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A ORGANIZAÇÃO DO PODER POLÍTICO APÓS A REVISÃO CONSTITUCIONAL DE

3. Entrada em vigor dos artigos referentes aos novos poderes do PR

3.3. Competência nas relações internacionais

Por fim, quanto às competências nas relações internacionais, temos o art.º 82.º, da CRDSTP- 2003, que refere que compete ao PR no domínio das relações internacionais:

a) Representar o Estado nas relações internacionais - Ao PR não compete, ao contrário do que acontecia na CRDSTP de 1990, dirigir a política externa. Esta competência foi deslocada para o Governo (art.º 111.º, al. e) da CRDSTP de 2003), aliás de acordo com o princípio geral de que compete a este a condução da política geral do país (art.º 108.º da CRDSTP-2003). A competência de representação do Estado nas relações internacionais, não constitui um poder simbólico do PR(163), como defende Bacelar Gouveia. Existe aqui

(163) Como exemplo de que este poder é um poder efetivo, olhemos para o caso referente ao processo de

reconhecimento do Kosovo, criada pelo décimo quarto governo constitucional, liderado por Patrice Trovoada. Este processo começou da seguinte forma «O Venerando Conselho de Ministros, reunido sob a presidência de

Sua Excelência o Senhor Primeiro Ministro e Chefe do Governo DR. PATRICE EMERY TROVOADA, estando presentes todos os seus membros, decidiu por unanimidade RECONHECER A REPÚBLICA DO KOSOVO, como Estado soberano e membro de pleno direito da comunidade internacional, e submeter a posterior ratificação e promulgação pelos órgãos competentes» (REPÚBLICA DEMOCRÁTICA DE S. TOMÉ E

PRÍNCIPE. XIV Governo Constitucional – Resolução de 13 de Março de 2012, p. 1/1). A presidência, sobre o processo de reconhecimento do Estado de Kosovo, veio à posteriori a queda do XIV Governo, comunicar o seguinte: «Tendo constatado que o XIV Governo Constitucional procedeu ao “Reconhecimento Internacional de

República do Kosovo, enquanto Estado Soberano, por via de uma Resolução do Conselho de Ministros”, em clara desconformidade com o estipulado na Constituição da República Democrática de São Tomé e Príncipe, vem o Presidente da República Democrática de São Tomé e Príncipe esclarecer o seguinte: a) O acto de reconhecimento da soberania de um Estado é atribuição da República Democrática de São Tomé e Príncipe; b) A manifestação de vontade, por parte da República Democrática de São Tomé e Príncipe, no que às relações internacionais diz respeito, expressa-se por via de concertação política entre o Governo e o Presidente da República, cabendo a este, exercer o acto final, a respeito, por força do disposto no artigo 82º, a) e d), da Constituição da República em vigor; c) Em momento algum do alegado processo de reconhecimento o Presidente da República foi instado a pronunciar-se, apesar do referido in fine no texto da Resolução. Assim: O Presidente da República ao abrigo de competências próprias que detém no âmbito das relações internacionais do Estado Santomense, vem declarar URBI ET ORBI que a República Democrática de São Tomé e Príncipe não procedeu ao reconhecimento da soberania da República do Kosovo. A todos os que o conteúdo deste importar, assim o entendam e ajam em conformidade» (REPÚBLICA DEMOCRÁTICA DE S. TOMÉ E PRÍNCIPE.

Presidência da República. Comunicado, de 7 de Janeiro de 2013). Também convém olhar para o que disse o Ex Primeiro-ministro Patrice Trovoada, numa entrevista à STPTV, onde ressalta o entendimento de caracter não simbólico da representação da política externa por parte do PR. O Ex. PM referiu que «O Presidente da

República é convidado como chefe de Estado são-tomense, representar o Estado São-Tomense em Timor Leste. Não pode ir, fala diretamente com um embaixador Damião Vaz de Almeida para ir a Timor Leste representar o Estado são-tomense. É essas e vários outros exemplos, mostram, de facto, a propensão que havia por parte do Presidente Pinto da Costa em não respeitar a Constituição ou, pelo menos, em provocar choques com o

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uma contradição entre ser representante do Estado nas relações internacionais e o facto de o Governo dirigir a política externa do país. Ambos representam o Estado nas relações internacionais. Apesar do PR não dirigir a política externa, ainda assim, no que concerne as questões de relações internacionais do Estado, será necessário uma tarefa de «concordância prática» para as conjugar. Em sistema semipresidencial, o Presidente eleito pelo povo, e que nos termos da Constituição representa a República, deve ter o direito de estar presente em qualquer reunião internacional de Chefes de Estado e de Governo que não tenha caracter executivo ou de preparação da celebração de convenções internacionais. Mesmo tratando-se de reunião internacional de Chefes de Estado e do Governo, que tenha caracter executivo ou de preparação da celebração de convenções internacionais, a posição do PR não pode, sequer, mesmo no interesse do Governo, ser ignorada, já que, dispondo constitucionalmente do poder de ratificar os tratados e assinar os acordos internacionais. O PR pode, no limite, se quiser, inviabilizar definitivamente qualquer posição a que o Governo se tenha vinculado internacionalmente(164). O interesse de concertação deve ser recíproco: o PR não deve expressar internacionalmente opiniões divergentes da política definida pelo Governo, assim como o Governo deve, não apenas manter o PR informado das posições que sustentam internacionalmente e, pelo menos nos casos em que vem a necessitar da cooperação institucional do PR, não deve ignorar as posições manifestadas por este, antes da celebração de qualquer compromisso internacional que vincule o Estado são-tomense(165).

b) Ratificar os tratados internacionais depois de devidamente aprovados – Trata-se de um ato presidencial que atesta e declara a vinculação do Estado São-Tomense por um tratado previamente aprovado (pela AN ou pelo Governo), com a subsequente produção de efeitos na ordem jurídica interna (art.º 13.º, n.º 2 da CRDSTP -2003). É nosso entendimento que aprovado qualquer tratado, siga a forma já descrita(166). A ratificação é um ato livre do PR, não sendo este obrigado a ratificar os tratados.

