Precarização do trabalho do agente comunitário de saúde: um desafio para a gestão do SUS

No documento Observatório de recursos humanos em saúde no Brasil : estudos e análises [Livro] - Biblioteca Virtual do NESCON (páginas 105-107)

Janete Lima de Castro, Rosana Lúcia Alves de Vilar e Vicente de Paula Fernandes

Introdução

A discussão do tema Precarização do Emprego exige que sejam consideradas algumas conexões que envolvem as relações de trabalho e poder. Uma delas é o contexto em que se reproduzem as relações sociais específicas no âmbito das práticas de trabalho. Essas relações, embora se expressando como relações econômicas, ganham especificidades pela forma como se constroem e se reproduzem por meio de elementos políticos e ideológicos (Siqueira, 1997), tornando importante a identificação de alguns aspectos que estão para além do mundo do trabalho, embora seja nesse mundo que residam as determinações fundamentais. Assim sendo, faz-se necessário incorporar, na discussão, outros determinantes, como aqueles oriundos do âmbito político institucional e aqueles que se situam em outras esferas: determinantes culturais, padrões de organização e associativismo, por exemplo.

Nesse contexto, merecem destaques as palavras de Lima, quando ele refere ao fim da "sociedade de direitos", dizendo que esse cenário representará uma perda progressiva de conquistas salariais e direitos sociais.

Estaríamos frente ao fim da "sociedade de direitos" pelo menos onde ela existiu, no primeiro mundo industrializado e agora pós- industrializado. No terceiro mundo, embora parcialmente implementada se constituiria numa perspectiva de futuro para os trabalhadores: um emprego estável, uma aposentadoria, acesso a serviços básicos de saúde, enfim à cidadania. O fim dessa perspectiva é acompanhada da perda progressiva de conquistas salariais e direitos sociais e do crescimento de relações de trabalho ditas "atípicas" ou "não estandardizadas", como contratos por tempo parcial, temporários, com restrições diversas, ou mesmo sem contrato algum (Lima, 2004, p. 1).

Mercado de trabalho e

emprego em saúde

É importante realçar que o autor se refere ao crescimento, e não ao surgimento, dessas relações "atípicas", "pois estas não são necessariamente novas, contêm, em linhas gerais, o caráter de precariedade do pré- assalariamento", assumindo apenas nova visibilidade e novos significados (Lima, 2004, p. 1), num cenário complexo que inclui um duplo movimento: "a diversidade da destruição de algumas categorias de trabalhadores e a paulatina criação de outros segmentos" (Azais e Cappelin, 1997, p. 19).

O agente comunitário, objeto de estudo deste trabalho, é uma das diversas categorias de trabalhadores de saúde que surgiram nesse contexto de reformas e de novas formas de relações de trabalho, protagonistas do final da década de 1990.

A atuação dos agentes comunitários de saúde, em vários municípios do país, conferiu-lhes respeito e legitimação da população, porém não lhes deu a condição de serem institucionalizados com direitos trabalhistas garantidos. Mas, como ressalta Siqueira e Souza Filho (1997), a legitimação e a institucionalização são metas centrais nesse jogo. Nesse sentido, em julho de 2002, como resultado de muitas discussões e também como uma forma de não encarar a verdadeira polêmica colocada nos debates sobre a inserção dos agentes comunitários de saúde – polêmicas que diziam respeito aos

problemas referentes à vinculação institucional1 –, o governo federal criou a

Lei de Profissão de Agente Comunitário de Saúde – Lei no 10.507, de 10 de

julho de 2002.

No entanto, é importante compreender que a criação da profissão não é solução para o problema originado pelas diversas formas de vinculação institucional desse trabalhador ao Sistema Único de Saúde, ou, melhor dizendo, para a precarização do trabalho. Nessa perspectiva, o Ministério da Saúde, considerando a necessidade do desenvolvimento de ações que garantam a oferta quantitativa de profissionais com perfil adequado às necessidades do SUS – com garantia de direitos e deveres aos trabalhadores da área de saúde –, e considerando também o grande número de profissionais que atuam no SUS, por meio de contratações não convencionais como contrato de prestação de serviço, terceirização, cooperativa e outros – com prejuízos não só para os próprios trabalhadores como também para os usuários do

sistema –, criou, por meio da Portaria no 2.430, de 23 de dezembro de 2003, o

Comitê Nacional Interinstitucional de Desprecarização do Trabalho no SUS. Entre os objetivos do Comitê, destacam-se: realizar o levantamento das formas

1 Adotamos o conceito que abrange a dimensão jurídica da relação de trabalho (CLT, estatutário) e a dimensão

Precarização do trabalho do agente comunitário de saúde: um desafio para a gestão do SUS

de precarização do trabalho no SUS; indicar as formas legais de contratação, quando for o caso, e apresentar as iniciativas requeridas para sua implementação, tendo em conta a política de preservação do emprego e da renda dos ocupados no setor e induzir, por meio de cooperação com os demais entes federados, a adoção de uma nova concepção de relações estáveis de trabalho no SUS que erradique os vínculos precários e valorize o trabalhador. A situação do agente comunitário no Estado do Rio Grande do Norte não é diferente da situação do resto do país; a existência de diferentes formas de inserção desses trabalhadores vem gerando distintos problemas para estes e para a gestão do trabalho. De modo geral, essa situação gera conflitos e incertezas das mais variadas ordens e cria expectativas de regulação estatal. Vários estudos já foram realizados sobre as modalidades de contratação utilizadas para vincular os agentes comunitários de saúde aos serviços de saúde. Autores especializados no setor saúde já abordaram conceitualmente o tema e já discorreram sobre as vantagens e as desvantagens das diversas modalidades de contratação existentes nos serviços de saúde. Nesse sentido, o presente trabalho não tem a credencial de originalidade. Todavia, sua pertinência revela-se pela inexistência desse tipo de estudo no estado; pela oportunidade de ofertar dados desagregados em âmbito municipal; por constituir um diagnóstico da situação de precarização do trabalho dos agentes de saúde nos municípios do Estado do Rio Grande do Norte, inseridos na pesquisa, a partir da concepção do ator responsável pela gestão dos serviços; e, por último, por cumprir a missão do Observatório RH Nesc UFRN em produzir estudos, tendo em vista subsidiar decisões dos gestores do Estado do Rio Grande do Norte.

O Programa de Agentes Comunitários de Saúde: entre o sucesso do

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