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Capítulo IV | Casas abrigo – A operacionalização de um contínuo ideológico-funcional

4.3 Diacronizando o discurso sobre as casas abrigo

Uma reflexão diacrónica sobre as respostas sociais de intervenção com mulheres permite- nos percecionar que as atuais casas abrigo para mulheres vítimas de violência doméstica, mais do que uma criação original nos anos 70 do século passado, foram, efetivamente, uma reoperacionalização de todo um conjunto de movimentos sociais e políticos, adequa- dos a um entendimento emergente do papel feminino do século XX. Uma abordagem ge- nealógica a estas instituições permite-nos constatar a existência de alguns paralelismos e preocupações entre a intervenção inicial e a atual, ainda que relativizadas pelos entendi- mentos de género e pela ocupação de espaços político-sociais que as mulheres de então ocupavam e as que hoje ocupam, traduzidos num contínuo quase que subliminar na inter- venção institucional com mulheres.

Um dos principais reflexos deste contínuo socio-histórico verifica-se no facto de ser a mu- lher, enquanto vítima de violência doméstica, o objeto de intervenção. Parece terem sido alteradas as razões da intervenção, mas não o mecanismo processual. Das questões mo- rais e da manutenção de políticas de género, passámos a assumir a necessidade de inter- venção por uma questão de cidadania e de implementação dos direitos fundamentais do Ser Humano, mas acusamos uma inépcia para resolver o problema da violência doméstica de outro modo que não um afastamento da mulher.

Estando a intervenção com vítimas de violência doméstica mais evidenciada e clarificada desde o início da década de 1970, não seria de esperar que a intervenção tivesse assumido outros contornos, centrando-se mais no elemento agressor e passando por outras meto- dologias que não a institucionalização da vítima? A lógica e a práxis, contudo, nem sempre são conceitos complementares. Parece haver uma confluência de fatores que permitiram o desenvolvimento, por parte de diferentes ONG, destas respostas institucionais de aco- lhimento, aparentemente contrárias ao que seria o movimento natural na criminologia: o afastamento/punição do agressor.

Um primeiro fator justificativo desta focalização na mulher e não tanto no agressor parece centrar-se na desconsideração inicial que o próprio sistema de justiça (tribunais, forças de segurança, …) dava a estes assuntos (Schechter, 1982), apoiados em parte nas teorias se- xistas iniciais justificativas da violência doméstica, centradas na vítima como responsável por essa mesma violência (blaming the victim). Complementarmente, a própria morosida- de judicial destes processos torna inoperante qualquer tentativa de conciliar a segurança das vítimas com a averiguação de responsabilidades sobre o comportamento violento.

Esta dificuldade (impossibilidade?) torna a fuga para uma casa abrigo como uma solução possível e de controlo (pelo menos decisório) pessoal.

Um segundo fator explicativo parece relacionar-se com o facto de, a partir do século XIX, se ter verificado, quer nos EUA, quer na Europa, um alargamento significativo do sistema de confinamento e reclusão, traduzindo-se num campo fértil para as ciências comporta- mentais que emergiam e que começavam a dar corpo a uma sociedade terapêutica (Dobash & Dobash, 1992). Previamente a este movimento emergente, os discursos públi- cos relativos à violência doméstica, durante o final do século XIX e início do século XX, eram centrados numa perspetiva claramente feminista cuja tónica incidia no sistema gru- pal de poder masculino. Foram, contudo, estrangulados por um segundo discurso público, durante os anos 40 do século XX, desenvolvido pelos trabalhadores sociais, que remete- ram a violência doméstica para uma neutralidade de género, suportando-a em expressões sócio-clínicas como “discórdia marital” ou “desarmonia conjugal”, e levando a criar um entendimento de que a violência doméstica apenas “surge”, tornando as mulheres que queriam responsabilizar o respetivo companheiro como “infantis”, pois encontrar-se-iam a reduzir uma equação complexa (Dobash & Dobash, 1992).

