3.2 NATUREZA DA SOLIDARIEDADE
3.2.1 Fato e Dever versus Valor
São apontadas como natureza da solidariedade: ser um fato, ou ser um dever. Agora é preciso entender a teoria de que a solidariedade é um fato, como
também de que a solidariedade é um dever. De antemão, afirma-se que o sentido aplicado à solidariedade-fato é contrário ao da solidariedade-dever. Ressaltar que, a partir da solidariedade-fato, é que Lalande, por algum momento, trata de valor, porém, não chega a determinar que a solidariedade seria um valor, limitando-se a essas duas idéias solidariedade-fato, solidariedade-dever. Transcreve-se sua explicação:
‘Parece-me que a palavra solidariedade não pode designar um dever, mas apenas o fundamento de um dever. A solidariedade só pode ser, em boa linguagem um fato.’ (J. Lachelier)
‘A passagem do fato ao direito é absolutamente injustificada, visto que é preciso dar à solidariedade uma direção (um fim) ou um conteúdo ideal que não pode derivar do fato. A solidariedade tanto rege as associações de bandidos como as associações de pessoas honestas, talvez mais ainda. Ela é uma lei, como hábito ou a imitação: não pode servir de princípio à moral mais do que eles.’ (F. Mentré)
‘1º. A solidariedade é um dado, um fato ou um conceito como, por exemplo, a individualidade; e, se se falar de deveres de solidariedade, não se segue que a solidariedade seja um dever por si mesma. Mas porque a solidariedade é especialmente considerada como um fato humano, ela adquire um valor prático e, como a individualidade, comporta deveres; deveres, se este fato for essencial, de não agir contra a sua existência, e deveres de a tornar tão perfeita quanto possível, de lhe aumentar o valor. Dever de solidariedade significa, portanto, dever relativo à solidariedade.
2º. O fato de solidariedade, ou de inseparabilidade da parte com relação ao todo e, por conseguinte, às outras partes do mesmo todo, portanto da sua dependência recíproca, é, na relação do indivíduo com a sociedade e com os outros membros da mesma sociedade, mais clara e mais facilmente apreensível do ponto de vista jurídico, isto é, na forma organizada do agrupamento social. E assim a idéia de solidariedade chega sobretudo à consciência distinta na noção de solidariedade jurídica, engendrando certas responsabilidades definidas, individuais ou coletivas (sentido A)67
3º. A idéia generaliza-se sob o duplo aspecto das relações de comunidade e de complementariedade; tirada das relações humanas, mas expressa objetivamente através e por ocasião dos
atos humanos, ela é, por metáfora, aplicada a certas relações reversíveis nas coisas exteriores (sentido B)68 ou mesmo a
67
Quer dizer no sentido jurídico do ramo do Direito Civil, solidariedade entre devedores, a qual, posteriormente, se ampliou para a solidariedade entre credores.
68 “Dependência recíproca; característica dos seres ou das coisas ligadas de tal maneira que o
que acontece a cada um deles repercute no outro ou nos outros. Termo de sentido extremamente amplo e muito empregado, sobretudo a partir de Auguste Comte. ‘Quando esta solidariedade espontânea da ciência e da arte tiver sido organizada [...]’ (COMTE, A. Discurso sobre o espírito
70
relações unilaterais no tempo (sentido C)69. Mas trata-se apenas
de transferências por analogia imperfeita, porque as idéias de comunidade e de complementariedade só têm sentido por elas mesmas se se aplicam a relações de seres conscientes (relações diretas ou indiretas isto é, vistas através dos atos desses seres) Portanto, convém considerar a noção de solidariedade como definida por uma tripla condição; ela designa: 1º. Relações dadas ou concebidas (não relações ideais); 2º. Relações recíprocas (relações entre parte e todo, entre o todo e a parte, entre a parte num mesmo todo); 3º. Relações inseparáveis de um sentido e de um valor, portanto relações de consciência ou de fatos de consciência; e ela é assim um fato especificamente humano, que pode servir de matéria a uma apreciação moral e coloca a questão da mais perfeita solidariedade (solidariedade ideal e deveres de solidariedade). (M. Bernês).’70(Não negrejado no original).
