• Nenhum resultado encontrado

Quando o homem vive em sociedade ele se volta para a coletividade em detrimento do “seu eu”. O homem abdica de suas liberdades individuais em preferência a manter o grupo. Seria então a limitação das liberdades um efeito do valor solidariedade? Ainda que não venha a ser caracterizado como efeito, o conflito entre individualismo e coletivismo serve de forma de definir quão ampla seria atuação do valor solidariedade.

Viu-se que a solidariedade, como valor social que é, resulta de crenças, hábitos. A solidariedade é percebida com maior notoriedade em dois momentos: quando ele se associa e quando ele permanece associado. São esses os momentos que refletem os fundamentos e a atuação da solidariedade.

A atuação da solidariedade é sentida como uma influência social, ou seja, um valor. E por isso, haverá situações em que o ciclo da sociedade tomado por outros valores, que naqueles momentos são preponderantes à solidariedade,

faz com que essa, em termosmacro, seja inibida. Esses momentos são marcados por um forte individualismo, o qual será determinado, evidentemente, com algumas diferenças, de acordo com o tempo e o lugar, ou seja, com a sociedade na qual se detecta, por diversos valores que destacam as características do indivíduo, da personalidade e incentivam um sentimento egoísta.

Com isso, surge o Direito, no seu papel, chamado para organizar a sociedade, com a finalidade de protegê-la, de buscar formas de mantê-la, de buscar formas de trazer outros valores à tona, ao menos em âmbitos mínimos, sem os quais seria impossível manter essa sociedade. Logo, o Direito vem servir de balança entre o individualismo e o coletivismo, sendo esse último considerado um conjunto de valores voltados a privilegiar o coletivo, um dos quais é a solidariedade, que, inclusive, tem tanto destaque a ponto de ser considerado esse “movimento social natural” como solidarismo, inclusive tendo sido estudado em muitas áreas do conhecimento.

Após ter-se constatado que a solidariedade é um valor e compreendido sua atuação, faz-se possível classificá-la. Será observada a classificação de valores apresentada conforme Falcão quanto à amplitude, ao tempo, à legitimidade e à matéria.

A solidariedade pode, então, ser identificada como sendo, respectivamente, um valor universal, permanente, positivo, jurídico.

Quanto à legitimidade, se é um valor positivo ou negativo, o que será constatado conforme o sentimento popular e não pela adesão refletida nas condutas humanas. Pois, se enfatiza, as condutas podem estar sendo impostas, podem estar sendo reproduzidas devido ao modelo do sistema no qual aquela sociedade se encontra inserida.

A presença e a atuação da solidariedade foram observadas desde a formação da sociedade como algo espontâneo, inclusive como resultado de escolha humana. Em momentos históricos diferentes, ela também foi observada como voluntária, como nas tendências difundidas pela cristandade, bem como pelo socialismo e ainda pelo Estado Social. E no Estado brasileiro, por exemplo, perceber-se-á que existem modelos de condutas impostos por um excesso de

82

de sociedade consumista, a qual se identifica inicialmente com o individualismo, então, se opõe à solidariedade. E nesse ínterim, o ordenamento começa a adotar a solidariedade como norma, portanto, sendo modelo de conduta imposta; mas isso não vêm negar a aceitação da sociedade por esse valor. Outro aspecto é o da eficácia das normas tidas como extensão do valor solidariedade. Com isso, quer-se concluir pela caracterização da solidariedade como um valor positivo. Mesmo assim, será demonstrado no estudo do modelo brasileiro.

A solidariedade será entendida como um valor universal, pois é voltado à existência e conservação de toda a humanidade, da raça humana. Ainda que adotada pelos Estados, jamais pode ser tida como nacional, ou popular, como valor de proteção exclusivo para os membros e componentes daquela sociedade. Em situações em que uma sociedade do tipo Estado, por exemplo, está em risco de se autodestruir, ou mesmo de destruir outros, ou de ser alvo de destruição por outros, o valor solidariedade pode ser acionado, ainda que esse Estado não tenha declarado a adoção desse valor, ou ainda, a tenha declarado com fins inicialmente de proteção exclusiva de seus membros. Quer dizer, a solidariedade é um valor adotado pela sociedade no todo, não segue limites territoriais, todos orientam suas condutas conforme seus ditames; porém, isso só se visualiza claramente quando sua intensidade cresce a ponto de estampá-lo em quase todas as condutas humanas, portanto em situações extremas de risco da extinção de um membro ou da humanidade em geral.

Na classificação, o termo social se refere à identificação do valor com uma sociedade ou uma associação específica. Enquanto durante toda a pesquisa, o termo social toma conotação mais genérica, também com alusão de ser adotado por sociedades, por grupamentos organizados, mas não se quer especificar a amplitude da atuação desse valor.

Já quanto ao tempo, pode-se designar a solidariedade como sendo um valor permanente. Pois, ainda que se vislumbre sua atuação em momentos de maior efervescência popular, principalmente relacionado a situações de risco, ou mesmo, como se verificará, em momentos de formação, surgimento, de grupos menores, porque os indivíduos gostariam de somar forças ainda que para defesa de interesses mais restritos que aqueles que têm uma conotação mais coletiva.

Então, a solidariedade é valor próprio dos períodos de coletivismo. Não que não estivesse presente, que desaparecesse por completo, em momentos em que o individualismo estivesse em alta, como à época do Iluminismo do Renascimento; porém, não era o valor em ascensão à época. Com isso as condutas dos indivíduos não costumavam ter uma preocupação com o coletivo, mas simplesmente com o próprio “eu”.

Já quanto à matéria, a solidariedade classifica-se como um valor jurídico, tendo em vista os ensinamentos de Duguit, que apontam os aspectos jurídicos como uma ramificação social. Ressalta-se ainda que tanto José de Albuquerque Rocha como Raimundo Falcão reportam-se aos valores como se fossem fatores sociais.

Isso é percebido quando o primeiro afirma que os valores definem os fins de uma dada sociedade, portanto, têm conteúdo social. Quanto ao outro professor, em momento de classificação, apesar de, no contexto em que ele emprega o termo social, ser apenas uma das espécies de valor que se apresenta na classificação quanto à amplitude, percebe-se que ele entende o valor da mesma forma que o professor Albuquerque: como um fator social. Fica claro que o campo de atuação da solidariedade é a sociedade, é o homem em coletividade, portanto, tem conteúdo social.

É nesse contexto que a presente pesquisa apresenta a solidariedade como um valor social, mas que conclui, segundo a orientação de José Albuquerque Rocha, que essa não é uma qualidade apenas da solidariedade, e sim de todos os valores. Resta então definir um tema mais específico que a solidariedade incorpore.

Bem, na realidade, a solidariedade terá diversas acepções, assim variando, em conformidade a essas acepções, a sua matéria de atuação. Mas será demonstrado em capítulo seguinte que o conteúdo que se tem reportado até agora, no presente estudo, tem o caráter jurídico.

84

4.2 TEORIAS E DOUTRINAS QUE DIFUNDIRAM