TERCEIRO ESTADO?
10. CONCLUSÃO: DE VOLTA AO CONFLITO DE INTERESSES
Estamos chegando ao fim de nosso trabalho e temos de voltar estritamente ao nosso foco: o conflito de interesses. Talvez não tenhamos conseguido nosso intuito mais objetivo, que era verificar se havia, nos Artigos Federalistas, um ponto de inflexão a partir exatamente desse foco. Acreditamos que, diante do analisado, a hipótese saiu fortalecida, mas ela não restou inequivocamente demonstrada, até porque, para esse propósito, ter analisado somente as obras aqui interpretadas não foi o suficiente.
Vejamos então, como a nossa hipótese saiu reforçada, retomando os principais pontos de cada obra aqui analisada.
Nos Discursos, de Maquiavel, o ponto de partida no fio do nosso enredo republicano, o conflito, era um elemento constitutivo da estrutura institucional republicana e também da liberdade da república e dos cidadãos. O conflito devia fazer parte da rotina da vida da república para que, a partir da sua solução institucional pública pudesse ser constituída a liberdade. Note-se que, com essa estrutura, não havia obstáculo para que fossem manifestados os interesses, desde que eles fosse m não facciosos, coletivos e tivessem uma vocação pública. Conflito e interesse, portanto, faziam parte da vida e da rotina política da república. Com isto, o cidadão de Maquiavel não era tão exigido, bastava que, por meio de seu grupo (para não dizer, anacronicamente, classe), manifestasse os interesses publicamente e se submetesse às leis decorrentes da solução pública adotada. Deve, sim, prezar o bem da república mais que ao próprio bem (e por isso se submete às leis), mas não precisa deixar seus interesses de lado, ao contrário, deve manifestá-los para que, em conflito com os interesses opostos, possa gerar boas leis e a liberdade da república102.
Na Oceana de Harrington, o principal fundamento do interesse á a propriedade, e a república é concebida a partir de uma regra de equilíbrio que garante a distribuição de propriedade de uma tal forma que conflitos não surjam na vida da república. Os interesses, portanto, encontram-se, na estrutura da república, já delimitados. A vida
102 Devemos lembrar que Maquiavel não exige dos cidadãos a virtù que é exigida do príncipe. Os cidadãos
precisam ter amor à república, mas não precisam, em sua ação, ter toda a perspicácia, senso de oportunidade e, muitas vezes, frieza, do príncipe. Os cidadãos podem manifestar seus humores, paixões e interesses. São estes que, nos conflitos públicos, gerarão a república livre.
política livre da república depende da limitação prévia desses interesses para que não decaia em razão dos conflitos decorrentes. A vida política (se é que se pode qualificar assim a vida no interior dessa república) na Oceana prescinde, portanto, dos interesses e, conseqüentemente, do conflito entre eles. Essa é a conseqüência da regra de equilíbrio proposta por Harrington ao nosso foco.
A república constituída pelo Contrato Social é bastante exigente em relação aos seus cidadãos. Requer deles que deixem de lado seus interesses, ou, ao menos, aceitem que seus interesses particulares não sejam levados em consideração para a construção institucional da república e que aceitem tal construção como a manifestação da vontade geral, bem como todas as decisões que deverão ocorrer durante a vida da república. É claro que, no esquema de Rousseau, a própria qualidade da estrutura e das decisões decorrentes da vontade geral é o fundamento para sua aceitação. No entanto, ainda que se admita a viabilidade dessa estrutura, ao menos para as decisões de maior relevância, a exigência de Rousseau é extrema. Com tais cidadãos, não há que falar em interesses na república, muito menos em conflitos. Não há fragmentos: o que deve emergir da república assim o faz como manifestação de um todo unitário. Assim sendo, o conflito de interesses é afastado, para que a unidade da república e a soberania inequívoca do povo possa ser a única fonte da lei na república.
Já a proposta, também unitária, contida em Que é o terceiro estado?, de Sieyes, é um pouco diferente. Ali, um interesse parcial, o do terceiro estado, prevalece sobre os demais e é tratado como se fosse o interesse de toda a comunidade, dada a importância do terceiro estado naquela república. A unidade, portanto, não decorre da existência de um interesse e de uma vontade geral que informam as decisões públicas a serem tomadas. Ela ocorre porque somente um interesse, que é o da maioria, será considerado. Um interesse parcial, único, portanto, é o que deve informar a estrutura e as decisões da república de Sieyes. Há um interesse e, portanto, não há conflito. Mas não há que se falar que os interesses ingressaram no interior da vida da república. Eles continuam fora dela. O estabelecimento de qual será o interesse ouvido é feito antes de qualquer deliberação. Repetin do: é uma solução unitária. Interesses e conflito encontram-se de fora da vida da república.
