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2 REVISÃO DE LITERATURA

2.3 Economia Solidária

2.3.4 Comércio Justo e Solidário

2.3.4.1 Conceito de Comércio Justo

A discussão sobre o desenvolvimento e subdesenvolvimento económico dividiu o mundo em dois blocos: o Norte27 desenvolvido e o Sul subdesenvolvido.

Segundo Laville (2009: 26) “os países do Sul, dominados pelas oligarquias ligadas às elites do Norte, optaram, há muito tempo, por um modelo de desenvolvimento dependente em relação às exportações de matérias-primas e de produtos agrícolas”. Os países do Norte, por sua vez, têm sua exportação baseada em produtos industrializados.

27 Os países do Sul são os países pobres de África, América Central, América do Sul, e Ásia, que são

assim designados pela sua localização geográfica. Os países do Norte são aqueles países que são considerados desenvolvidos, e encontram-se maioritariamente no continente Norte-Americano, Europeu e Asiático.

Com a criação da Organização Mundial do Comércio – OMC em 1994 acentua-se a degradação dos termos de troca, uma vez que o preço dos produtos agrícolas e da matéria-prima tende a aumentar mais lentamente que o preço dos produtos industrializados. Some-se a isso a abertura comercial, subsídios e barreiras aduaneiras impostas pelos países com maior poder de barganha, para que se configure e solidifique uma relação desigual em termos de comércio internacional.

Laville (2009) cita dados do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento – PNUD, onde 82% do comércio internacional é controlado por 20% da população mundial e somente 1% do comércio internacional é controlado pelos 20% da população mundial mais pobre.

Como reação a essa desigualdade, surgiu o Comércio Justo ou Fair Trade.

O conceito de Comércio Justo, segundo a International Federation of

Alternative Trade – IFAT (Federação Internacional de Comércio Justo) é:

Comércio Justo é uma parceria comercial, baseada em diálogo, transparência e respeito, que busca maior eqüidade no comércio internacional. Ele contribui para o desenvolvimento sustentável por meio de melhores condições de troca e a garantia dos direitos para produtores e trabalhadores marginalizados – principalmente do Sul.

Assim, o objetivo principal do comércio justo é estabelecer um contato direto entre o produtor e o comprador e tirá-lo da dependência de atravessadores e das instabilidades do mercado global de commodities.

Para isso, o comércio justo tem por princípios28:

- Gerar oportunidades para produtores economicamente em desvantagem: é a estratégia para a diminuição da pobreza e o desenvolvimento sustentável. Seu propósito é de gerar oportunidades para produtores que foram explorados economicamente ou marginalizados pelo sistema convencional de comércio;

- Transparência e coresponsabilidade (accountability): envolve gestão transparente e relações comerciais que tratam de forma justa e respeitosa os parceiros comerciais; - Treinamento e apoio (capacity building): é um meio de desenvolver a independência do produtor. Relacionamentos de Comércio Justo proporcionam continuidade, durante a qual os produtores e suas organizações de comercialização podem melhorar suas habilidades de gestão e seu acesso a novos mercados;

- Pagamento de um preço justo: preço justo no contexto regional ou local é aquele que foi acordado por meio do diálogo e da participação. Ele cobre não somente os custos de produção, mas permite uma produção socialmente justa e ecologicamente segura. Ele proporciona pagamento justo para os produtores e leva em consideração o princípio do pagamento igual para trabalho igual para homens e mulheres. Os comerciantes de Comércio Justo garantem pagamento imediato para seus parceiros e, sempre que possível, ajudam os produtores com o acesso a financiamento antes da produção ou mesmo antes da colheita:

- Igualdade de gêneros: significa que o trabalho de mulheres é valorizado e recompensado corretamente. Mulheres são sempre remuneradas por suas contribuições no processo produtivo e detêm poderes em suas organizações;

- Condições de trabalho: significa um ambiente de trabalho seguro e saudável para os produtores. A participação de crianças não deve afetar negativamente seu bem-estar, segurança, obrigações educacionais e necessidade de brincar, e deve estar em conformidade com a convenção das Nações Unidas sobre os direitos da criança e com as leis e normas vigentes no contexto local;

- O meio ambiente: estimula ativamente melhores práticas ambientais e a aplicação de métodos responsáveis de produção;

- Produtos de Comércio Justo: são aqueles produtos certificados sob o sistema de certificação da FLO (Fair Trade Labelling Organisations International) e/ou produzidas por organizações de Comércio Justo.

Segue tabela com resumo histórico do desenvolvimento do Comércio Justo no mundo, baseado em investigação do SEBRAE.

Tabela 2.3: Resumo Histórico do Desenvolvimento do Comércio Justo

Período Iniciativa 1940 a 1950 Iniciativas pessoais de missionários comprando artesanato nos países do Sul e vendendo em países europeus

1960 Início das campanhas de sensibilização sobre as desigualdades promovidas pelo comércio internacional

1964/68

United Nations Conference on Trade and Developmen – UNCTAD (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) -

“Trade not Aid” ou seja “Comércio, não Ajuda” 1969

Primeira loja de Comércio Justo – Lojas do Mundo29 (Worldshops) na

Holanda, como evolução dos primeiros bazares e feirinhas organizadas por Igrejas, que evoluíram para pontos de venda e por fim, lojas 1970

Início das iniciativas de compra de produtos agrícolas diretamente dos produtores (Holanda: Fair Trade Organisatie importa o primeiro café comercializado justamente de pequenos agricultores da Guatemala) 1978 Surge o Gebana (de “gerechte banane” ou “banana justa”) na Suíça,

que abre espaço nos sumpermecados para esse produto

1988

Lançamento da marca Max Havelaar30 (trade mark) - um missionário,

que trabalhava com pequenos produtores de café no México e um funcionário de uma ONG com base religiosa conceberam a ideia de criar um selo para identificar os produtos com origem e princípios de Comércio Justo e a ideia foi desenvolvida por uma entidade holandesa. O Comércio Justo vai além das Lojas do Mundo e passa a ser praticado

no retalho

1989 Criada na Holanda a IFAT – International Fair Trade Association, rede global de organizações de Comércio Justo

1994

Criada a NEWS! - Network of European World Shops, rede de cooperação e troca de informações entre os lojistas das worldshops. Criada a Fair Trade Federation, reunindo importadores, grossistas e

retalhistas dos EUA e Canadá e alguns de seus fornecedores 1997

Criada a FLO – Fairtrade Labelling Organisations International, instituindo um selo de certificação único, a partir das 14 entidades de

certificação existentes à época

2000 Sistemas nacionais de comércio justo começam a ser desenvolvidos nos países do Sul, até então, somente produtores

2003 Marca global de Comércio Justo (Fairtrade) foi adotada por todas as Iniciativas Nacionais (com exceção da Suíça, EUA e Canadá) 2004 Comércio Justo certifica cresce 37% no ano

Fonte: elaboração própria, baseada na Investigação Mundial de Comércio Justo do SEBRAE

29 Inicialmente algumas se chamavam Third World Shops ou Lojas do Terceiro Mundo, outras adotaram o conceito e nome One World e aos poucos a ideia integracionista de um mundo único, comum a todos, contribuiu para a substituição.

30

Max Havelaar é o personagem de um livro que, em 1859, reclamava às autoridades do governo colonial das então Índias Holandesas Orientais, hoje Indonésia, das condições desumanas nas quais trabalhavam os trabalhadores locais. Naquela época ele não obteve nenhum sucesso.