A investigação das formas de vinculação dos agentes comunitários nos serviços de saúde das secretarias dos municípios selecionados confirmou a situação do panorama nacional já conhecido: grande parte das instituições públicas de saúde lança mão de contratos de caráter precário, a maioria sem garantias dos direitos trabalhistas. Neste estudo, foram identificados apenas quatro municípios que assumem os encargos sociais: Natal e São Gonçalo, da região da Grande Natal; e Umarizal e Tenente Ananias, da VI Regional de Saúde.

O estudo constatou que 59% dos municípios investigados utilizam

contratos informais, e apenas 41% lançam mão de contratos temporários.2

De acordo com Fernandes (2003), apenas um município, na VI Regional de

Saúde,3 contrata agentes por meio de seleção pública, em regime celetista.

Em relação aos fatores que determinaram a opção das secretarias municipais de saúde pela modalidade de contratação adotada, os gestores não têm uma posição clara e unânime. A inexistência de uma normalização,

2 Os contratos informais referem-se à prestação de serviço com termo de adesão assinado pelo agente, pelo

prefeito e por testemunha, e ou aqueles contratos que se efetivam apenas com o lançamento do nome do trabalhador na folha de pagamento, utilizado pela maior parte dos municípios. Os contratos temporários são equivalentes a contratos de excepcional interesse público, bolsas de trabalho e aqueles de funções de confiança.

3 O município de Viçosa, localizado na VI Regional de Saúde, possui 1.548 habitantes, portanto não foi

Precarização do trabalho do agente comunitário de saúde: um desafio para a gestão do SUS

por parte do Ministério da Saúde, foi um determinante referido por 50% dos entrevistados. Essa resposta demonstra que boa parte da gestão das secretarias municipais de saúde ainda não concebe o agente comunitário de saúde como uma categoria permanente. Demonstra também a inexistência de uma política municipal de recursos humanos em saúde. Outros fatores citados também contribuem para essa análise: 25% dos entrevistados fizeram referência à impossibilidade da realização de concurso público; 15% disseram prosseguir com a forma de contratação adotada pela gestão anterior; 5% ressaltaram que o Programa Saúde da Família não tem um caráter definitivo e 5% citaram a não regulamentação da categoria.

Questionados sobre as vantagens das modalidades de contratação adotadas nas suas instituições, os entrevistados destacaram a possibilidade de contratar pessoas do próprio município e desligá-las do programa quando necessário. Os depoimentos abaixo ilustram essas afirmações:

A seleção dos agentes pode ser feita conforme o perfil traçado pelo Ministério da Saúde.

A vantagem é selecionar pessoas da área que conheçam a realidade da comunidade em que irão trabalhar.

A vantagem para os municípios é que o profissional pode ser desligado a pedido ou quando não está correspondendo.

Quando perguntados sobre as desvantagens, grande parte dos entrevistados destacou que a inexistência de garantia dos direitos trabalhistas cria dificuldades na relação gestor e trabalhador, irregularidade diante do Tribunal de Contas e insatisfação dos agentes.

O município fica irregular, pois a forma de contratação não é reconhecida pelo Tribunal de Contas do Estado e da União. A falta de segurança do agente e de confiança que aquele é um trabalho dele e que lhe dará sustentação definitiva.

Não garante os direitos trabalhistas.

Outros motivos também foram apontados como causas da insatisfação, todavia percebe-se que eles estão diretamente relacionados à inexistência de direitos trabalhistas, como pode ser observado na relação a seguir: inexistência de vínculo com a instituição na qual os agentes desenvolvem suas atividades; insegurança pelo tipo de contrato; não valorização da categoria; não recebimento de algumas vantagens destinadas ao trabalhador

do quadro; insegurança pelo tipo de contrato; e o desconto do Imposto Sobre Serviços – ISS.

Essas insatisfações revelam-se de diversas maneiras, conforme as declarações dos entrevistados:

No atraso da entrega das informações mensais.

Pela desaprovação, em reuniões, de alguns descontos, considerando que eles não têm garantias.

Manifestam, em reuniões, o descontentamento com a falta de reconhecimento.

Pelas constantes reclamações e cobrança da regularização de sua situação.

Pelo desinteresse em participar de ações como campanhas de vacina.

Sobre as implicações decorrentes da forma pela qual o agente é contratado, os entrevistados tiveram opiniões divergentes; 54% afirmaram não haver relação entre a forma pela qual o agente é vinculado ao serviço e sua produção, como pode ser observado na citação a seguir:

Pode até ser que um ou outro agente não desenvolva seu trabalho como deveria. Mas percebo que muitos trabalham porque gostam e necessitam. Aos poucos eles vão conhecendo aspectos da sua área e percebendo a necessidade de ajudar os outros [...] O mais importante é a forma de gerenciá-los, aliada a um programa de capacitação.

Contrapondo-se a essa posição, 46% dos entrevistados disseram que a forma como se efetiva a vinculação do agente na secretaria de saúde influencia e interfere no processo de trabalho, trazendo as seguintes conseqüências:

• gera descompromisso;

• causa desmotivação;

• faz com que os agentes não se sintam subordinados ao município;

• diminui a produção no serviço;

• produz insegurança no trabalho.

Os depoimentos a seguir confirmam essas implicações:

Se existisse uma maior valorização, com certeza o trabalho teria qualidade bem superior.

Na maioria dos casos, o desestímulo não acarreta grandes prejuízos ao seu trabalho, mas alguns dos agentes já não produzem como no início dos seus trabalhos.

Precarização do trabalho do agente comunitário de saúde: um desafio para a gestão do SUS

Eles se tornam inseguros, insatisfeitos e não fazem os seus trabalhos com motivação.

Solicitados para indicarem sobre qual seria a forma de contratação mais apropriada, os entrevistados expressaram opiniões bastante diversificadas, conforme pode ser observado no quadro a seguir:

Quadro 4 – Distribuição dos gestores quanto à opinião sobre modalidade de contrato mais adequada

No documento Observatório de recursos humanos em saúde no Brasil : estudos e análises [Livro] - Biblioteca Virtual do NESCON (páginas 114-117)

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