HORÁRIA Seminário “Conceito de gênero Relações sociais de
4.1.4 Considerações sobre o curso de Serviço Social do Centro Universitário do Rio Grande do Norte (UNI-RN)
O Centro Universitário do Rio Grande do Norte121 (UNI-RN) é uma instituição privada gerenciada pela Liga de Ensino do Rio Grande do Norte e tem uma longa história no estado. A criação da Liga data do ano de 1911 quando ainda ofertava ensino exclusivo para as mulheres através da Escola Doméstica de Natal. O idealizador desse ensino foi Henrique Castriciano, que inspirado na educação tradicional suíça, trouxe a escola doméstica para a capital do RN, adequando-a a realidade potiguar e ao rigor da tradição estrangeira. Desse modo, proporcionou um ensino básico articulado ao cuidado doméstico e em aulas de etiqueta para as mulheres, reforçando a ideologia patriarcal.
Com o passar dos anos e as necessidades oriundas da expansão capitalista, a Escola Doméstica passou a ofertar ensino aos homens, se configurando no Complexo Educacional Henrique Castriciano, ao ofertar ensino infantil, ensino fundamental e médio. Mesmo com inúmeras transformações históricas no cotidiano das mulheres, a instituição mantém o perfil tradicionalista122 e continua a oferecer o ensino doméstico voltado para as alunas.
121
O curso de Serviço Social da UNI-RN está localizado no campus central, na Rua Prefeita Eliane Barros, 2000, Tirol, Natal/RN.
122
A Escola acrescentou à sua estrutura curricular disciplinas teórico-práticas diferenciadas através do núcleo de Economia Doméstica: Etiqueta Social e Profissional, Técnicas Culinárias, Organização do Lar, Casa de Prática e Puericultura. Todas elas com o objetivo de preparar a aluna para atuação em sua vida familiar, social e no mercado de trabalho. [...] A Escola continua seu pioneirismo, pois atualizou-se, equiparou-se ao ensino da modernidade, mas se manteve na tradição de valorizar aspectos especiais à condição feminina. Ver mais em: Escola Doméstica. Quem somos. Disponível em: < http://www.escoladomestica.com.br/2016/quem-somos>. Acesso em: 25 jul. 2017.
Em 1997, a instituição também passou a oferecer ensino superior, se configurando como Faculdade Natalense para o Desenvolvimento do Rio Grande do Norte (FARN). Sua última expansão, ocorrida em 2012, transformou a FARN em Centro Universitário, ofertando ensino superior em vários cursos presenciais na cidade de Natal.
Embora não seja uma universidade, os centros universitários123 oferecem uma estrutura organizacional que permite a implementação de ensino superior. Por se configurar como um centro universitário importante no estado que oferta o curso de Serviço Social, o UNI-RN foi escolhido para a nossa análise. No contato estabelecido com a instituição e com a carta de anuência cedida, nossa aproximação foi limitada no que concerne aos documentos solicitados para análise.
A solicitação pelo projeto pedagógico do curso foi negada pela coordenação, que justificou se tratar de um documento interno da instituição e que se encontra em fase de atualização. Em consulta feita pela internet, constatou-se que a versão antiga do documento não se encontra disponível para consulta, todavia, no site da instituição podemos encontrar os projetos pedagógicos de outros cursos, como fisioterapia, engenharia civil e educação física124. Dessa forma, questiona-se: Qual o motivo da não publicização do projeto pedagógico do curso de Serviço Social? Por que as instituições privadas cerceiam o acesso a estes documentos que são de interesse público de estudantes e profissionais na área?
A materialização de um projeto de educação com base em interesses do desenvolvimento capitalista permite “[...] a flexibilização dos projetos político- pedagógicos dos cursos de graduação para responder à imediaticidade do mercado e a aceleração da formação” (BARBOSA, 2014, p.663). Essa flexibilização pode ser um dos fatores que justificam o motivo das instituições privadas não permitirem o acesso ao conteúdo dos projetos pedagógicos dos cursos.
123
São centros universitários as Instituições de Educação pluri curriculares, abrangendo uma ou mais áreas do conhecimento, que se caracterizam pela excelência do ensino oferecido, comprovada pela qualificação do seu corpo docente e pelas condições de trabalho acadêmico oferecidas à comunidade escolar. São obrigados a manter um terço de mestres ou doutores e um quinto do corpo docente em tempo integral. Têm autonomia para criar, organizar e extinguir, em sua sede, cursos e programas de educação superior. Ver mais em: MEC. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/secretaria-de- regulacao-e-supervisao-da-educacao-superior-seres/perguntas-frequentes#24>. Acesso em: 25 jul. 2017.
