O Ciberespaço é clarament e o principal ent re as novas t ecnologias de inf ormação a promet er impact ar signif icat ivament e as circunst âncias quot idianas de t odas as relações sociais. O Ciberespaço é um exemplo real de uma rede de comput adores ampla e ext ensa, que permit e a cada indivíduo t er igual voz ou, pelo menos, a mesma chance de f alar. Descobrindo-a, um número crescent e de pessoas se encant a com sua capacidade t ecnológica de divulgar legit imament e suas próprias expressões individuais, t ant o quant o pela liberdade que ela f ornece em relação às t radicionais barreiras de t empo e espaço. Quest ão cent ral a seu respeit o é se, como se cost uma af irmar, esse poder e a capacidade de ent rar cada vez mais f acilment e em cont at o com um número sempre crescent e de pessoas com af inidade de pensament o f ort alecem o sent iment o de comunidade.
Obviament e, comunicação e comunidade são expressões que possuem uma linhagem comum. Comunicação vem do lat im communi s (comum) ou communi car e (est abelecer uma comunidade ou uma 'comunalidade'). Apesar de a comunicação servir de base ao conceit o de comunidade, t odavia não deve ser equiparada a ele. Um indivíduo pode se comunicar com out ro sem considerá-lo um membro de sua própria comunidade. Com isso at é que pont o pode-se dizer que o Ciberespaço f acilit a a f ormação de "comunidades"?
O Ciberespaço, para nossos propósit os, é o que f ornece uma inf ra-est rut ura t ecnológica para comunicações mediadas por comput adores (CMC) at ravés do t empo e espaço. At ravés dele, porém, surge uma f orma de co-presença virt ual, result ant e das int erações elet rônicas ent re os indivíduos, que não se rest ringe aos t radicionais limit es de t empo e espaço: est a é a base do que é geralment e ref erido como "comunidade virt ual".
Howard Rheingold (1996) def ine est as comunidades virt uais como as agregações sociais, que emergem da rede quando pessoas em número o suf icient e levam discussões públicas longe o suf icient e, com suf icient e sent iment o humano, para f ormar redes de relacionament os pessoais no Ciberespaço. É est a visão sobre o Ciberespaço que propomos int errogar nest e capít ulo. Qualquer sent iment o de comunidade encont rado no Ciberespaço, def endemos, precisa ser necessariament e virt ual, mas pode não ser suf icient ement e comunit ário. Rheingold (1996) at ribui
sent ido social aos encont ros ciberespaciais e nos most ra como uma dialét ica individual f lui sem problemas a part ir do colet ivo. Quest ionamos o grau em que a idéia t radicional de comunidade est á de f at o present e nas "comunidades virt uais". Quant o mais pessoas f orem at raídas para os novos meios de comunicação, mudanças concomit ant es no conceit o de comunidade e ident idade vão emergir inevit avelment e.
A nat ureza "virt ual" das comunidades virt uais deveria nos prevenir em relação a f azer qualquer caract erização simples de suas exist ências. Os observadores dessa f orma de comunicação cost umam associar o t ermo com os próprios t it ulares de at os comunicat ivos. Dest art e, f reqüent ement e ouve-se f alar de uma f orma part icular de comunidades e associada aos MUDs (mul t i -user dungeons) ou mesmo as list as de discussão. Out ros, porém, escolheram uma abordagem dif erent e. Kumiko Aoki (1994), por exemplo, dividiu o est udo de comunidades virt uais em t rês agrupament os: 1) aqueles que coincidem t ot alment e com as comunidades f ísicas; 2) aqueles que coincidem com comunidades reais em algum grau; e 3) aqueles que são t ot alment e separadas das comunidades f ísicas (AOKI, 1994). Cada uma dest as abordagens t em seus mérit os. Para nossos propósit os, ent ret ant o, as comunidades virt uais não são necessariament e produt os de um meio part icular de est rut urar a comunicação, nem mesmo aquelas explicit ament e organizadas em relação com um espaço f ísico. Pelo cont rário, enquant o "corpos" ou "ocupant es" do espaço conceit ual as "comunidades virt uais" devem ser reconhecidas como const rut os ideais.
