6 FALANDO DE INTEGRALIDADE
7.4 Confrontando as ações cotidianas das equipes dos três casos
No cotidiano das práticas, a rotina dos profissionais é marcada por ações que caracterizam, nesses três cenários, a proposta de trabalho na ESF: as visitas domiciliares, os procedimentos básicos de enfermagem, as consultas, o atendimento individual e coletivo, a educação em saúde, as atividades de prevenção e de promoção da saúde, a referência para outros níveis da atenção à saúde.
Um aspecto de mudança apresentado está no foco de atenção à saúde na ESF, que em muitos momentos da prática, deixa de ser centrado exclusivamente na doença para ser voltado para o usuário e para o coletivo, sendo a família o espaço privilegiado de atuação. Isso implica em aprender a lidar com esse novo recorte, a família como objeto de trabalho, impondo novos instrumentos e saberes que possam transformar a prática assistencial pautada nos princípios éticos e morais para atuar junto à comunidade e levar a uma maior autonomia das pessoas para escolhas saudáveis de vida.
Porém, algumas dificuldades foram apresentadas: na referência e contrarreferêcia, na escassez de recursos humanos, na falta de recursos materiais e diagnósticos; na lacuna existente para ações integradas e interativas na equipe. Mas os informantes apontam para a necessidade da perspectiva de trabalho integrado a análise coletiva dos problemas e o encaminhamento das soluções. Essas dificuldades apresentadas conferem uma “contramão” para a integralidade das ações.
A composição da equipe mínima em Gouveia e, também, a equipe de apoio que os municípios de Datas e Gouveia apresentam, destacam condições do trabalho das equipes de Saúde da Família, alternativas para revitalização do trabalho em saúde e enfrentamento de condições alienantes do processo de trabalho. Finalmente, ratifica-se a visão da condição dialética do processo de trabalho em saúde na ESF, com suas possibilidades de sucesso, idealizado, mas na realidade funcionando permeado por contradições e dificuldades.
É incontestável o papel do enfermeiro como educador em saúde, seja em sua versão individual ou coletiva, aspecto forte nessas realidades, principalmente em Diamantina. No trabalho de educação em saúde, as escolhas das pessoas e da comunidade são valorizadas, cabendo ao profissional o papel de mediador, utilizando como instrumento o conhecimento técnico-científico, respeitando e considerando, na maioria dos momentos, os saberes populares.
Nos três municípios, a aproximação com a proposta da integralidade em saúde foi justificada, nos dados, pelo potencial que as equipes têm para organizar ações coletivas, com a intenção de melhorar a qualidade de vida da população, ações que vão além do setor da Saúde que tem sido, em muitos casos, o impulsionador do processo de trabalho na ESF, o que dá forças “para recomeçar a cada dia”.
A dificuldade de acesso aos níveis secundários e terciários para sequenciar o trabalho interrompido foi comum nessas realidades. Como eixos dessa discussão, os dados apontam que o profissional e sua equipe têm condições de oferecer um cuidado de melhor qualidade, para sua população adstrita, se forem considerados os seguintes critérios: número de profissionais por equipe, perfil adequado para o trabalho em Serviços Públicos, capacidade para reconhecimento dos problemas de saúde e criatividade para resolução dos mesmos.
A compreensão da construção da integralidade, mote inicial deste estudo, é um grande desafio posto aos trabalhadores. Além das dificuldades de aplicação prática desse princípio no cotidiano das equipes da ESF, evidencia-se que está ligado às questões de gestão da política pública. Entretanto, por uma falta de entendimento sistêmico do SUS, muitas cobranças e grande parcela de responsabilização recaem sobre os trabalhadores que, em muitos momentos, estão cercados em suas práticas por dificuldades administrativas, de recursos humanos, de infra-estrutura e da inoperância da rede de cuidados. Os atores desses cenários, muitas vezes, sentem-se fortalecidos em saber que estão caminhando para ações integrais em saúde, mas não suficientemente articulados para isso, por questões políticas, de gestão e até pela impotente interação na equipe.
Mediante a interpretação dos dados do cotidiano das práticas, compreendo que os aspectos facilitadores da intensificação da integralidade nas equipes da ESF e de apoio são os processos de reflexão dos trabalhadores sobre a organização das práticas e dos Serviços. São processos que possibilitam interações saudáveis ao trabalhador e ao usuário e a reinvenção do cotidiano pela coletividade.
Os aspectos dificultadores dessa questão são aqueles que suprimem os sujeitos e a intersubjetividade nas relações entre trabalhadores e trabalhadores/usuários e que não traduzem a integralidade do sujeito, das ações, dos Serviços e das políticas públicas. É um contexto complexo, mas que deve perpetuar como diretriz para alcançarmos o Sistema de Saúde idealizado e constituído.
Os dados desvendaram que o encontro do usuário com o profissional e a equipe qualifica-se com o investimento no vínculo, no respeito e no reconhecimento da pessoa como “sujeito da ação”, com participação ativa. A visão mais humana dos profissionais de saúde
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pode contribuir para um contato mais sintônico, e, consequentemente, mais ético, entre eles e a população assistida.
Numa associação da descrição da prática cotidiana com os significados de integralidade expressos pelos atores sociais na categoria anterior, aponto que alguns informantes relatam que as ações de integralidade, muitas vezes, são contempladas pela equipe e demonstram também abarcar múltiplos interesses de transformação da prática hegemonicamente instituída.
Torna-se urgente perceber a diversidade que marca a presença da produção de subjetividade nas práticas profissionais no setor da Saúde. Nessa análise, ressalto a urgência de se reconhecer a presença de sentidos diversos sobre o tema da integralidade em saúde. Essa diversidade não significa um fator negativo, mas demonstra a heterogeneidade do campo e dos atores que constroem os significados a partir de seus contextos e da posição desses atores na produção social da saúde. Nessa abordagem, compreendo que uma proposta de ações integrais em saúde não deve ter o poder de uniformizar, em um único discurso, as ações, mas de enfrentar os desafios dessa diversidade, propiciando o aumento da reflexão dos atores sobre suas práticas.
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8 OS PILARES DA INTEGRALIDADE: A COMUNHÃO DA IDEOLOGIA E OS