1. Democracia nas relações de trabalho
1.3. Da propriedade da empresa à ideia participativa
1.3.3. Legitimidade do poder no âmbito empresarial
1.3.3.2. Conceito de poder
A discussão relativa à legitimação do poder em uma relação social evidentemente reflete-se sobre a concepção quanto ao exercício do poder no âmbito produtivo, em que uma comunidade humana deve ser organizada a fim de que haja um resultado positivo, beneficiando todas as pessoas envolvidas, de acordo com a peculiaridade da participação de cada um no mencionado processo.
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Para Kant, o fundamento da legitimidade é o consenso. Neste sentido, cf. WEFFORT, Francisco C. (org.). Os clássicos da política. Vol. 2. 11. ed. São Paulo: Ática, 2006, pp. 58-59.
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Com raciocínio similar, sustentando que o aspecto procedimental, embora importante, não é suficiente como fator de legitimidade, cf. NADAL, Fábio. A Constituição como mito: o mito como discurso legitimador da constituição. São Paulo: Método, 2006, p. 53; CADEMARTORI, Sergio. Estado de direito e legitimidade – uma abordagem garantista. 2. ed. Campinas: Millenium Editora, 2006, p. 207.
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Ana Lucia Sabadell144 sustenta que o poder “consiste na possibilidade de uma pessoa ou instituição influenciar o comportamento de outras pessoas”. É possível notar, em tais palavras, dois elementos importantes: primeiro, a existência de desigualdade na relação em que o poder é exercido, dada a influência no comportamento de outrem; ademais, atente-se à obediência que decorre do exercício do poder. Temas correlatos, as ideias de desigualdade e obediência estão vinculadas à relação em que exista uma manifestação de poder.
Há uma visão tradicional do tema em estudo que o vincula à força145. Destarte, o exercício do poder seria uma espécie de manifestação simbólica de violência146, fazendo com que aquele que se submete a outrem tome tal atitude com base em provável prejuízo que sofreria caso não obedecesse às determinações do detentor do poder. A violência, segundo tal visão, ainda que implícita, fundamenta o poder.
Eros Roberto Grau147 sustenta que “poder é expressão de uma capacitação para efetivamente realizar ou impor a realização de determinado fim”. É definição interessante para esse estudo, embora não suficiente. É relevante, pois demonstra a instrumentalidade do poder, sendo caracterizado como meio para realização de um fim, reflexão que será de suma importância no momento em que se fizer alusão ao poder diretivo do empregador. Entretanto, a insuficiência da definição para esse trabalho decorre do fato de não ser feita qualquer referência à origem do poder, questão de fundamental importância para a ulterior análise de tal conceito no campo produtivo.
Max Weber148 sustenta serem três os fundamentos da dominação em uma relação social: o poder tradicional, baseado em uma autoridade estabelecida historicamente, respeitada há tempos e que, portanto, deveria continuar a ser obedecida; o poder carismático, fundamentado nas características pessoais de alguém que ocupe, em virtude de tais peculiaridades, a posição de líder; e o poder legal, baseado na crença quanto à legitimidade de um conjunto de regras.
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Manual de sociologia jurídica: introdução a uma leitura externa do direito. 4. Ed. rev., atual. e ampl. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2008, p. 156. A correlação entre poder e influência também é apontada em MAGANO, Octavio Bueno. Do poder diretivo na empresa. São Paulo: Saraiva, 1982, pp. 4-5.
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Sobre a força como elemento necessário do exercício do poder, cf. CADEMARTORI, Sergio. Estado de direito e legitimidade – uma abordagem garantista. 2. ed. Campinas: Millenium Editora, 2006, p. 115. 146
Quanto à ideia de exercício de poder como violência simbólica, cf. FERRAZ JÚNIOR, Tércio Sampaio. Estudos de filosofia do direito: reflexões sobre o poder, a liberdade, a justiça e o direito. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2009, pp. 61 e 70.
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O direito posto e o direito pressuposto. 7. ed. rev. e ampl. São Paulo: Malheiros, 2008, p. 236. 148
Ciência e política: duas vocações. Trad. de Leonidas Hegenberg e Octany Silveira da Mota. 16. ed. São Paulo: Cultrix, 2010, pp. 57-58.
A visão weberiana não será utilizada para a análise do poder existente em uma relação trabalhista, dado que os três fundamentos de legitimidade apresentados não são racionais149. Em nenhuma das possibilidades apresentadas por Weber, o poder surge com característica volitiva, mas como mera consequência da crença dos indivíduos em algo, seja na correção da postura historicamente adotada, nas qualidades especiais de um indivíduo ou na justiça de determinado ordenamento.
Existe, porém, outra orientação relativa à noção de poder, que será adotada no curso desse estudo. Hannah Arendt afasta a ligação entre poder e violência, sustentando que o conceito em análise é derivado do relacionamento humano150. Assim, onde há violência, não há poder151. Este tem sua origem na relação mantida entre as pessoas, justificando a influência que pode existir sobre a vontade de alguém a partir da orientação de outrem. O poder nunca pertence a um indivíduo, mas é emanado de uma coletividade. A convivência humana pacífica é fonte geradora de poder152.
A concepção teórica arendtiana pode ser observada na conduta de Mahatma Gandhi, cujas conquistas foram baseadas em premissas diversas de qualquer fundamento vinculado à violência153. A influência por ele exercida na comunidade indiana que lutava contra o colonialismo britânico demonstra que a violência e o consenso podem produzir resultados práticos semelhantes, no sentido de influenciar a conduta alheia, mas apenas a conjunção de vontades tem a aptidão de legitimar o poder. Destarte, a violência está ligada à coação, não ao poder.