Imagi ned Communi t i es, de Benedict Anderson, é, nesse sent ido, elucidat ivo: t odas as comunidades maiores do que as aldeias primit ivas, de cont at o f ace-a-f ace (e t alvez at é est as), são imaginadas. Comunidades devem ser dist inguidas, não por sua f alsidade ou genuinidade, mas pela f orma em que são imaginadas (ANDERSON, 1983). O cont ext o das comunicações por comput ador necessariament e enf at iza o at o de imaginação que é necessário para criar a imagem de comunhão com out ros que, geralment e, não t êm rost o, são moment âneos, ou anônimos. Quest ionar-se sobre os aspect os sócio-psicológicos dessa espécie de comunicação é de f undament al import ância. As quest ões a seu respeit o nos permit em colocar as ref eridas "agregações sociais" de Rheingold
(1996) em perspect iva e pergunt ar em que grau est as podem ser vist as como expressões públicas ou privadas.
"Comunidade é t ermo amplament e ut ilizado para se ref erir a um t ipo ideal de relações sociais conhecido como Gemei nschaf t e cuj o embrião se acha nas relações individuais de parent esco". (TÖNNIES, 1947, p.37). Def inido sucint ament e, o t ermo engloba um conj unt o de relações volunt árias, sociais e recíprocas, que est ão unidas por um imut ável "sent iment o de ser um nós". Gemeinschaf t cont rast a t ipicament e com a Gesel l schaf t, ou associção impessoal. A Gesel l schaf t é geralment e ref erida em relação ao sent iment o ut ilit arist a que caract eriza a vida moderna, indust rial e urbana. A comunidade, ao invés, pressupõe a solidariedade ent re t odos aqueles que a int egram: é uma ent idade que é vist a como result ado do compromisso, envolviment o, responsabilidade e respeit o mút uos ent re a sociedade e seus membros.
Ent rement es, a comunidade é const ruída por um f luxo de inf ormação suf icient e e signif icat ivo de "nós". Est e "nós", ou a ident idade colet iva dele result ant e, est rut ura-se em volt a de "eus" que se vêem como semelhant es. Nest e sent ido, a comunidade, como qualquer f orma de comunicação, não é int eirament e compreendida sem a idéia de "eu". Essencialment e, isso implica que o que é necessário para a f ormação do indivíduo é uma organização de at it udes comum própria a um grupo. Um indivíduo é uma personalidade porque ele pert ence a uma comunidade. Ref let e-se nest a perspect iva a t radição agost iniana de int erioridade, segundo a qual "a ident idade mais prof unda de uma pessoa é aquela que une a pessoa a seus companheiros humanos: há algo comum em t odos os homens, e t er cont at o com est e element o comum é t er cont at o com o seu verdadeiro eu" (RORTY, 1991, p.196).
Obviament e, assim como a aut odef inição individual mot iva nossas relações com os out ros, ela t ambém est rut ura nossas comunidades: a maneira como se organiza o eu f undament a cada esf orço comunicat ivo. Ent ão, t orna-se muit o pert inent e a quest ão em saber como a comunicação por comput ador af et a a organização do indivíduo. As comunidades virt uais podem ser vist as de maneira mais adequada como f ormas que se est rut uram em volt a da ident idade pessoal ou da ident idade da comunidade? Gost aríamos de crer que a segunda alt ernat iva é a corret a: que na criação da solidariedade, que at ribuímos a Gemei nschaf t, nós nos
t ornamos mais sensíveis para com a sit uação alheia. A procura de comunidade t orna mais dif ícil marginalizar as pessoas dif erent es de nós.
Em cont rapart ida, a comunicação por comput ador pode libert ar os indivíduos do j ugo das coações t radicionais devido ao acesso à inf ormação; proj et os individuais e campos específ icos de int eresse podem ser obj et ivos de maneira mais f ácil at ravés de f ocalizações cada vez mais est reit as. Nest e cont ext o, busca-se o eu, mas não, como se pensa, na complet a ignorância a respeit o do out ro. Apenas o out ro é relegado à condição de subst rat o do eu, do si-mesmo. Ent ão, o suj eit o empenhado ent ra em conversação apenas com a f inalidade de f irmar a si mesmo de f orma verdadeira. A pessoa se relaciona consigo mesma, mesmo quando parece est ar se relacionando com os out ros.
Parece-nos que est e é um perigo part icular da comunicação via comput adores. O solipsismo, a preocupação ext remada e t olerant e de um indivíduo com as suas próprias inclinações, é pot encialment e engendrado nessa t ecnologia. Ocorre uma reif icação do espaço privado, quando a visão a respeit o do mundo própria de uma pessoa age como uma redoma prot et ora cont ra a violent a ação do admirável mundo novo da inf ormação. Trat a-se de uma noção na qual o out ro ainda exist e. A import ância de nossas relações com out ros para a af irmação de nossa aut o-ident idade j amais cessa, porque a aut oconsciência pressupõe o reconheciment o de si próprio na pessoa do out ro. Cont udo, quando o privado se t orna mais abrangent e e a imagem de mundo própria de uma pessoa se t orna mais f ort alecida, pode-se perder a visão do out ro.
