A ORGANIZAÇÃO DO PODER POLÍTICO APÓS A REVISÃO CONSTITUCIONAL DE
3. Entrada em vigor dos artigos referentes aos novos poderes do PR
3.1. Competência própria do PR
No âmbito da competência própria, compete ao PR nos termos do art.º 80.º da CRDSTP- 2003:
(152) Competência de exercício livre do PR: são poderes do Chefe de Estado que, apesar de subordinados à
juridicidade (Num estado de direito não existem poderes públicos totalmente autónomas ou livres, toda a competência encontram limitada ou vinculada a respeitar a juridicidade), não têm o seu exercício condicionado por exigências específicas (Cf. OTERO, Paulo - Direito Constitucional Português: Organização Do Poder Político. Volume II. Coimbra: Almedina. 2010, p. 244).
(153) Competência de exercício vinculado, a margem de liberdade do PR é reduzida, e o PR limita-se a executar
ou cumprir aquilo que a Constituição lhe impõe, sem margem de autonomia, praticando os atos devidos, obrigatórios (o PR não tem liberdade de recusar o seu exercício) ou vinculados (o PR não tem margem de escolha quanto ao conteúdo dos actos a praticar, encontrando-se investido no dever de praticar actos de conteúdo vinculado) - Cf. OTERO, Paulo - Direito Constitucional Português: Organização Do Poder Político. Volume II. Coimbra: Almedina. 2010, p. 239.
(154) Competência de exercício condicionado, por um lado, o PR goza de uma margem de liberdade de escolha
quanto ao momento e quanto ao conteúdo dos atos a praticar e, por outro lado, essa margem de liberdade que possui o PR encontra-se, todavia, atenuada ou condicionada por seguintes fatores: Em primeiro lugar, a necessidade de autorização ou assentimento por parte da AN para o PR exercer a sua competência, razão pela qual se pode considerar que sem esse ato permissivo ou consentido da AN a competência presidencial é imperfeita ou inoperativa; Em segundo lugar, o exercício da competência decisória do PR pode depender de proposta (: PM, Governo ou AN) e/ou audição de um outro órgão ou entidades (: Governo, Conselho de Estado, partidos políticos com representação parlamentar), sabendo-se, todavia, o seguinte: Em caso de proposta, o PR não se encontra obrigado a aceitar a proposta, apesar de não ter a possibilidade de decidir fora daquilo que lhe é proposto; Perante casos de audição, o PR não se encontra vinculado ao conteúdo resultante da audição que, apesar de ser ato obrigatório quanto a sua realização, não assume natureza vinculativa; Em terceiro lugar, o exercício da competência do PR pode encontrar-se dependente de uma circunstância de facto, segundo dois modelos distintos: A circunstância de facto depender de um juízo ou densificador a realizar pelo PR («(…) tendo em conta os resultados eleitorais (…)» - art. 81.º, al. g) CRDSTP-2003, estar em causa «(…) o regular funcionamento das instituições democráticas (…)» - art. 117.º, n.º 2 CRDSTP-2003); A circunstância de facto ser totalmente independente de qualquer juízo avaliativo (a existência de um prazo ou de uma maioria absoluta da AN).
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a) Defender a Constituição da República - Tal como na CRDSTP de 1990 o PR surge configurado como um dos «co-defensores» da lei fundamental e está vinculado a defender a Constituição da República;
b) Exercer as funções de Comandante Supremo das Forças Armadas - Na CRDSTP de 1990 esta função não fazia parte da competência, mas com a revisão constitucional de 2003, além de o PR ser comandante das Forças Armadas (Art.º 77.º da CRDSTP- 2003) compete a ele o exercício das funções do comandante das Forças Armadas (artigo 80.º, alínea b). Esta é uma competência de exercício livre.
