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1. Democracia nas relações de trabalho

1.3. Da propriedade da empresa à ideia participativa

1.3.3. Legitimidade do poder no âmbito empresarial

1.3.3.3. Exercício do poder diretivo pelo empregador

O exercício do poder detido pelo empregador no âmbito produtivo é tema de essencial importância, pois está vinculado à consecução do objetivo empresarial de obter lucro, respeitando-se sempre a dignidade humana daqueles que contribuem para a exploração da empresa, ou seja, os trabalhadores. O exercício do poder de direção, portanto, não está isento de limitações155.

Poder diretivo consiste na faculdade atribuída ao empregador de determinar a forma de prestação de serviços pelo empregado, de modo a obter o melhor resultado possível em relação à atividade empresarial, respeitados os direitos do trabalhador. Aspecto que deve ser analisado quanto a tal poder refere-se à respectiva fonte de legitimidade156.

Há quem sustente que o poder de direção do empregador fundamenta-se na propriedade dos meios de produção157, o que justificaria a situação de subordinação do empregado no âmbito produtivo. Note-se que tal visão ressalta a ideia de propriedade e consequente direito de manejar os fatores de produção da maneira que melhor aprouver ao

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Em sentido similar, quanto ao caráter funcional do poder do empregador, cf. ABRANTES, José João. Contrato de trabalho e direitos fundamentais. Coimbra: Coimbra Editora, 2005, p. 186. Interessante estudo, sobre o poder disciplinar compartilhado, pode ser conferido em SANTOS, Enoque Ribeiro dos. Limites ao poder disciplinar do empregador: a tese do poder disciplinar compartilhado, pp. 319-321, in MARTINS, Sérgio Pinto; MESSA, Ana Flávia (coord.). Empresa e trabalho: estudos em homenagem a Amador Paes de Almeida. São Paulo: Saraiva, 2010.

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Interessante estudo quanto à mudança da relação de poder no âmbito produtivo foi feito por Antonio OJEDA AVILÉS, na obra La deconstrucción del derecho del trabajo. Madri: La ley, 2010, pp. 31-113. 157

A confusão entre propriedade e poder diretivo empresarial é analisada em COMPARATO, Fábio Konder. Direito empresarial: estudos e pareceres. São Paulo: Saraiva, 1995, pp. 31-32.

empregador, de modo hierárquico, cabendo ao trabalhador apenas cumprir as ordens relativas às tarefas a serem exercidas.

Não parece que o posicionamento patrimonialista158, que vincula o poder de direção à propriedade dos meios de produção, possa prosperar159. A propriedade dos bens de produção faz com que o empregador seja o principal beneficiado do resultado dos eventuais frutos produzidos pela atividade empresarial. O fundamento para tanto está nos riscos assumidos pelo detentor de capital. Atualmente, tal aspecto é evidenciado pela crescente falta de identificação entre aquele que explora a atividade empresarial e o proprietário, sobretudo nas grandes empresas160.

Há, entretanto, uma noção de poder que pode ser aplicada também no contexto produtivo, baseada no relacionamento humano. Conforme dito alhures, segundo a visão de Hannah Arendt, o poder é originado por certo consenso obtido no bojo das relações humanas, em que alguém, por determinado motivo, passa a influenciar as decisões alheias161. Importante lembrar que tal poder em nada se vincula à violência. No caso de uma relação trabalhista, o consenso é instrumentalizado pelo contrato de trabalho, que justifica a subordinação do empregado em relação ao empregador com a finalidade de obter o melhor resultado possível na exploração da atividade empresarial162.

É evidente, portanto, que a utilização da concepção de poder arendtiana no âmbito das relações de trabalho conduz à conclusão de que o poder de direção do empregador não é originado da propriedade dos meios de produção, mas da ascendência

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Sobre a ideia de patrimonialismo, cf. FACHIN, Luiz Edson. Constituição e relações privadas: questões de efetividade no tríplice vértice entre o texto e o contexto, pp. 241-242, in OLIVEIRA NETO, Francisco José Rodrigues de et alii (org.). Constituição e estado social: os obstáculos à concretização da constituição. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais; Coimbra: Editora Coimbra, 2008.

