Configurações do mercado de trabalho dos assalariados em saúde no Brasil

No documento Observatório de recursos humanos em saúde no Brasil : estudos e análises [Livro] - Biblioteca Virtual do NESCON (páginas 121-123)

Sábado Nicolau Girardi, Cristiana Leite Carvalho, João Batista Girardi Jr. e Jackson Freire Araújo

Introdução

O esforço para dimensionar com alguma precisão o tamanho, a evolução, a estrutura ocupacional e setorial dos mercados de trabalho e os serviços envolvidos com a função saúde em nossa sociedade, considerando a comple- xidade de seus diversos segmentos e o estágio das fontes de informação disponíveis, apresenta grandes limitações, até pelo grau de especulação que a tarefa pressupõe. A escassez de recursos destinados a investigações de profundidade em âmbito nacional tem limitado as análises sobre a evolução do mercado de trabalho da área da saúde quase que exclusivamente à interpretação de dados existentes em fontes estatísticas secundárias, com categorias e recortes setoriais e ocupacionais previamente definidos, nem sempre adequados para captar as rápidas mudanças e os rearranjos que ocorreram no interior desses "mercados" ao longo dos últimos anos.1

Durante os anos das décadas de 1970 e 1980, o inquérito da Assistência Médico-Sanitária (AMS) do IBGE, estatística que toma o universo dos estabelecimentos de serviços do núcleo do setor saúde, foi a base de dados a que mais se recorreu para avaliar a evolução e a composição do emprego em saúde. Surgiu daí uma forte tendência a limitar o conceito de emprego em saúde ao campo da demanda por trabalho em estabelecimentos de saúde (hospitais, clínicas e serviços diagnósticos). As análises do trabalho em saúde tomaram uma orientação distinta a partir de meados da década de 1990,

1 Usamos a expressão mercados entre aspas no sentido de apontar para a natureza e a dinâmica especiais dos

mercados de trabalho. A noção de mercadoria fictícia para referir-se à força de trabalho (Polanyi, 1944) tem uso já consagrado nos estudos sociológicos do trabalho e indica a forte necessidade da existência de instituições extramercado para o funcionamento dos "mercados" de trabalho (Polanyi, 1944). Mais recentemente, Freidson (2001) diferenciou três tipos ideais de mercado de trabalho: os mercados de trabalho regulados pelas forças de mercado; os mercados de trabalho burocraticamente regulados e os mercados de trabalho profissionalmente controlados. Os mercados de trabalho do setor saúde representam um dos exemplos mais típicos do terceiro tipo.

Mercado de trabalho e

emprego em saúde

quando os dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) e do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho e Emprego, passaram a ser mais utilizados. O uso dessas fontes permitiu que as análises do mercado de trabalho do setor e das ocupações de saúde fossem redescritas sob três "novas" dimensões da maior importância para a perspectiva do desenho e a implementação das políticas públicas para os mercados de trabalho: a dimensão econômico-setorial, a dimensão jurídico-institucional e a dimensão do mercado das profissões e ocupações propriamente ditas. Além disso, o uso dessas fontes permitiu um acompanhamento mais conjuntural dos fluxos de entradas e saídas e da evolução dos salários nos mercados formais da saúde. Duas importantes limitações, no entanto, logo se evidenciaram com o uso dessas fontes: primeiro, os dados restringiam-se ao segmento formal regulamentado do emprego assalariado; segundo, a maior parcela dos serviços públicos de saúde não está acessível nessas estatísticas, uma vez que o "grosso" desses estabeleci- mentos e vínculos de empregos está computado nas diversas classes constitutivas da "administração pública". Assim, algumas das reconfi- gurações mais expressivas e controvertidas dos mercados de trabalho em saúde ensaiadas ao longo da década de 1990 no Brasil – a precarização das relações laborais, inclusive na administração pública; a municipalização do emprego em saúde; o crescimento dos mercados de trabalho da medicina supletiva; a expansão dos negócios e da ocupação informal no setor; o vigoroso crescimento da assim chamada "outra saúde" – escapam quase completamente aos registros e às estatísticas citados. Da mesma forma, escapam-lhes os movimentos de terceirização e de flexibilização das relações de produção e serviços no setor, a exemplo do crescimento das cooperativas de trabalho e do recente boom das sociedades civis de profissões regulamentadas, bem como das novas formas da autonomia integrada ou de segunda geração, predominante entre os médicos, embora não a eles limitadas (Girardi, 2001). Por fim, escapam-lhes a vigorosa expansão observada no emprego em atividades de saúde, vinculadas ao poder público municipal e aos diversos segmentos da medicina supletiva. É bem verdade que a realização, nos anos mais recentes, de pesquisas de perfis profissionais (Machado et al., 1997) e de surveys não convencionais, a exemplo das pesquisas telefônicas (Girardi et al., 2000), tem permitido a captação de parte desses movimentos, mas sua utilização é ainda insuficiente. Vastos segmentos dos mercados – refiro-me aqui muito especialmente aos mercados informais e à "outra saúde" – encontram-se de qualquer forma quase completamente descobertos de diagnósticos mais abrangentes. Dessa forma,

Configurações do mercado de trabalho dos assalariados em saúde no Brasil

dimensionar os mercados de trabalho em saúde e buscar caracterizar sua trajetória e tendências recentes revelam-se empreendimento nem sempre coroado de êxito, exigindo cautela na interpretação dos resultados encontrados. Neste artigo, analisamos os principais aspectos da evolução e da estrutura dos mercados de trabalho da área da saúde no Brasil, no período recente (1995 a 2000), tomando por referência as informações da Relação Social de Informações Sociais do Ministério do Trabalho e Emprego. Isso significa, entre outras coisas, que a análise estará limitada ao segmento assalariado do mercado e ao comportamento do segmento formal da economia da saúde. Os mercados são enfocados em três de suas principais dimensões: a dimensão econômico- setorial, a dimensão jurídico-institucional e a do mercado das profissões e ocupações de saúde, com ênfase nas ocupações da área de enfermagem.

No documento Observatório de recursos humanos em saúde no Brasil : estudos e análises [Livro] - Biblioteca Virtual do NESCON (páginas 121-123)

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