Até o momento, vinha-se reportando à solidariedade como sendo um valor. Contudo, soma-se à pesquisa uma nova visão: a solidariedade seria em realidade um fato humano, conforme afirmação de Lalande. Sua semelhança, aliás, seu oposto, seria a individualidade. E a solidariedade seria um fato valorado, mas não um valor! Sua valoração seria a questão da sua performance, que, a exemplo do seu oposto, a individualidade, ditaria deveres a serem empregados no cotidiano.
A partir dessa explicação que evidencia esse “contraste”, conclui-se com maior facilidade que a solidariedade se apresenta como uma escolha da consciência humana, ou melhor, uma possibilidade de escolha. Que a solidariedade dita uma forma de vivência humana, a convivência com outros homens de maneira a se complementarem. Que, em verdade, a solidariedade define o cotidiano, o comportamento social.
Portanto, conclui-se que a solidariedade assume a definição de guia da vivência humana, de orientação do comportamento social, insinua deveres de uns para com os outros e instiga a sua execução, mas deixa a pessoa livre para sua escolha. Dizer isso não é o mesmo que dizer que a solidariedade é um fato. Essas características denotam nada mais nada menos
69 Refere-se à solidariedade tida como continuidade, exemplificada anteriormente com a rotação
dos ponteiros de um relógio.
70
LALANDE, André. Vocabulário técnico e crítico da filosofia. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999, p. 1.051-1.052.
que um valor que se constata através da sociabilidade humana; essa, sim, é um fato. Pois, como já se observou no capítulo anterior, o valor é uma possibilidade de escolha, é uma expectativa normativa, serve de guia, de orientação do comportamento dos indivíduos. Portanto, retorna-se à afirmação antes intuitiva de que a solidariedade seria um valor. Agora, fundamentada.
Portanto, acrescenta-se que o que se pode contrapor à individualidade é a sociabilidade humana, o mutualismo, a convivência coletiva. Esses realmente são fatos, mas que podem refletir ou não o valor solidariedade.
A solidariedade não seria um fato, e sim um valor, pois se apresenta definindo ações ou omissões, comportamentos, condutas. O momento de execução dessas condutas é que reflete o fato; antes disso, o que se têm é a hipótese de esse fato se concretizar. Mas já é sabido que os valores dependem dos fatos. Quando se afirma que essas condutas têm em comum o fundamento de servirem à manutenção da existência humana e de se manifestarem como condutas complementares às dos seus semelhantes. E, em seguida, se afirma que os homens têm seguido essa orientação, que as condutas foram concretizadas, sim, deu-se um fato.
Entretanto, esse referido fato se restringe ao exercício de condutas, aos momentos de sua execução. Já a solidariedade evidencia todo o sentido absorvido desse conjunto de condutas, aliás, de todo um conjunto de pessoas comportando-se segundo os preceitos da solidariedade. Quer dizer, a solidariedade não se confunde com o fato, o que põe por terra a afirmativa trazida no dicionário de Lalande, _ obra já referida, a qual por sinal é baseada em J. Lachelier. Aliás, quem primeiramente afirmara que a solidariedade é um fato teria sido Dürkheim, mestre de todos os tempos sobre o assunto; no entanto, como se constatou é um tanto precipitada, equivocada. Inclusive, como se tem demonstrado nessa pesquisa, o valor, relembrando, sempre se diferencia do bem valorado, que significa no contexto que as condutas são o bem valorado. Mas as condutas são o fato. Então, a afirmação de que a solidariedade seria um fato é resultado de uma confusão entre o bem valorado e o valor, quais sejam, respectivamente, o fato, que são as condutas, e a própria solidariedade, que dá
72
sentido às condutas. Então, agora restou demonstrado, logo se pode afirmar com base científica que a solidariedade é um valor.