4.2. TEORIAS E DOUTRINAS QUE DIFUNDIRAM LARGAMENTE O
4.2.4 O Pensamento Solidarista segundo Dürkheim
A solidariedade social é detectada na sociedade, identificada como um fenômeno eminentemente moral por Dürkheim, mas que tem o direito como o “fato externo” que melhor a identificaria, a concretizaria, tendo em vista que a moral desenvolve ligação, um elo entre elas. E quanto maior a quantidade de relações entre as pessoas e a permanência, a extensão temporal, desse relacionamento entre elas, maior será a intensidade com a qual a solidariedade se apresentará. E essa intensidade é através da interferência jurídica voltada ao propósito de incutir a solidariedade na vida das pessoas com suas normas.
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Quanto mais os membros de uma sociedade são solidários, mais mantêm relações diversas seja uns com os outros, seja com o grupo tomado coletivamente, pois, se seus encontros fossem raros, só dependeriam uns dos outros de maneira intermitente e fraca. Por outro lado, o número dessas relações é necessariamente proporcional ao das regras jurídicas que as determinam.103
Dürkheim percebe que, quando falamos da solidariedade, podemos estar-nos referindo a coisas diversas, ainda que próximas: uma coisa é a solidariedade em seu estado natural, imanente, outra é quando ela é exteriorizada. Geralmente sua concretização não reproduz todas as características inatas. Quando exteriorizada, ela pode ter diferenças, o que acarretará em subespécies.
Assim, por um momento, a solidariedade é decorrente de semelhanças e o resultado é o elo, a ligação entre indivíduos a partir dessas semelhanças; noutro momento, a solidariedade é resultado de diferenças. Aí se observa que o antagonismo não existe, o que existe, segundo Comte, é uma continuidade. Então, a solidariedade se concretiza nas condutas dos indivíduos enquanto agem ou em complementaridade a outro indivíduo, atividade e papel semelhante, ou em suplementariedade, atividade e papel diversos que vêm a dar continuidade a algo já iniciado.
Com isso, conclui-se que a solidariedade engloba tanto as condutas complementares como as suplementares, abominando as opostas, antagônicas, contraditórias, divergentes, pois essas ao invés de conterem a solidariedade, estariam por apresentar conflitos entre os indivíduos, ou seja, relações que demonstram a quebra de elo, coesão, harmonia, inclusive egoísmo, defesa exclusiva de seu interesse único, individualismo.
Percebe-se também que a solidariedade social se manifesta através da denominada divisão do trabalho. Quer-se dizer que os indivíduos desenvolvem papéis na sociedade, alguns iguais, outros distintos. Veja, diferenças, distinção, podem gerar a solidariedade, como veremos, mas também o individualismo, como
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DÜRKHEIM, Émile. Da divisão do trabalho social. Traduzido por Eduardo Brandão. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999, p.31.
se observou acima, quando antagônicos os interesses e as condutas, gerando os conflitos. E, a partir dos diversos papéis de cada um deles, irão conduzir, sempre de forma a se estarem relacionando e contando com a permanência desses relacionamentos e a constância dessa “necessidade” em relacionar-se é que ocorre a intensificação da solidariedade.
Deve-se acrescentar que a solidariedade é reconhecida não somente em relações diretas entre pessoas, mas também em relações entre grupos, entre sociedades, de forma que alcançam toda a humanidade.
É característica da solidariedade a determinação do desempenho de papéis, que será por Dürkheim denominado de função. E percebe-se, reafirma- se, que a função de cada indivíduo é decorrência da divisão de atividade; então, quanto maior a divisão de atividades, maior será a necessidade do desempenho de funções por cada indivíduo. E quanto mais se demonstra a função social de cada membro, mais se amplia a solidariedade entre eles. Portanto a solidariedade é diretamente proporcional à função social e à divisão do trabalho.