É, no entanto, com a disseminação das intervenções psicológicas e psiquiátricas nas esfe- ras já não da desviância mas da normatividade, que se verifica uma inflexão nos discursos, salientando-se uma tónica nas questões e ações individuais, com distinções crescentes entre “normal” e “patológico”. E é esta “psicopatologização” crescente dos diferentes comportamentos individuais que parece reforçar o comportamento histórico, realçando a necessidade de criação de unidades específicas confinadas para o tratamento e interven- ção destas situações de desviância. Parece-nos, assim, que a nível da intervenção com mulheres, as dificuldades de proteção da vítima associadas a esta base institucional secu- lar preexistente, parecem ter facilitado a reativação deste forte dispositivo social, realçan- do aquilo que Cohen (1992) denomina como uma “tendência histórica para institucionali- zar mulheres de modo a resolver os seus problemas” (p. 163).

Atualmente, contudo, ter-se-á registado, em vários domínios da intervenção social, uma tentativa de inversão deste paradigma, de modo a evitar-se a institucionalização, através da deslocação dos serviços até aos indivíduos que deles necessitam. No entanto, a nível da violência doméstica são conhecidas poucas as alterações que indiquem que uma mudança de fundo esteja a ocorrer. O modelo inicial, claramente assistencialista, foi sendo readap- tado aos novos tempos e às novas exigências, desenvolvendo-se um modelo mais profissi-

onalizado, com preocupações crescentes a nível da intervenção com mulheres focalizando, designadamente, os cuidados com crianças acolhidas com as mães, a multiculturalidade da população acolhida ou a doença mental e o abuso de substâncias (Flores, 2004).

Contudo, por mais adaptado que possa estar o modelo de acolhimento, é revelador de que a intervenção com a mulher, no seu sentido mais lato, parece continuar acoplada a este arquétipo institucional inicial, sendo difícil uma separação/criação de reais alternati- vas que ultrapassem a institucionalização. O facto de haver uma resposta institucional para mulheres vítimas de violência doméstica, com uma consolidação e consistência cres- centes (sendo respostas reconhecidamente positivas), leva-nos a crer, no entanto, poder estar a contribuir de modo inadvertido para a manutenção do próprio status quo interven- tivo, não incentivando a recentração no agressor, mas sim na minimização dos impactos, melhorando a qualidade na resposta à mulher. Esta minimização, no entanto, poderá con- tinuar a afigurar-se como insuficiente, pois as casas abrigo são entendidas como espaços ambivalentes (Baptista, 2003, 2004) e por vezes desadequados.

Se, por um lado, a casa abrigo se apresenta como um contexto seguro, por outro, revela-se como um dispositivo aprisionador, relembrando as instituições anteriores, continuando a servir para isolar a vítima de elementos funcionais da sua vida, o que se afigura como um elemento claramente prejudicial à própria intervenção (Haaken & Yragui, 2003; Haj-Yahia & Cohen, 2009). Marjory Fields, uma ativista americana dos direitos civis, vai mais longe referindo que:

The immediate practical solutions provided by shelters, however, have the effect of clouding the civil rights violations inherent in this response. Shelters are protective prisons where the victims and their children hide from the offender. Battered wives and their children are deprived of their liberty and their proper- ty without due process of law. They lose their home, clothing, furniture, toys, and schoolbooks. The wife beater remains at liberty to enjoy the comforts of his home and his usual associations. The offender, who almost always is male, re- ceives all the constitutional and statutory protection the legal system has devised, including the right to counsel and speedy trial. She is left with counsel to perhaps ultimately get some much delayed relief. Because the legal system cannot effec- tively restrain the offender, it violates the victim and her children. (Fields, 1978, p. 276)

Por outro lado, mesmo as melhorias nas respostas sociais a mulheres parecem não servir para impedir que situações do passado se voltem a repetir. Tal como os conventos e as outras instituições laicas estavam vocacionadas para o encaminhamento de mulheres que não cabiam nos poucos espaços sociais existentes, também atualmente as casas abrigo acolhem de forma crescente um conjunto de mulheres para as quais os técnicos de enca- minhamento não encontram solução. Esta função de “armazém social” parece implicar o risco de uma intervenção indiferenciada, traduzidas numa especificidade mais de nomen- clatura que propriamente funcional.