A república plural já esboçada por Montesquieu em O Espírito das
Leis ainda não traz, inequivocamente, os interesses para o interior da vida da república, mas já há uma abertura para que eles nela ingressem, na república comercial de grandes dimensões. A estrutura da separação de poderes e a indicação da viabilidade da república federada constituída numa ampla extensão territorial são os passos preciosos que Montesquieu deu para a mudança que iria se operar com os americanos. Mas Montesquieu ainda fala em virtude, e, na sua república, de pequenas ou grandes dimensões, não há espaço para o conflito. Sua república, portanto, não considera o conflito, nem lida com o interesse, embora admita a possibilidade dele.
Com Os Artigos Federalistas o tratamento do interesse muda bastante. Os interesses passam a ser não somente tolerados, mas garantidos e estimulados pela república. República federada de grandes dimensões e repúb lica de interesses são duas faces da mesma moeda. Os interesses, na maior diversidade e quantidade possíveis, são constitutivos da república. E é importante que o conflito entre eles não seja considerado para que eles não sejam reduzidos a quantidades meno res, para formação de pares opostos ou contraditórios. A solução política para isso é tratá-los como igualmente diversos, como interesses plurais. Assim, todos os interesses poderão ser admitidos e a república comercial em construção, expandir. Os interesses entraram para a vida da república e são seu combustível, sem que seja considerado e enfrentado o conflito entre eles. Institucionalmente, isso foi solucionado com a supremacia da constituição sobre a lei e, dessa forma, um enfraquecimento do legislativo e um fortalecimento do judiciário. Tudo isto está relacionado à valorização do indivíduo, em detrimento dos Estados ou quaisquer grupos ou sujeitos coletivos, e, com o fortalecimento do indivíduo, e a permissão sem quaisquer freios à manifestação dos inte resses, uma valorização da opinião na igual medida da valorização do indivíduo. Essa valorização da opinião se reforça com a invocação constante da opinião pública como instância legitimadora dos eventos políticos a se sucederem na vida da república. E, somando a opinião pública com a ausência de conflito, o que parece ter se estruturado ali foi um consenso sobre uma diversidade de interesses tendente ao infinito. Por causa dessa diversidade, Edmund Morgan chamou o consenso criado pelos Federalistas de "consenso que convida ao conflito" (MORGAN, 1973, p. 309). Temos de discordar, se considerarmos o conflito naquele conceito enunciado no início
desta tese. O que os Federalistas fundaram foi uma república de interesses plurais tendentes ao infinito, de forma adequada à sua expansão comercial.
Esta ênfase no indivíduo, no interesse e no caráter comercial da república serve de fundamento para invocarmos Gordon Wood e Pocock quando reconhecem no projeto contido nos Artigos uma mudança do republicanismo para o liberalismo (POCOCK, 2003, p. 523; WOOD, 1998, pp. 606-615). De fato, se tomarmos a idéia de uma comunidade política plural ela é hoje muito mais associada a teorias liberais a
la Robert Dahl e Antony Downs do que ao republicanismo propriamente dito. Aliás, A idéia de democracia plural tem uma vertente mais tendente ao liberalismo do que ao pensamento republicano.
Quem retoma a noção de pluralidade e a conserva no pensamento republicano é, como vimos, Hannah Arendt em Da Revolução. Só que sua república, novamente, afasta o interesse do interior da política. Neste aspecto, Arendt retoma as exigências dos cidadãos e requer, na sua república, que os atores políticos atuem desinteressadamente e de forma espontânea. Isto poderia aproximá-la de Rousseau: desinteresse e espontaneidade são aspectos centrais da vida política idealizada pelo genebrino. Mas Arendt é crítica ferrenha ao seu pensamento por ter como elemento central o que ela talvez mais afaste em sua teoria: a unidade de poder. Então, ela viu nos americanos uma fonte de inspiração para sua república, mas não trouxe para sua teoria os interesses ali contidos. A pluralidade de Arendt é a das opiniões e dos atores que agem, não dos interesses. Arendt, portanto, formulou uma república plural com cidadãos desinteressados. Interesse e conflito, novamente, estão juntos e fora da vida política.
Nem no republicanismo contemporâneo o conflito de interesses voltou para o interior da república.
O que se operou então? Falar em ponto de inflexão nos Artigos
Federalistas talvez não seja possível a partir das obras analisadas. Mas o que se pode dizer é que ali há uma situação única no pensamento republicano: o interesse veio para dentro da república, sem vir acompanhado do conflito. Esta característica, que torna a obra, no nosso entender, muito mais próxima do pensamento liberal do que do republicano, a coloca numa posição separada nessa linhagem de pensamento. Mas o que deu lugar ao conflito? A categoria pluralidade. E esta parece ter sido a grande vencedora nesse jogo conceitual
acompanhado nesta tese. A pluralidade se tornou uma categoria presente no pensamento republicano (sem o interesse) e também no pensamento liberal (com os interesses econômicos presentes sem quaisquer ressalvas) e nas teorias democráticas contemporâneas, tanto em sua versão deliberativa quanto na sua versão competitiva. Se tivesse havido uma batalha entre a pluralidade e o conflito (e não parece ter havido), a pluralidade teria ganho em todas as frentes.