Primeiro-ministro» (STPTV - Estabilidade de S. Tomé e Príncipe. STPTV. [Em linha]. 09/11/2013. [Consult.

27 de Novembro de 2013]. Disponível em http://www.youtube.com/watch?v=NrJc9beigjM).

(164) Cf. NOVAIS, Jorge Reis – O Sistema Semipresidencial Português: Semipresidencialismo. Vol. II.

Coimbra: Almedina, 2007, p. 173.

(165) Cf. NOVAIS, Jorge Reis – O Sistema Semipresidencial Português: Semipresidencialismo. Vol. II.

Coimbra: Almedina, 2007, pp. 173-174 p.

166 Gomes Canotilho/Vital Moreira entendem que a ratificação constitui uma condição de perfeição dos tratados

solenes (os acordos em forma simplificada não carecem de ratificação) não só para efeitos do direito internacional (vinculação internacional do Estado português), mas também para efeitos de recepção no direito interno (produção de efeitos na ordem jurídica interna) CANOTILHO, J. J. Gomes; MOREIRA, Vital - Constituição da República Portuguesa Anotada. Vol. II. 4ª Edição revista. Coimbra: Wolters Kluwer Portugal sob a marca Coimbra Editora. 2010, p. 198. Jorge Miranda/Rui Medeiros referem que aprovado qualquer tratado,

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c) Declarar guerra e fazer a paz, sob proposta do Governo, ouvido o Conselho de Estado e mediante a autorização da Assembleia Nacional – Por um lado estamos diante de competência de exercício condicionado, o PR para declarar a guerra ou a paz está dependente da proposta do Governo (a quem compete conduzir a política externa) e da autorização da AN. Por outro lado, o PR goza de uma margem de liberdade quanto ao ato de declaração de guerra ou a decisão da feitura de paz.

d) Nomear e exonerar os embaixadores, sob proposta do Governo, e acreditar os representantes diplomáticos estrangeiros – Trata-se aqui de um ato partilhado entre o PR e o Governo. Por um lado, o agente diplomático é um representante do Estado são- tomense, e quem representa o Estado nas relações externas é o PR, por outro lado, o agente diplomático é um executor da política geral do Governo nas relações externas, motivo pelo qual se justifica a proposta e iniciativa do Governo. Impõe-se, assim, uma tarefa de cooperação política entre o PR e o Governo, pois o PR nunca pode escolher um agente diplomático que não lhe tenha sido proposto pelo Governo(167), e este não pode impor unilateralmente uma nomeação, pois esta tem de ser feita por decreto do PR. O que vale para a nomeação, vale igualmente para a exoneração. Trata-se de poderes condicionados.

e) Conduzir, em concertação com o Governo, todo o processo negocial para conclusão de acordos internacionais na área da defesa e segurança – Apesar de a revisão constitucional de 2003 afastar o PR da direção da política de defesa e segurança, ainda assim, salvaguardou a sua intervenção no plano internacional nas áreas mencionadas. Cabe ao PR em concertação com o Governo, conduzir o processo negocial para conclusão de acordos internacionais nas áreas da defesa e segurança. Estamos aqui no âmbito de competência partilhada e logo condicionada.

cabe ao PR proceder à declaração solene de vinculação internacional do Estado (MIRANDA, Jorge; MEDEIROS, Rui – Constituição Portuguesa Anotada. Tomo II. Com a colaboração de Eduardo Paz Ferreira / Manuel Afonso Vaz / Lino Torgal / António de Araújo / António Rocha Marques / Margarida Menéres Pimentel / Miguel Nogueira de Brito. Coimbra: Coimbra Editora, 2006, p. 399.

(167) Numa entrevista proferida a uma nova televisão, STPTV, o antigo Primeiro-ministro Patrice Trovoada

referiu que « (…) há um decreto presidencial 3/2012 em que o Presidente da República nomeia um embaixador,

um senhor Torielo, italiano, sobre proposta do Governo. Embaixador itinerante com competência e jurisdição em vários países. Eu não conheço o Torielo, o Ministro dos Negócios Estrangeiros não conhece o Torielo. (…) Não houve nenhuma proposta e, eu digo ao Presidente, senhor Presidente desculpa, (…) nem sei se ele é são- tomense, o senhor nomeia embaixador um decreto que diz sobre proposta ao Governo, não há proposta ao Governo, temos que resolver o assunto. O senhor Presidente diz-me ta feito ta feito e eu tenho que conviver com isso. Bom, onde é que falta de lealdade da minha parte? Para evitar conflitos, para não recorrer ao Tribunal Constitucional, eu tentei como ele disse conviver com a situação» (STPtv - Estabilidade de S. Tomé e Príncipe.

STPTV. [Em linha]. 09/11/2013. [Consult. 27 de Novembro de 2013]. Disponível em http://www.youtube.com/watch?v=NrJc9beigjM).

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