É interessante verificar, no entanto, que, formalmente, a intervenção institucional com mulheres reorganizada no século XX parece tentar evitar situações tipo “armazém social”, desenvolvendo respostas específicas que ultrapassam a original centrada nas questões da prostituição. Ao longo do século passado foram desenvolvidas instituições e serviços pró- prios para esta e outras questões sociais, operacionalizadas pelas políticas de cada país. Contudo, e por mais respostas institucionais existentes (lares, hospitais, prisões, casas abrigo, …) a questão da inespecificidade da resposta, com o inevitável acolhimento hete- rogéneo, parece coexistir, levando a entender que, apesar de importantes elementos in- terventivos, as instituições parecem não se assumir como “a” resposta às questões de fundo subjacentes aos acolhimentos, estando estas inseridas num espetro multidimensio- nal (social, político e económico, fundamentalmente) que as ultrapassa. Por outro lado, contudo, não sendo a resposta definitiva, apresentam-se com uma força altamente signifi- cativa, afigurando-se como um “universo simbólico” (Berger & Luckmann, 1999), que, de- vido à História e simbologia, legitimam toda uma intervenção tipificada que assenta num conjunto de necessidades protetoras da vítima e não tanto de punição do agressor.

Não se revelando como a solução ideal, as respostas institucionais continuam a investir nos mecanismos de que dispõem evidenciando alguma articulação com determinadas di- mensões deste espetro multidimensional, como é o caso das preocupações económicas que se revelam transversais cronologicamente, estando subjacentes à intervenção inicial (consideradas como elemento central para evitar o problema social de então), e permane- cendo fulcrais na intervenção atual, pois uma efetiva autonomização de casa abrigo terá, necessariamente e na maioria dos casos, de traduzir-se numa profissão (socialmente acei- te, preferencialmente). Esta preocupação parece fundamentar programas e intervenções cada vez mais específicos orientados para uma preparação vocacional e profissional, en-

tendidas como áreas de intervenção privilegiada (Brown, Reedy, Fountain, Johnson, & Dichiser, 2000), e como dimensões preditoras de revitimização (Bybee & Sullivan, 2005). A análise diacrónica, concluindo, permite perceber que a intervenção social, independen- temente do contexto socio-histórico, nunca é uma atividade simples e, fundamentalmen- te, nunca se assume como uma intervenção linear, impulsionada por motivos bem defini- dos e perfeitamente balizados. O estabelecimento de pontes para o passado permite uma atualização daquilo que consideramos ser um profundo sentido de continuidade na inter- venção social nestes últimos quatro séculos. Quando nos referimos à continuidade não a confundimos, contudo, com justaposição de objetos, pois o objeto inicial (prostituição) é, naturalmente, diferente do objeto-problema atual (violência doméstica). E sem cair na interpretação fácil, mas claramente abusiva, de que estes dois objetos-problema se tocam necessariamente, pensamos que, dados os condicionalismos e conjuntura da época, a prostituição era o objeto possível. E, com todas as limitações e perversões interventivas que, sem dúvida terão ocorrido, ofereceu à mulher alternativas, sem as quais provavel- mente teria sido mais moroso este caminho de emancipação, que terão permitido o apri- moramento da própria intervenção social, através de todos os movimentos que contribuí- ram para a emergência pública da violência doméstica, em que um objeto problema mais diferenciado é naturalmente possível.

Este contínuo que valorizamos dissolve-se, contudo, na intervenção do quotidiano, não parecendo ser reconhecido. É nossa opinião que a atualização deste fluxo temporal poderá permitir a recolocação de novas/velhas questões, particularmente se se tentar compreen- der a utilidade das intervenções anteriores (relembramos que os conventos e as institui- ções laicas não parecem ter contribuído para uma diminuição da prostituição, tendo, an- tes, contribuído para a visibilidade do fenómeno). Esta atualização deverá, igualmente, permitir um repensar dos mecanismos mais globais e equilibradores entre a intervenção mais centrada na esfera individual e a intervenção mais centrada na esfera social. A inter- venção ao nível da violência doméstica necessita de se centrar na capacitação da vítima, mas deverá igualmente promover uma capacitação social.

Capítulo V | As violências domésticas e a sua