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No mesmo sentido, refutando a ligação entre a propriedade e o poder de direção, cf. RUL-LÁN BUADES, Gaspar. Poder sindical y democracia. Cordoba: ETEA, 1989, p. 158.

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Sobre a tendência de não identificação entre propriedade e poder, cf. RUL-LÁN BUADES, Gaspar. Poder sindical y democracia. Cordoba: ETEA, 1989, pp. 152-153; COMPARATO, Fábio Konder. Direito empresarial: estudos e pareceres. São Paulo: Saraiva, 1995, p. 36; ROBORTELLA, Luiz Carlos Amorim; PERES, Antonio Galvão. O direito do trabalho na empresa e na sociedade contemporâneas. São Paulo: LTr, 2010, p. 182; . PÉLISSIER, Jean; SUPIOT, Alain; JEAMMAUD, Antoine. Droit du travail. 23. ed. Paris: Dalloz, 2006, p. 46; XAVIER, Bernardo da Gama Lobo. Manual de direito do trabalho. Lisboa: Verbo, 2011, p. 377; DELGADO, Mauricio Godinho. Curso de direito do trabalho. 11. ed. São Paulo: LTr, 2012, p. 668; OJEDA AVILÉS, Antonio. La deconstrucción del derecho del trabajo. Madri: La ley, 2010, pp. 54-55; MAGANO, Octavio Bueno. Do poder diretivo na empresa. São Paulo: Saraiva, 1982, p. 39.

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A relação entre legitimidade do poder e participação no processo deliberativo é apontada também por SABADELL, Ana Lucia. Manual de sociologia jurídica: introdução a uma leitura externa do direito. 4. ed. rev., atual. e ampl. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2008, pp. 127-128.

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O contrato de trabalho como fundamento do poder do empregador também é visão sustentada por DELGADO, op. cit., p. 670; PAES, Arnaldo Boson. Os limites do poder de direção do empregador em face dos direitos fundamentais dos trabalhadores, p. 10, in ALMEIDA, Renato Rua de (coord.). Direitos fundamentais aplicados ao direito do trabalho. Volume II. São Paulo: LTr, 2012.

que ele extrai da comunidade humana a que pertencem na empresa tanto os trabalhadores quanto o empregador. Enquanto a propriedade é fator que legitima o recebimento de lucros por parte do empregador, o poder de dirigir o trabalho dos empregados busca seu fundamento não na mencionada propriedade, mas no reconhecimento, por parte da comunidade humana que explora a atividade empresarial, de que o empregador é a entidade adequada a comandar o empreendimento.

A reificação do poder163 é perceptível à medida que a comunidade deixa de reconhecer as relações humanas como fonte de poder. Este é, conforme a visão reificante, originado de algo estranho ao vínculo social. Exemplo, no que toca ao presente estudo, é a corrente que fundamenta o poder do empregador somente na propriedade dos bens de produção. Tal posicionamento, que desumaniza o poder, ainda que tenha aceitação por uma parcela mais tradicionalista da sociedade, não será adotado no curso deste trabalho.

Atente-se ao fato de que o poder diretivo do empregador apresenta, sobretudo, característica funcional. O empregador deve ter certa ascendência sobre os empregados para que estes respeitem as ordens daquele, em busca de organização que tenha como finalidade o fornecimento de meios financeiros a todos os indivíduos que, de algum modo, contribuam com a existência daquela atividade empresarial. Assim, com organização, a atividade perdurará, sendo fonte de salário ao empregado e lucro ao empregador. O proprietário dos bens de produção torna-se, assim, com a utilização do trabalho alheio, em elemento de uma coletividade que tem direito a participar do resultado da exploração da atividade econômica por tal conjunto de pessoas, empregados e empregador164. Tal visão coaduna-se com o posicionamento que vislumbra na relação de trabalho um vínculo não meramente econômico entre as partes, mas também social165.