Em relação às nossas categorias centrais, aqui, podemos dizer que o interesse, ainda que não tenha prevalecido em várias obras do pensamento republicano, teve um grande retorno com os Federalistas. Quanto ao conflito, temos que, desde Maquiavel, parece estar ausente dessa linhagem de pensamento. Mas qual a importância disso?
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Tivemos como foco nesta tese o conflito e o interesse porque acreditamos serem duas categorias centrais da política, como a intuição nos indica. No entanto, o conflito foi a nossa primeira preocupação. O interesse foi agregado ao nosso projeto para que qualificássemos o conflito como conflito de interesses. Mas por quê o conflito?
Porque acreditamos ser ele uma categoria central na política, que dá a ela sentido. O conflito é, para a ação política, o mesmo que o atrito é para o movimento dos corpos reais. O atrito não causa o movimento dos corpos, assim como o conflito também não motiva a ação. Mas sem o atrito, os corpos ficariam no mesmo lugar, patinando, infinitamente. Situação semelhante parece ocorrer com a ação, se não for considerado o conflito. É como se os atores agissem, simplesmente, e assim continuassem, porque algo os motivou. Sabemos que o conflito, nas relações sociais e econômicas, existem. Em diversas situações, os interesses que estão em jogo são opostos. Mas por que não tratá-los politicamente assim? Em alguns projetos políticos, porque o conflito traz consigo a ameaça das facções. Em outros, como o caso dos Federalistas, porque ele é um obstáculo para a expansão acumulativa baseada no interesse individual. Em ambos os casos, o problema parece ser o efeito unificador do conflito, tão bem apontado por Simmel.
Além disso, e talvez de forma associada às suas características acima, o conflito dá densidade e profundidade à política que, sem ele, se torna um terreno de aparências e formalidades em que o conteúdo da ação e do que está em discussão, debate ou disputa, não importa muito. O conflito, também, politiza, na medida em que contingencia, a noção de bem comum que, se definido a partir do conflito, não fica relacionado a mecanismos meramente abstratos para seu alcance. Com o conflito, somente as relações materiais e concretas podem informar o bem comum.
No entanto, apesar de ser uma categoria elementar, ele esteve ausente em praticamente toda a trajetória do pensamento republicano. E talvez o mesmo ocorreria se tivéssemos como foco o pensamento democrático, ou liberal. Ali, com a supremacia do indivíduo, a pluralidade, como já apontamos, tornou-se a categoria central. E aqui, temos uma segunda razão para a defesa do conflito: o conflito é uma categoria que aponta para o coletivo, e não para o individual. Na diversidade de interesses de nossas sociedades, para que cheguemos a uma situação conflitiva temos de identificar pontos em comum em diversos interesses para localizar o conflito. Ele não é evidente a partir de indivíduos. Ao contrário, a pluralidade remete a indivíduos e à pulverização da sociedade. O conflito une e coletiviza, enquanto a pluralidade divide e individualiza.
O conflito traz, ainda a vantagem de, ao vir acompanhado pelo interesse, possibilitar à republica uma constituição menos exigente em relação a seus cidadãos, podendo ser mais extensiva e mais democrática. O que ameaça a busca do bem comum numa república não é a manifestação de interesses particulares, mas que ela venha desacompanhada do enfrentamento do conflito.
A defesa do conflito não significa, em nenhum momento, abrir mão de valores ligados à tolerância e à proteção de garantias individuais, próprias tanto de projetos liberais quanto de republicanos. Apenas acreditamos que essas preocupações não possam ser o centro da estrutura institucional e da vida política. Não pode ser permitido que a lógica da tolerância, que preceitua a aceitação da diferença, valha para desigualdades (injustiças) econômicas. A lógica da pluralidade vale para alguns temas, mas não para todos os que devem ser enfrentados por uma comunidade política, seja ela estruturada segundo um projeto republicano ou liberal.
Esta defesa, nesta tese, também não significa uma sugestão, então, de que Maquiavel seja o autor a quem devamos retornar para resolver os problemas atuais da teoria política. Devemos sim, retornar a ele, mas não se trata, aqui, de uma defesa incondicional de suas idéias, como, aliás, problematizamos no capítulo destinado aos
Discursos.
O que pretendemos foi retomar uma concepção de república que incorpore o conflito tal como sugerido pelo texto de Maquiavel, a partir das interpretações aqui analisadas. Pretendemos, em suma, indicar um ponto de partida teórico para que seja trazido o conflito de interesses para o interior da comunidade política, com toda a sua capacidade de tornar a vida da república mais dinâmica e, por que não o dizer, mais política.