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CAPÍTULO 2 – O COMPLEXO INDUSTRAL DA SAÚDE E O MERCADO DE

2.2. O complexo industrial da saúde

Todo complexo industrial [...] traz, em si mesmo, o caráter único das relações que se estabelecem entre seus membros e a forma pela qual cada um deles, em particular, e o complexo, no geral, se apropriam de uma parcela do excedente econômico. Assim, não basta somente analisar os vínculos existentes a partir dos fluxos de bens e serviços, que poderiam ser adequadamente tratados a partir da idéia de cadeias de produção. É preciso também entender o papel que os diversos agentes e elementos constituintes de um complexo industrial assumem na sociedade e como as relações entre eles se processam ao longo do tempo (VIANNA, 2002, p.377).

O processo de penetração do capital, a formação de em´presas na área de saúde e de constituição de um complexo econômico movido pela lógica de mercado não é novo, já tendo sido identificado por Cordeiro (1980). Ao estudar o padrão de consumo de medicamentos no

país, Cordeiro referiu-se ao complexo médico-industrial como determinante fundamental das práticas de consumo de medicamentos e o definiu como a

[...] produção e circulação de medicamentos, a organização da prática médica, as formas de intervenção estatal no setor e as práticas concretas de consumo individual [...] a formação de recursos humanos, as articulações da escola médica com a Indústria Farmacêutica e as relações com o setor de equipamentos (CORDEIRO, 1980, p.113).

É um estágio resultado da reprodução dos capitais investidos no setor da saúde que implicaram na hegemonia de práticas capitalistas privadas e na determinação de padrões de relação entre os atores (VIANNA, 2002). O complexo médico-industrial focalizava, em contexto histórico, o processo de produção e de consumo de medicamentos crescente, e internalizava as relações capitalistas da produção nas práticas médicas, impulsionadas assistência médica previdenciária no Brasil da década de 1970 a 1980.

Para Vianna (2002) existem no sistema de saúde dois atores fundamentais que moldam o comportamento de seus agentes nessa rede: um é a tecnologia e outro é o aspecto financeiro de valorização do capital. Para o primeiro, constituiu-se o que se denomina complexo médico- industrial, enquanto que, para o segundo, tem-se o aparecimento de um complexo médico- financeiro. O primeiro se constituiria no grande vetor da expansão dos gastos em saúde, dado ao fato que o medicamento científico passa a tratar de antigos problemas de saúde (e posteriormente criar necessidades de saúde para vender novos produtos). O segundo, composto, fundamentalmente, pelo capital financeiro (público e privado) que estaria interessado em um processo de racionalização dos gastos em saúde, uma vez que a inflexão de renovação tecnológica elevou vertiginosamente os custos com saúde (tecnologia que por vezes não substituía a anterior, mas a complementava).

Já complexo industrial da saúde constitui mais do que a seleção de setores de atividade, a partir de sua linha de produção (como medicamentos e equipamentos médicos) ou da propriedade do capital (segmento privado). Gadelha (2003) amplia o conceito de complexo médico-industrial a partir da análise do processo de transformação dos modelos de gestão organização da produção de bens e serviços em saúde, tanto nos espaços privados quanto os públicos. Tais processos caminham na direção de um padrão empresarial, inclusive nos casos em que o objetivo do lucro não se coloca como finalidade primordial, sendo substituído por metas alternativas de desempenho (referidas, por exemplo, à produção, qualidade, custos e compromissos de atendimento de populações ou clientelas específicas). Entretanto, o autor observa que este movimento não pode ser visto como uma "anomalia" específica ao setor saúde. Gadelha entende como um processo decorrente da expansão do sistema capitalista em

fase de mundialização do capital. Tal fenômeno influencia as relações contratuais e de constituição de mercados no setor da saúde, que se constituem por um conjunto de organizações (organismos públicos não-estatais, terceirização, organização de cooperativas de trabalhadores, etc.), que passam por pressões para a seguirem lógicas de obtenção de competitividade e de eficiência econômica, práticas gerencialistas.

Segundo Gadelha (2003), o complexo industrial da saúde representa um corte analítico diferenciado frente à forma tradicional de abordar o setor saúde, representando uma percepção da área como um conjunto interligado de produção de bens e serviços em saúde que se movem no contexto de dinâmica capitalista neoliberal. De um lado, possui fortes especificidades frente a qualquer outro complexo de atividades; de outro, compartilha a característica geral de se inserir como um conjunto de atividades capitalistas, seja diretamente via relações típicas de mercado ou pela inserção no marco do padrão de regulação vigente.

O complexo industrial da saúde, representado pela figura 3, engloba processos tanto industriais, como financeiros, além da prestação de serviços diretamente aos consumidores, também conhecida como produção terciária.

Figura 3 Caracterização geral do complexo industrial de saúde. Fonte: Gadelha, 2003.

No Brasil, o processo de expansão do capitalismo periférico excludente e desigual teve como base o crescimento e a diversificação do setor manufatureiro, quando se defendia o desenvolvimento da política industrial como forma de superação da dependência e da

mudança na divisão internacional do trabalho. Sob influência de idéias neoliberais, na década de 1990 o modelo marcado pela substituição de importações atacou de modo incisivo a estratégia de desenvolvimento adotada anteriormente (GADELHA, 2006).

No contexto do SUS, a questão da integralidade da saúde está diretamente relacionada às consequências do modelo hegemônico de assistência à saúde dos anos 1970. Tal modelo era vinculado ao complexo industrial da saúde e, portanto, baseado na contratação privada de serviços e na compra de medicamentos do setor industrial privado, uma vez que o estímulo à produção pública de medicamentos foi insuficiente e posterior ao estabelecimento de indústrias farmacêuticas privadas.

Com o objetivo de atender as necessidades e interesses de reprodução do capital originário desse complexo industrial da saúde, a prática médica é estimulada (via propagandistas) a seguir a lógica do mercado como racionalidade clínica para incorporar as tecnologias de saúde. Como consequência, apesar de movimentos opostos do MS, observa-se a incorporação de tecnologias em saúde, dentre elas o medicamento, atendendo às necessidades do capital e desconsiderando os padrões epidemiológicos e as necessidades sociais de saúde.