c) Marcar, de harmonia com a lei eleitoral, o dia das eleições para Presidente da República, para a Assembleia Nacional e para as Assembleias do poder regional e local - O PR, aqui como árbitro, não exerce esta competência de forma discricionária, pois, como resulta do art.º 21.º, nºs 2 e 3 da Lei Eleitoral(155), há um lapso temporal obrigatório para a marcação da data de novas eleições da AN em caso de dissolução, e, como se deduz do art.º 13.º da Lei Eleitoral, também a marcação da data de eleições presidenciais está sujeita a limites a quo e ad quem estritamente vinculantes. Mesmo assim, sempre existe uma margem de escolha do PR na marcação das datas;
d) Convocar referendo a nível nacional e marcar a data da sua realização - É o PR que decide sobre a convocação do referendo cuja realização, nos termos do art.º 71.º, n.º 1 da CRDSTP-2003, lhe seja proposta por AN ou pelo Governo (artigos 71.º, n.º 1 e 111.º, al. k) da CRDSTP-2003). Como podemos observar, só existe referendo mediante a conjugação da vontade da maioria parlamentar-governamental e do PR. Este não pode sozinho decidir a realização de um referendo, mas como é óbvio, submetida a proposta ao PR, ele é livre da decisão de convocar o referendo. Como podemos observar o poder do PR aqui está condicionado pelas propostas que pode vir da AN ou Governo, e no entanto o PR não se encontra obrigado a aceitar a proposta, apesar de não ter a possibilidade de decidir fora daquilo que lhe é proposto;
e) Promulgar as leis, os decretos-lei e decretos – O PR não tem poder legislativo ativo, mas tem um papel relevante no processo legislativo e no controlo da constitucionalidade. Isso com duas finalidades principais: primeiro, para que a lei, dirigida à comunidade de cidadãos, apareça revestida de maior autoridade e legitimidade e traduz solidariedade entre os principais órgãos do Estado; segundo, para
(155) Nos termos do art.º 21.º, nºs 2 da Lei Eleitoral, em caso de dissolução da AN, a data das novas eleições será
fixada pelo próprio ato de dissolução, as quais se devem realizar no prazo máximo de 90 dias. O n.º 3 do art.º Referido acresce que a violação do disposto no número anterior determina a inexistência jurídica do ato de dissolução.
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que se possa exercer um controlo interorgânico(156). Compete ao PR, no âmbito de poder discricionário (livre/autónomo), promulgar as leis, os decretos-lei e decretos. Aqui o PR intervém em atos de outros órgãos, concluindo o respetivo processo.
f) Indultar e comutar penas, ouvido o Governo - O indulto é um ato de perdão, que consiste em isentar o condenado de toda ou parte da pena, a comutação é a substituição de uma pena por outra menos grave(157). O indulto e comutação pressupõem a existência de uma condenação definitiva. O exercício da competência decisória do PR é condicionado pela audição do Governo. Cumpridas as formalidades da audição, a decisão será um ato discricionário do PR. O PR não se encontra vinculado ao conteúdo resultante da audição que, apesar de ser ato obrigatório quanto a sua realização, não assume natureza vinculativa;
g) Declarar o estado de sítio e de emergência, ouvido o Governo e depois de autorizado pela Assembleia Nacional – Aqui não estamos perante um ato livre e incondicional do PR, antes pelo contrário estamos perante um ato condicional. Antes da declaração do PR, terá de haver autorização da AN, precisando ainda de ser precedida de audição do Governo. No entanto a responsabilidade da declaração pertence ao PR como um «ato discricionário».
h) Autorizar a participação das Forças Armadas são-tomenses em operações de paz em território estrangeiro ou a presença de Forças Armadas estrangeiras em território nacional, sob proposta do Governo, ouvido o Conselho de Estado e mediante o assentimento da Assembleia Nacional - A margem de liberdade que possui o PR é condicionada, pela proposta do Governo, audição do Conselho de Estado e pelo assentimento por parte da AN. Sem esse ato permissivo ou consentido da AN a competência presidencial é imperfeita ou inoperativa. O ato de autorização não é um ato vinculado do PR, visto que a proposta do Governo, audição do Conselho de Estado e
assentimento da AN são apenas pressupostos do exercício desses poderes pelo PR. Este
tem o poder discricionário de Autorizar ou não.
i) Requerer ao Tribunal Constitucional a fiscalização preventiva da constitucionalidade ou legalidade dos diplomas legais e dos tratados internacionais – está prevista aqui a legitimidade ativa do PR para desencadear a fiscalização da
(156) MIRANDA, Jorge; MEDEIROS, Rui – Constituição Portuguesa Anotada. Tomo II. Com a colaboração de
Eduardo Paz Ferreira / Manuel Afonso Vaz / Lino Torgal / António de Araújo / António Rocha Marques / Margarida Menéres Pimentel / Miguel Nogueira de Brito. Coimbra: Coimbra Editora, 2006, p. 389.
(157) Idem, p. 394; e CANOTILHO, J. J. Gomes; MOREIRA, Vital - Constituição da República Portuguesa
Anotada. Vol. II, 4ª Edição revista. Coimbra: Wolters Kluwer Portugal sob a marca Coimbra Editora. 2010, pp. 193-194.
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constitucionalidade, no exercício da sua função de defesa da Constituição. Estamos aqui claramente perante competência de exercício livre ou autónomo do PR.
j) Conceder as condecorações do Estado – O PR ao mais alto nível confere condecorações e esta é uma competência de exercício autónomo.