Eros Roberto Grau166 determina que a autoridade consiste no vínculo entre o efetivo exercício do detentor do poder e o consenso da coletividade, conferindo legitimidade à situação. Transferindo tal raciocínio para o campo produtivo, se a autoridade, fundamento da legitimidade do exercício de poder, depende da correlação entre os atos de quem detém o poder e a expectativa da comunidade que lhe concedeu tal

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Sobre a reificação do poder, cf. COELHO, Fábio Ulhoa. Direito e poder. São Paulo: Saraiva, 1992, pp. 31- 32.

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Com o mesmo entendimento quanto ao papel do empregador, cf. COMPARATO, Fábio Konder. Direito empresarial: estudos e pareceres. São Paulo: Saraiva, 1995, pp. 31-32.

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Sobre o a relação de trabalho com face econômica e social, cf. PÉLISSIER, Jean; SUPIOT, Alain; JEAMMAUD, Antoine. Droit du travail. 23. ed. Paris: Dalloz, 2006, p. 35.

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potencialidade, é evidente que o poder diretivo somente pode ser exercido de forma legítima caso tenha por finalidade a busca do bem comum, e não apenas o benefício do detentor de tal poder.

Outra noção interessante é a responsividade, termo notoriamente utilizado por Robert Dahl167 para designar a relação entre os detentores do poder e a coletividade em que se origina tal poder. Segundo o autor, a democracia (ou poliarquia, termo por ele utilizado) é caracterizada pelo respeito contínuo por parte do detentor do poder em relação aos interesses da comunidade em que está inserido. A vinculação entre o exercício do poder e os interesses da coletividade é a responsividade. É clara a analogia entre a situação mencionada e o exercício do poder de direção pelo empregador, fato que deve ocorrer tendo em vista o benefício da comunidade responsável pela exploração da atividade empresarial.

O poder diretivo do empregador, assim, não apresenta a característica de direito subjetivo ou direito potestativo, mas de direito-função, eis que traz em seu bojo, além do direito de exercer influência sobre o comportamento de outros indivíduos, o dever de agir no interesse alheio168. Nota-se, entretanto, certo viés paternalista em tal visão, à medida que o trabalhador não surge como sujeito ativo, apto a exercer a cidadania laboral e participar do poder empresarial.

De acordo com nossa visão, exposta alhures, o poder ter origem relacional, segundo a posição arendtiana. No âmbito produtivo, tal poder exsurge da relação existente na comunidade humana que exerce a atividade empresarial, baseando-se o poder do empregador na concessão de parte da autonomia do trabalhador, no que atine à prestação de serviços. Evidentemente, em um ambiente cujo poder é emanado da comunidade para que seja exercido por alguém, com uma finalidade específica (a organização da atividade e, consequentemente, a obtenção do melhor resultado possível para toda a coletividade produtiva), cabe reconhecer a necessidade de democratização do poder no âmbito empresarial.

Percebe-se, portanto, que existe duplo fundamento para o poder exercido pelo empregador no âmbito produtivo, cada qual relacionado a um aspecto da relação de

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Poliarquia: participação e oposição. Tradução de Celso Mauro Paciornik. São Paulo: EDUSP, 1997, p. 25.

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A noção de direito-função está em DELGADO, Mauricio Godinho. Curso de direito do trabalho. 11. ed. São Paulo: LTr, 2012, p. 679; MAGANO, Octavio Bueno. Do poder diretivo na empresa. São Paulo: Saraiva, 1982, pp. 27-29 e 42.

trabalho: a propriedade é o fundamento para que o empregador aufira os lucros obtidos pela atividade empresarial; o consenso fornecido, por meio do contrato de trabalho, pela comunidade humana que explora a empresa é o fundamento para que o empregador dirija a prestação de serviço dos trabalhadores.

Assim, analisada a legitimidade para o exercício do poder pelo empregador no âmbito produtivo, seja decorrente da propriedade ou do contrato, resta analisar o processo de tomada de decisões que irão, em última análise, influenciar todos aqueles que compõem a comunidade humana produtiva. Não se trata, neste caso, do fator que fundamenta o recebimento dos lucros ou do elemento que justifica a subordinação do empregado ao empregador no exercício da função laboral. Alude-se, com efeito, às decisões relacionadas à gestão da atividade empresarial, com impacto sobre os integrantes da coletividade que explora a empresa.