Gráfico 2 – Condições de trabalho – técnico de enfermagem

No documento Observatório de recursos humanos em saúde no Brasil : estudos e análises [Livro] - Biblioteca Virtual do NESCON (páginas 179-183)

Desse modo, as melhores condições de trabalho podem ocorrer no Amapá, hipoteticamente, em razão da escassez de pessoal qualificado e da conseqüente política de atração de profissionais por parte das instituições. A mesma hipótese, contudo, não parece favorecer Roraima, cujo indicador é o mais baixo do conjunto. Por outro lado, em mercado de trabalho com maior oferta de profissionais, como Bahia e Ceará, o resultado é inferior ao padrão do Lote B. No entanto, o mesmo não ocorre em Pernambuco, que apresenta melhor indicador que aqueles estados, embora também possua características de um mercado de trabalho já consolidado para o auxiliar de enfermagem. Observe-se ainda que a situação do auxiliar de enfermagem mostra que a disparidade entre os valores obtidos para cada unidade da Federação pode alcançar até 50 pontos percentuais.

O técnico de enfermagem apresenta uma média mais elevada que a do auxiliar de enfermagem, 52,54%, sendo o grupo de estados com melhores indicadores semelhante àquele apresentado pelo auxiliar de enfermagem: Pernambuco, Pará, Alagoas, Rio Grande do Norte, Sergipe e Amapá. No grupo dos estados em pior situação estão: Paraíba, Ceará, Bahia, Piauí, Maranhão e Roraima.

O técnico de enfermagem, além de apresentar uma situação geral melhor que a do auxiliar, mostra também menor discrepância entre o maior e o menor percentual obtido por estado. Isso se deve, sobretudo, à posição de Roraima, que fica bem abaixo dos demais estados. Caso contrário, a curva teria uma trajetória mais suave, e a diferença entre as situações extremas seria menor. Conforme se observa na pesquisa com oito categorias, a participação de Roraima produz uma distorção negativa nos resultados gerais, tendendo a ampliar a discrepância desfavorável. Isso é em parte compensado pelo resultado positivo do Amapá.

Considerações finais

As mudanças no mundo do trabalho nas últimas décadas têm promovido um intenso debate sobre a precarização das relações de trabalho. Contudo, não existe um consenso quanto à definição da categoria precarização. Por um lado, são enfatizadas a forma e a existência da relação empregatícia; por outro, considera-se o processo de trabalho nas condições específicas de cada categoria profissional e, por último, sublinham-se as novas atividades e funções que incorporam maior pressão sobre alguns tipos de profissionais, como vem a ser o caso da área de saúde.

Precarização do trabalho de nível técnico em saúde no Nordeste: um enfoque nos auxiliares e nos técnicos de enfermagem

A precarização das condições de trabalho coloca-se como possibilidade para todas as categorias profissionais, mas especificamente para o setor saúde, conforme foi identificada na pesquisa para o Samets, ganha contornos próprios. Para este ensaio foram tomadas duas das categorias cuja natureza do trabalho se caracteriza pelo elevado nível de exigência profissional ao lado de deficientes condições laborais: auxiliar e técnico de enfermagem. Para esses profissionais, o ambiente institucional revelado à luz do indicador de condições de trabalho expressa algumas tendências preocupantes: a existência de consideráveis heterogeneidades regionais, uma vez que Roraima e Amapá, UFs com semelhanças geográficas, apresentam ICT bastante discrepantes, o mesmo ocorrendo no Nordeste (MA e SE). Além disso, observou-se que o estudo da precarização requer aspectos qualitativos vinculados à cultura organizacional local e ao nível de regulação da categoria, como se pôde observar no nível de organização dos trabalhadores de enfermagem, cuja mera existência de organismo representativo não reflete a complexidade do fenômeno.

Outro aspecto a destacar diz respeito ao baixo percentual de instituições que fornecem planos de saúde aos seus empregados, revelando um contra- senso. As estratégias para suprir carência de pessoal por parte das instituições também têm impactos diretos no nível de precarização, conforme se pode constatar na correlação entre concurso público e menor precarização (RN) e contrato temporário e maior precarização (CE) entre instituições públicas.

Em suma, ainda há muito que investigar no que se refere à precarização do trabalho no setor saúde, que possui contornos institucionais, antropo- lógicos, políticos e sociais particulares, mas, ao mesmo tempo, diretamente vinculados ao processo global de crise do mundo do trabalho.

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No documento Observatório de recursos humanos em saúde no Brasil : estudos e análises [Livro] - Biblioteca Virtual do NESCON (páginas 179-183)

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