Dürkheim demonstra a existência desses diversos tipos de solidariedade. É algo muito proveitoso a essa pesquisa, pois, perceber-se que tanto a solidariedade se apresenta de uma forma inata, ampla e complexa e talvez também inatingível, o que vem se encaixar com o que se conclui nesse estudo ser – a solidariedade valor – enquanto ele a identifica como fato; como também aproveita-se a constatação de Dürkheim de que a solidariedade é moral, porém se reflete internamente que o Direito é exteriorização da solidariedade, bem como a quantidade de normas jurídicas solidárias definem a adoção social da solidariedade; portanto; se comprova a conclusão obtida nesse estudo de que a solidariedade é norma.
Como se sabe, as normas, dentre outras espécies, podem ser morais e jurídicas. E dentre as normas jurídicas, se destacam os princípios e as regras.104 Dürkheim utiliza o termo regra, mas ao seu tempo só as regras eram espécies de normas jurídicas, mas constatar-se-á que a solidariedade está presente em todas espécies de normas jurídicas, portanto, não devendo jamais esse termo ser
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Há quem fale em um terceiro tipo de norma jurídica. A exemplo, enumera-se o pesquisador brasileiro Humberto Ávila classificando as normas como postulados (ÁVILA, Humberto. Teoria dos
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tomado restritivamente. O Direito é responsável por regular condutas sociais ou, em casos de relacionamentos diretos, poucas ou muitas pessoas enquanto indivíduos identificados, ou enquanto grupos, ou ainda em casos que gerem uma conseqüência social, quer dizer, que seus efeitos reflitam na sociedade sem que tenha sido objetivo principal e imediato de relações entre pessoas ou grupos. O mais interessante é que, se para Dürkheim a quantidade de normas jurídicas solidárias caracterizam a concretização da solidariedade no meio social, e a isso há de se supor não apenas a eficácia jurídica, mas também e principalmente a eficácia social105, e que em tomando então o Direito aplicado a uma sociedade, ou
melhor, delimitando um ordenamento jurídico de um Estado, e adotando-se a pirâmide hierárquica de Kelsen e a Supremacia da Constituição, então, se tem que a solidariedade pode ser constatada na análise do modelo de Estado e no conteúdo de sua Constituição, passos que foram escolhidos nessa dissertação.
A solidariedade já havia sido analisada por Dürkheim em seu livro La division du travail social (A divisão do trabalho social), escrito em 1891, e em obras seguintes. E assim, concluía pela presença da solidariedade na nação; identificando-a pela união entre aquelas diferentes pessoas e classificando-a em dois tipos distintos, a solidariedade mecânica, a qual leva os homens a fazer coisas semelhantes, e a solidariedade orgânica, o que resulta na divisão do trabalho.
Então, podemos ter a solidariedade como fator de coesão entre os homens. A sociabilidade identificada como da natureza do homem leva-o a se revelar com hábitos, costumes semelhantes aos dos outros, o que Dürkheim teria denominado de solidariedade por similitudes/similar ou solidariedade mecânica. Já em um segundo momento, o homem revela-se um ser autônomo, individualmente diferente, seguro de suas escolhas. Dessas diferenças e opinião próprias, Dürkheim conclui que se origina a divisão do trabalho social. Com a solidariedade orgânica, principalmente, se percebe o respeito à autonomia do homem e, ao mesmo tempo, a integração do homem ao grupo social, uma vez que os homens vão desenvolvendo atividades complementares umas das outras e transformando a realidade tanto sua como do grupo social no qual está inserido.
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SARLET, Ingo Wolfgang. A eficácia dos direitos fundamentais. 6. ed. revista, atualizada e ampliada. Porto Alegre: Livraria do advogado, 2006.
Então, dentre outros aspectos, conclui-se que a solidariedade se caracteriza como norma moral, sendo a função social a conduta que se exige. Quanto maior a organização da sociedade maior a presença e necessidade da solidariedade, portanto, mais se toma o aspecto normativo.
E em sendo norma moral, passa a ser indicada a sua adoção ao mundo jurídico, já que entende que quanto mais inter-relacionados esses dois campos, mais efetivo e ético será o Direito, o que poderia ser denominado de moralização do Direito – essa maior inter-relação entre a Moral e o Direito.