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Capítulo V | As violências domésticas e a sua interrupção

5.2 Conhecendo e interrompendo o fenómeno disruptivo

A violência doméstica é um fenómeno multidimensional, com impacto em diferentes di- mensões da vida da vítima, constituindo-se um dos problemas de justiça e de saúde públi- ca mais sérios que as mulheres enfrentam atualmente (Stork, 2004). Apesar do fenómeno apresentar múltiplas causas, já amplamente investigadas10, estas tendem a gravitar em torno de conceitos macro como controlo e poder. Contudo, contrariando a análise tradici- onal que remete a violência doméstica para este padrão geral de controlo, o sociólogo americano Michael Johnson (2005, 2008) tem vindo a clarificar as diferentes dinâmicas de

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Para uma análise aprofundada sobre as causas da violência doméstica consultar: Matos (2006), Tjaden & Thoennes (2000), Jasinski & Williams (1998).

abuso e de controlo presentes nas várias relações abusivas, distinguindo diferentes tipos de violência em contextos de intimidade com base no contexto de controlo em que estas ocorrem. O autor afirma que o contexto de controlo é conceptualizado ao nível da relação (numa perspetiva relacional macro e desenvolvimental) e não depende apenas da situação imediata de violência. Este contexto de controlo é construído com base no que denomina de informações diádicas não-específicas sobre os comportamentos violentos e de controlo de ambos os parceiros no relacionamento. Tendo por base o contexto de controlo, John- son (2008) distingue quatro grandes tipologias de violência doméstica nas relações hete- rossexuais, que se assumem, assim, como tipologias de violência individuais, enraizadas na informação que o indivíduo tem sobre o casal e definidas pelo contexto de controlo no qual a violência emerge:

a) Terrorismo na intimidade (“Intimate terrorism”). Refere-se a relações em que ape- nas um dos elementos da relação é violento e controlador. O outro elemento não é violento ou, sendo-o, não utiliza a violência para o controlo relacional.

b) Resistência violenta (“Violent resistance”). Foca-se, fundamentalmente, nas situa- ções de agressão perpetradas pelas mulheres sobre os seus parceiros, que assu- mem um papel continuamente agressivo e controlador no contexto de intimidade. Este tipo de violência parece ocorrer porque nestas relações o terrorismo em con- texto de intimidade tende a ser perpetrado por homens e, em alguns casos, as mu- lheres respondem com violência, apesar de raramente serem igualmente contro- ladoras. Referem-se a registos de autodefesa mas que podem escalar para atos mais graves.

c) Violência conjugal situacional (“Situational couple violence”). Remete para uma vi- olência recíproca no casal com um padrão não controlador, de cariz ocasional ou, mesmo, isolado, imbuído na rotina de alguns casais. Não assume propriamente um cariz de controlo relacional ou, se o faz, este refere-se a uma situação específica. d) Controlo violento mútuo (“Mutual violent control”). Refere-se a um padrão de vio-

lência em que ambos os elementos da relação se apresentam como violentos e controladores.

Mais do que uma divisão académica de subtipologias de violência em contextos de intimi- dade, a tipologia apresentada por Johnson permite perceber que as consequências e im-

pactos para as vítimas dependem significativamente do tipo de violência em que se encon- traram envolvidas (Leone, Johnson, & Cohan, 2007). Complementarmente, também a tipo- logia de resposta/ajuda que procuram é diferenciada. Mediante a tipologia apresentada, o autor defende que são as mulheres vítimas de terrorismo nos contextos de intimidade aquelas que mais procuram respostas como casas abrigo ou outro tipo de ajuda formal. De acordo com o autor, não é provável que vítimas de violência conjugal situacional se encon- trem em casas abrigo ou, mesmo, em Tribunais, pois tendem a não experienciar um nível de perigo necessário que suporte este tipo de intervenção. Constata que as vítimas de terrorismo íntimo parecem mais propícias a procurar ajuda formal, particularmente por parte da polícia.

Contudo, mesmo havendo subgrupos vitimários mais propícios a procurar ajuda formal, este processo de interrupção da relação proximal nunca é linear e de simples efetivação. O processo decisional, para além de complexo, é precedido pela implementação de diferen- tes estratégias que visam lidar com a violência por parte do companheiro, como, por exemplo, o recurso à família ou amigos, o recurso à fé e a outros mecanismos mais estru- turados da comunidade (Davies, Lyon, & Monti-Catania, 1998). Independentemente da estratégia utilizada, Gondolf & Fischer (1988) salientam que as mulheres procuram sempre algum tipo de ajuda, contudo este processo é intensificado aquando do agravamento de intensidade e/ou severidade dos comportamentos violentos. Todas estas estratégias pare- cem contribuir para um processo de clarificação decisional em relação à procura de ajuda. Este processo de decisão não é, assim, um momento isolado, um ponto único de mudança de atitude pessoal. Parece estender-se no tempo, sendo constituído, frequentemente, por escolhas subtis ou inconscientes que decorrem sempre que existe uma mudança relacional (Lerner & Kennedy, 2000). Nestas situações, a experiência é reenquadrada ou uma nova opção é apresentada, contribuindo para que a mulher vá construindo um ponto de vira- gem (Stork, 2004). A interdependência de elementos que contribuem para o processo de- cisional é de tal modo intrincada que a investigação revela que, em média, são necessárias cinco tentativas antes que a mulher consiga, com sucesso, libertar-se da relação abusiva (Hilberman & Munson, 1977; Ulrich, 1991; Walker, 1997). Okun (1988) concluiu que é ne- cessário um período de maturação significativamente elevado (uma média de cinco anos de vivências violentas) para que a mulher decida ir para uma casa abrigo.