Além disso, a int erf ace homem/ comput ador mesma obscurece o palco em que os indivíduos cont racenam: "O 'cont eúdo' de um meio de comunicação pode ser comparado ao pedaço de carne suculent o que o ladrão leva para dist rair, no caso, o cão de guarda da ment e" (McLUHAN, 1969, p.32). A conect ividade que as comunidades virt uais f ormadas via comput ador nos conf ere esconde do observador o real carát er da t ecnologia - seus usuários exist em como indivíduos que proj et am seus eus at ravés da rede de comput adores, mas isolados pela mediação do t ubo de raios cat ódicos e do t eclado. Disso não se deveria ext rair conclusões t ais como a de que as comunidades virt uais são abrigos de condut as ant i-sociais. Nem inf erir que as comunidades virt uais at raem pessoas alienadas, ou f oment am um est ado geral
de anonimat o. A últ ima sit uação se aplicaria às condições em que a maior part e das pessoas não mais crê que est á chegando a lugar algum em relação ao que desej a.
O f at o de os indivíduos est arem procurando comunicar sua visão de eu publicament e é prova em cont rário. O eu não é t udo o que exist e. A aut o-absorção egoíst a, conf orme a comunicação via comput ador pode encoraj ar, incorpora uma sit uação em que o out ro não é realment e out ro, mas, na verdade, apenas um moment o no meu próprio processo de vir-a-ser.
Nest a sit uação, o suj eit o mediado pelas redes, embora conscient e, carece da devida aut oconsciência. Assim, as comunicações via comput ador revelam um pot encial capaz de reif icar a ident idade pessoal e a da comunidade, e f azer a dist inção ent re as duas pode at é ser redundant e. Em um t rabalho pioneiro no campo da t eoria psicanalít ica da comunicação, observou-se que a comunicação sempre envolve uma dialét ica ent re t endências cent ríf ugas e cent rípet as inconscient es relat ivament e à aut o-expressão. As comunicações em f oco ampliam est a capacidade de f orma a, simult aneament e, expressar o "eu" e o "out ro", o indivíduo e a comunidade.
Enf ocando o assunt o de out ro pont o de vist a, pode-se dizer que est a dialét ica envolve uma oscilação cont ínua ent re abert ura relat iva e f echament o - uma f orma f lexível de aj ust ar a ent rada de inf ormação ou mudança de ent ropia. As f ormas posit ivas de abert ura incorporam os dogmas da solidariedade conf orme os ent endem o liberalismo: os indivíduos expressivos e bem inf ormados se benef iciam mut uament e do cruzament o de seus conheciment os. Assim como exist em más f ormas de abert ura - quando procede-se à comunicação de f orma indiscriminada e sem direção - t ambém exist em, porém, as boas f ormas de f echament o. Trat am-se das f ormas que envolvem a habilidade dos "cidadãos virt uais" em exercer um aut o- cont role, em lograrem ser discriminadores e selet ivos f rent e a t ant a inf ormação. Por out ro lado, t ambém ainda a possibilidade do mau f echament o, quando o indivíduo se t orna insulado, int olerant e e isolado.
Baudrillard t em uma visão única a respeit o dest a f orma de ment e f echada, quando af irma que, assim, "t odo indivíduo se vê promovido ao cont role de uma máquina hipot ét ica, isolado em uma posição de perf eit a soberania" (BAUDRILLARD, 1990, p.15). As comunicações por comput ador of erecem, de f at o, uma f orma dest e êxt ase de comunicação. A capacidade recém descobert a de se comunicar com um
grande número de pessoas com af inidade de pensament o, apesar das barreiras de t empo e espaço, encobre aí uma "encef alização elet rônica" de nós mesmo às cust as dos out ros (BAUDRILLARD, 1990, p.17).
Tent amos at é agora iluminar um pouco do conf lit o ent re os conceit os de comunidade e individualidade e dissuadir o leit or de f azer quaisquer suposições f áceis sobre qual dos dois necessariament e se coaduna com a apresent ação pública dos nossos eus privados. Sendo possível t irar alguma conclusão, provavelment e seria a de que é art if icial o "sent iment o de sermos um nós" result ant e das comunicações via comput ador e sob condições de não-presença. Em geral, é muit o f ácil a pessoa, nest e caso, ignorar as dif erenças e at ribuir sua própria imagem ao out ro, ao invés de def inir sua imagem com ref erência a esse out ro. Quando a imagem do eu comunit ário de uma pessoa é, t odavia, dist orcida, qualquer esperança de relação verdadeira no est ilo Gemei nschaf t est á de f at o perdida.