124
Ver mais em: UNI-RN. Documentos institucionais. Disponível em: <http://ava.unirn.edu.br/20171/mod/page/view.php?id=5499 >. Acesso em 05 de agosto de 2017.
Em relação a grade curricular do curso de Serviço Social, a mesma se encontra disponível para análise na página virtual do curso125. Com isso, delimitaremos nossa análise apenas neste documento e nas informações nele contidas. Cabe destacar que seu conteúdo é bastante limitado e não permite maior compreensão da estrutura de componentes curriculares obrigatórios e optativos do curso. Com isso, podemos constatar que na matriz curricular de 2017, o curso não oferece nenhum componente curricular obrigatório com conteúdo exclusivo sobre gênero e feminismo.
Nos componentes optativos, verificou-se que a disciplina “Relações Étnico- Raciais, Gênero e Diversidade Sexual” indica trabalhar com o conteúdo supracitado. Como já informado, o documento não fornece maiores informações sobre a ementa da disciplina, nem sobre a carga horária, nem o semestre que é ofertada para as/os estudantes, impedindo desta forma, uma análise mais aprofundada. Contudo, nas entrevistas realizadas com discentes do curso de Serviço Social da UNI-RN, pudemos constatar a centralidade desta discussão para a formação profissional, com o seguinte relato.
É como a gente já conversou: a questão de gênero, desde antes d’eu começar o curso, sempre foi uma questão que eu quis trabalhar, principalmente enquanto a gente mulher enfrentar e sofrer na pele tudo o que a gente vive nessa sociedade. Então assim, já era uma temática que eu queria abordar e diante da escolha, eu não digo nem que não teria outra opção para eu escolher. Tinha que ser. (CLARA CAMARÃO, DISCENTE UNI-RN)126
A fala acima destaca a importância desta disciplina para a formação profissional das/os estudantes mesmo sendo uma disciplina optativa. A presença da discussão de gênero e feminismo no ensino traz contribuições importantes para o desenvolvimento profissional e político das/os estudantes que conseguem desenvolver a leitura crítica da realidade no sistema de exploração dominação a qual as mulheres estão inseridas. A relevância da disciplina para o Serviço Social também foi destacada no relato de uma docente da instituição, que argumenta:
Primeiro por ser uma profissão profundamente feminina, historicamente marcada por uma questão de gênero e também
125
Ver mais em: UNI-RN. Serviço Social. Disponível em: < http://www.unirn.edu.br/2016/curso/15/servico-social>. Acesso em: 25 jul. 2017.
126
porque eu acho que a questão social incide mais sobre a mulher. (DANIELE KERGOAT, DOCENTE UNI-RN)127
Na extensão, o curso de Serviço Social possibilita espaços como seminários, congressos de iniciação científica em que a temática acerca do gênero e do feminismo é trabalhada por docentes e discentes em determinadas épocas, de acordo com o calendário da instituição. Sobre a pesquisa, não identificamosnenhum projeto que trabalhasse com gênero e/ou feminismo no UNI-RN. Sobre a filiação a ABEPSS, a UNI-RN também não se encontra filiada à entidade.
Desta maneira, concluímos que, a instituição apresenta apenas uma disciplina, na modalidade optativa, para a discussão de gênero e feminismo. Embora seja importante que esta discussão seja ofertada, indicamos que ela é insuficiente para a formação profissional, pois por ser optativa, nem todas/os as/os estudantes irão cursá-la. E entendemos que essa discussão deveria se estender a todas/os estudantes de modo a contribuir com a formação e o exercício profissional.
No mais, é preciso considerar o posicionamento das instituições privadas ao negar acesso a documentos de interesse púbico as/os estudantes e profissionais de Serviço Social. Estes posicionamentos obedecem a uma lógica privatista que tem se expressado com mais intensidade nos últimos tempos. De acordo com Barbosa (2014, p.666)
A lógica mercantil passa a determinar a política educacional, na medida em que essa se torna um importante lugar para a expansão do capitalismo, para operar inversões na busca do lucro por meio da produção de conhecimento e da formação de força de trabalho especializada a partir de critérios do mercado.
É preciso questionar, cada vez mais, a finalidade desta privatização por parte das instituições, problematizando o ensino superior privado e suas estratégias de aligeiramento profissional. O acesso ao conteúdo dos cursos deve ser público e aberto a todas as pessoas interessadas e as instituições que fiscalizam a formação profissional. Já basta todos os limites impostos pela ordem do capital no acesso à educação de qualidade.
127
4.2 A CONSTRUÇÃO DE UMA CULTURA FEMINISTA NA FORMAÇÃO