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Sustentando também o caráter irracionalista do fundamento weberiano, cf. NADAL, Fábio. A Constituição como mito: o mito como discurso legitimador da constituição. São Paulo: Método, 2006, pp. 58-60.
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Interessante análise sobre o pensamento de Hannah Arendt, quanto ao afastamento das noções de poder e violência, pode ser consultada em SANTOS, Luiz Alberto Matos dos. A liberdade sindical como direito fundamental. São Paulo: LTr, 2009, pp. 47-51; BITTAR, Eduardo C. B.; ALMEIDA, Guilherme Assis de. Curso de filosofia do direito. 5. Ed. São Paulo: Atlas, 2007, p. 395.
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Neste sentido atente-se ao trecho extraído de BITTAR, Eduardo C. B.; ALMEIDA, Guilherme Assis de, op. cit., p. 397: “O poder, propriamente, deixa de existir, quando entra em ação um conjunto de aparatos cuja força representa uma aniquilação do poder de estar com, de discussão, de debate, de discurso, elementos que caracterizam o estar entre homens (inter homines essere). Ceder espaço ao advento da força é negar o princípio da ação e da busca de consensos por meio da ingerência de instrumentos de submissão e de abuso da condição humana”.
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Veja, como exemplo do raciocínio de Hannah Arendt, o seguinte trecho, extraído da obra de sua autoria A condição humana. Trad. Roberto Raposo. 11. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2013, p. 251: “O único fator material indispensável para a geração do poder é a convivência entre os homens. Estes só retêm poder quando vivem tão próximos uns aos outros que as potencialidades da ação estão sempre presentes; (...) Todo aquele que, por algum motivo, se isola e não participa dessa convivência é privado do poder e se torna impotente, por maior que seja seu vigor e por mais válidas que sejam suas razões”.
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Análise sobre Gandhi e a não-violência pode ser consultada em BITTAR, Eduardo C. B.; ALMEIDA, Guilherme Assis de, op. cit., p. 398-402.
A conduta de Gandhi baseava-se em três termos em sânscrito: ahimsa (não violência), satyagraha (conexão à verdade) e swaraj (liberdade). Nota-se, entre tais termos, uma ligação de princípio, meio e fim: baseando-se na não-violência, atinge-se a verdade, tendo por finalidade a libertação do indivíduo.
De certa maneira, propõe-se nesse trabalho, com base na concepção relacional de poder, a defesa de relações trabalhistas que, analogicamente, respeitem a relação de princípio, meio e fim das ideias teorizadas por Hannah Arendt e colocadas em prática por Gandhi, dado que estas têm a mesma matriz pacífica no que toca ao conceito de poder: tendo a dignidade da pessoa humana como princípio, deve-se buscar o diálogo entre os agentes produtivos como meio para que seja atingida a finalidade, prevista constitucionalmente, de justiça social.
Note-se que a visão acima exposta é o que justifica a não aceitação de determinados regimes políticos, ainda que estes manifestem sua força com base em regimes legais. Há, nesse caso, uma estrutura que busca dar sustentação a uma manifestação de poder que, entretanto, é vazio em termos de justificação quanto ao conteúdo. A legitimidade de um poder não repousa em aspectos legais, mas em elementos substanciais. Entendimento contrário levaria à justificação de ditaduras que buscam legitimar o poder com base na criação de normas, como uma Constituição.
Além do consenso, o conteúdo do poder deve abranger o respeito aos direitos fundamentais dos indivíduos que compõem a coletividade, com especial relevo à dignidade da pessoa humana, princípio estudado em outro ponto deste trabalho. Caso o consenso fosse suficiente, um determinado regime de poder poderia estabelecer uma situação de ditadura da maioria contra a minoria. É evidente que, na alusão ao consenso, não se refere à unanimidade da visão de um conjunto de pessoas com relação a determinado assunto, mas à visão majoritária. A exigência de unanimidade na discussão de um assunto poderia levar, em último caso, à paralisação de qualquer processo social, inclusive em âmbito produtivo.
A definição de poder apresentada por Cesar Luiz Pasold154 parece coadunar-se com a visão adotada neste estudo. Segundo o mencionado autor, o “poder, entendido como a produção dos resultados pretendidos, é legítimo quando os meios utilizados e os efeitos obtidos pelo detentor do poder correspondem aos valores dos que lhe conferiram o poder”. Note-se que o poder, nas palavras ora reproduzidas, tem sua legitimidade extraída da sua
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Função social do estado contemporâneo. Florianópolis: OAB/SC Editora; Editora Diploma Legal, 2003, p. 71.
origem (pessoas que serão atingidas pela manifestação de poder) e de seu exercício (voltado ao bem comum da comunidade titular do poder exercido). O efeito é evidente sobre a reflexão quanto ao direito de participação dos trabalhadores na gestão empresarial, ainda que de forma branda.
A análise da fundamentação do poder no seio de qualquer relação social é de fulcral importância para o âmbito das relações de trabalho, dado que nestas há manifestação constante de poder do responsável pelo exercício da atividade empresarial sobre os trabalhadores que o auxiliam, sob ordens, por meio da prestação de serviços. Neste caso, especificamente, deve-se buscar o fundamento do poder do empregador na relação com os empregados, visão que tem sofrido alterações no decurso do tempo.