registro de matérias sobre ocorrências policiais durante a festa desapareceu. Das páginas dedicadas à cobertura da festa, incluindo as chamadas de capa, a única referência a um caso de violência foi uma “curta” (nomenclatura utilizada para textos que têm apenas um parágrafo). O texto ocupa apenas uma coluna no lado direito inferior da página:

O ex-garçom Augusto Fernandes da Silva, 51, foi preso anteontem por policiais da Delegacia de Tóxicos e Entorpecentes (DTE), portando 200g de cocaína, segundo os agentes, para serem vendidas na Lavagem do Bonfim. Augusto disse que ficou desempregado e passou a vender carne de sol e requeijão na Calçada, mas, como não estava tendo rendimento, passou a comercializar drogas há quatro meses. Para a polícia, ele estaria no crime há mais tempo. ( Ex-garçom ia vender cocaína, A TARDE, 14/1/2011, p.A6).

A partir de 2010, a cobertura de ocorrências policiais já não tinha uma estrutura exclusiva. Os repórteres responsáveis por fazer as chamadas “rondas” (apuração de ocorrências em delegacias, hospitais, unidades da Polícia Militar e Corpo de Bombeiros) não mais atuavam de forma exclusiva. Além disso, com a criação do jornal Massa!, no mesmo ano, um outro título do grupo que dava prioridade a esses temas, A Tarde passou a descartar cada vez mais a designação de profissionais para esse fim, inclusive durante períodos de festa, como o Carnaval. Esse também é o período em que se acentuou a crise financeira do grupo, o que levou à redução de postos de trabalho e consequente diminuição de páginas, como fica patente na cobertura mais reduzida da Festa do Bonfim atualmente. Em 2005, por exemplo, a comemoração ocupou o espaço de 11 páginas.