Apesar de não haver muitas questões que tenham despertado tanto a atenção na literatu- ra como o “Porque é que as mulheres vítimas de violência doméstica se mantêm com o

seu companheiro?” (Aguirre, 1985), originando um elevado conjunto de teorias explicati- vas e subdesviâncias11, o corpo de investigação empírica sobre os mecanismos de tomada de decisão subjacentes à procura de ajuda e consequente saída de uma relação violenta, apesar de crescente, ainda não é suficientemente compreensiva, estando fundamental- mente ligada a questões do empoderamento pessoal (Eisikovits, Buchbinder, & Mor, 1998; Peled, Eisikovits, Enosh, & Winstok, 2000; Stork, 2004).

Contudo, a investigação tem começado a evidenciar alguns dos elementos envolvidos na tomada de decisão da mulher se manter ou não numa relação violenta e, consequente- mente, solicitar acolhimento institucional. Mulheres que vivenciam relações abusivas ten- dem a desenvolver uma ampla gama de estratégias influenciadas pelo conjunto de crenças pessoais que visam gerir o modo como resistem e sobrevivem e se, eventualmente, saem ou ficam na relação violenta (Stork, 2004). Pape e Arias (1995) identificam diferentes es- tratégias de coping relacionadas com o controlo pessoal que se assumem como os recur- sos que fornecem meios para que as mulheres vítimas de relações abusivas possam con- trolar alguns aspetos das suas vidas e possam responder a determinados elementos stres- sores aquando do seu surgimento (referem o recurso a bens materiais e serviços, apoios sociais, crenças de autoeficácia ou experiências prévias em lidar com a violência ou com o agressor). O controlo, quer sobre o ambiente circundante, quer sobre os recursos pessoais (autoeficácia e sentimentos de mestria) assume-se como uma importante estratégia de coping na interrupção da relação violenta e na solicitação de apoio institucional (Benight, Swift, Sanger, Smith, & Zeppelin, 1999; Nurius, Furrey, & Berliner, 1992). Mills (1985) des- creve este processo de (re)ganho de controlo como o conjunto de momentos em que a mulher deixa de ser um “zombie” obediente para passar a assumir-se como um agente reflexivo da/na sua própria vida.

Este processo de realteração pessoal pode ser estimulado de diferentes formas. A mulher vítima de violência doméstica parece tender a modificar e reenquadrar o seu sistema de crenças relativamente à relação que vivencia (Mills, 1985); a constatar uma diminuição da sua eficácia pessoal (Dienemann, Campbell, Landenburger, & Curry, 2002; Mills, 1985); ou a sentir a necessidade de neutralizar a violência vivenciada (Wuest & Merritt-Gray, 1999). Esta necessidade de alterar o percurso de vida como resultado do reconhecimento do im-

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Loseke & Cahill (1984) argumentam que esta questão, ao ser levantada e respondida por peritos teó- ricos não experienciais, contribuiu para a criação de uma nova categoria de desviância: as mulheres que, batidas, decidem permanecer com os seus companheiros.

pacto do percurso vitimário, parece tornar a mulher mais recetiva às alternativas disponí- veis (Eisikovits, et al., 1998).

A informação sobre as alternativas disponíveis, i.e., o facto de a mulher ter à sua disposi- ção informação sobre se e que respostas na comunidade a poderão auxiliar nesta decisão, contudo, não parece ser um elemento particularmente valorizado pela literatura, apesar de terem sido encontradas evidências que revelam que continua a haver um desconheci- mento sobre as alternativas legais e sociais que a mulher tem à sua disposição (Chagas Saraiva & Rodrigues, 2010; Cortez, 2009; Wharton, 1987). O facto de a mulher desconhe- cer as suas opções e o que lhe poderá acontecer num momento subsequente à saída da relação abusiva, parece contribuir para uma complicada aritmética que Stark (as cited in(Magen, 1999) denominou de “cálculo do dano”, ponderando a vítima a violência que conhece Vs. o desconhecimento do que poderá ocorrer a seguir, o que contribui direta- mente para a perpetuação da/na situação violenta.

Parte B