Part indo desse pont o, examinaremos em maior prof undidade as ramif icações sociais dessa f orma de comunicação, deixando em segundo plano seus ef eit os psicológicos individuais, que t iveram maior ênf ase at é agora. Deixaremos de lado a ênf ase na privat ização do público sob um viés psicológico, visando coment á- la como um f enômeno social. Como disse Baudrillard, "o corpo como um cenário, a paisagem como um cenário e o t empo como um cenário est ão lent ament e desaparecendo. Isso t ambém vale para o espaço público" (BAUDRILLARD 1990, p.19).
Acont ece o que com o espaço público, quando esse é conf ront ado com um espaço de conexão enorme e ef êmero? Para responder, recorremos agora à noção de esf era pública de Habermas:
Por esf era pública ent endemos sobret udo um t erreno de nossa vida social onde algo semelhant e a uma opinião pública pode ser f ormado. O acesso é garant ido a t odos os cidadãos e part es dessa esf era se criam em cada conversa onde indivíduos privados se reúnem para f ormar um corpo público. (HABERMAS, 1989, p. 136)
Habermas proj et a sua def inição de opinião pública no plano da discussão inf ormada e do argument o racional. Ao f azer isso, presume que os membros da esf era pública est ão apt os a pensar racionalment e por eles mesmos, a organizar suas próprias relações e a desenvolver opiniões crít icas independent es. Dest art e, porém, a esf era pública é empobrecida sempre que há remoção do discurso público. A elevação do privado é algo que ocorre às cust as do público e da
capacidade de se chegar a uma opinião pública. A conseqüência é uma redução das possibilidades de se criar relações no est ilo Gemei nschaf t, se as reconhecermos como originárias dos discursos que t rocam os membros aut o-conscient es de uma comunidade.
A garant ia de acesso para t odos é um import ant e aspect o da esf era pública. Pensando no público como uma f orma de vida compart ilhada comunit ariament e, chega-se á conclusão de que o ideal dest a divisão só pode ser obt ido at ravés da ação comunicat iva - a capacidade dos indivíduos se envolverem em discursos públicos subst ant ivos. Nesse caso, a esf era pública pode ser vist a como uma espécie de f ace ideal da comunidade, impossível de ser obt ida se indivíduos f orem excluídos do discurso público.
Tent ando averiguar a relevância das comunicações via comput ador, Gart h Graham (1995) af irmou que, nela, o acesso universal inclui a liberdade de se comunicar. A int erat ividade t em a ver aí com as conexões humanas, t em a ver com conversação, serve para comunidades e indivíduos, não para audiências massif icadas.
Tal visão de Graham é út il, porque sua noção de comunidade t ranscende a daquela f ormada pelo simples acesso aos meios de comunicar. Também inclui a af irmação da opinião pública, a eliminação dos privilégios, e a discussão e a ação das normas e cost umes exist ent es. Sua visão de comunidade elet rônica é, ao mesmo t empo, igualit ária e descent ralizada. Para ele, não se deve deixar o primeiro element o obscurecer o segundo, porque uma vez obt ido algo que se assemelhe ao acesso universal, est aremos enganados pensando que obt ivemos t ambém a f ormação de uma opinião pública, ou do Gei st da Gemei nschaf t.
O espírit o de comunidade é algo essencial à vit alidade das comunidades virt uais. Aquilo que mant ém int act a uma comunidade virt ual é o crit ério subj et ivo do "est ar-j unt o", um sent iment o de conect ividade que conf ere um sent iment o de pert enciment o aos indivíduos. As comunidades virt uais são, pois, algo que requer muit o mais que o mero at o de se conect ar. Parece que a chave para a f ormação de uma comunidade virt ual é a int eração humana que os comput adores e o espaço para eles designado pelo grupo f oment am.
A qualidade dest a int eração, cont udo, deve ser quest ionada, especialment e à luz dos argument os ant eriores sobre a invasão do privado sobre o público f acilit ado pela t ransf ormação do espaço social induzida pelas comunicações via comput adores.
O próximo capít ulo demonst ra que at ualment e vivemos num mundo globalment e int erligado, no qual os f enômenos biológicos, psicológicos, sociais e ambient ais são t odos int erdependent es. E, para descrever esse mundo apropriadament e, necessit amos de uma perspect iva ecológica que a visão de mundo cart esiana não nos of erece. Precisamos, pois, de um novo paradigma – uma nova visão da realidade, uma mudança f undament al em nossos pensament os, percepções e valores.