O que pretendemos abordar neste capítulo são as relações entre língua,
memória, história e tradição18 como elementos constitutivos dessa linguagem que
reforça a identidade do gaúcho construído na tradição e, sobretudo, se identifica
com essa tradição. A relação entre tradição e memória é fundamental para
compreendermos como essa linguagem se define e se constitui, porque o que está na base da tradição é cultuar uma memória.
Esta mobilização de conceitos nos exige o diálogo com a Análise de Discurso de linha francesa, para que possamos fazer uma melhor definição dos mesmos. Tal passagem ocorre tão somente com o intuito de subsidiar a compreensão da reflexão que trazemos nesse capítulo sobre o que é memória no discurso pela língua, sinalizando que não é um indivíduo, mas sujeitos que fazem funcionar essa língua e como por meio desse funcionamento o que é da ordem da universalidade se
“regionaliza”, fazendo com que a linguagem gauchesca19
se diferencie da língua de outras regiões.
É necessário, portanto, fazermos uma distinção entre esses conceitos para que possamos melhor compreendê-los. Assim, para De Certeau (2006), a escrita da história trata do passado, mas também do presente e do futuro. Para ele, o passado reconstitui as sociedades e os seres humanos.
A afirmação de De Certeau nos leva a observar como se estabelecem as relações entre história e memória e no funcionamento discursivo da memória pela história. Por isso as reflexões acerca da história e da memória enquanto elementos que estão presente nessa linguagem nos ajudam a pensar e a compreender como a língua se insere na história e produz sentidos.
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NETO. João Simões Lopes. Contos gauchescos. 2. ed. São Paulo: Ática, 1998.p. 04.
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O conceito do que estamos entendendo por tradição será desenvolvido no capítulo 5.
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Venturini (2009, p. 31) diz que
na perspectiva da história o sujeito fala sempre de “um lugar” e de um tempo. Essa condição faz com que nos distanciemos da lenda e da ficção, porque são da ordem do estabilizado. A memória, ao contrário, trabalha com o que faz sentido na sociedade e permanece vivo nela. A diferença entre a memória e a história está, portanto, na estabilidade da história e na instabilidade da memória, que é da ordem do vivido.
Segundo Nora (1992), memória e história não são sinônimas, ao contrário, opõem-se. A memória é a reconstrução sempre incompleta do que não existe mais. A história diz respeito ao que significa nas formações sociais. Está em permanente evolução, aberta à lembrança e também ao esquecimento. A memória é coletiva e funciona discursivamente pela história, que tem vocação para o universal.
Pretendemos a partir do que expõem os autores, discutir como a memória constitui o sujeito gaúcho pela língua e pela história, buscando compreender as relações que se estabelecem entre língua, memória, história e tradição. Uma memória, que conforme a estamos considerando em nosso estudo, é constantemente atualizada, reposta e evocada em espaços nacionais e regionais pela constituição de uma linguagem específica.
De acordo com Seixas (2001), toda memória é, fundamentalmente, “criação
de um passado”, uma reconstrução que busca resgatar determinados acontecimentos ligados a grupos heterogêneos, aos quais interessa apreender o mundo do presente reconstruindo a sua identidade. A memória atualiza-se e é
sustentada por enunciados que retornam no presente, e pelo lugar de memória20
que guarda os vestígios da história.
A memória, na qual cresce a história, que por sua vez a alimenta, procura salvar o passado para servir ao presente e ao futuro (LE GOFF, 2013, p. 437), reconstituindo-o e atualizando-o.
A memória é a vida, sempre carregada por grupos vivos e, nesse sentido, ela está em permanente evolução, aberta à dialética da lembrança e do esquecimento, inconsciente de suas deformações sucessivas, vulnerável a todos os usos e manipulações, susceptível de longas latências e de repentinas revitalizações. A memória é um fenômeno sempre atual, um elo vivido no eterno presente: a história, uma representação do passado. Porque é afetiva e mágica, a memória não se acomoda a detalhes que a confortam; ela se alimenta de lembranças vagas, telescópicas, globais ou flutuantes, particulares ou simbólicas, sensível a todas as transferências, cenas, censuras ou projeções (NORA, p. 9, 1993).
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Para isso, uma noção fundamental para compreendê-la vem da formulação de Pêcheux (1990), segundo o qual a memória funciona na “regularização da materialidade discursiva complexa”.
Diante disso, retomando o autor (2010, p. 50), “a memória deve ser entendida aqui não no sentido diretamente psicologista da “memória individual”, mas nos sentidos entrecruzados da memória mítica, da memória social inscrita em práticas, e da memória construída do historiador”.
Para Nora (1993, p. 9), a memória é múltipla e desacelerada, coletiva, plural e individualizada. Já a história constitui a mais forte de nossas tradições coletivas, nosso meio de memória, por excelência (Ibid., p. 10). Logo, a memória transforma-se em história como continuidade e como estabilidade.
A memória, portanto, introduz o passado no presente, atualizando-o e ajudando a reconstituir a história, seja através de lembranças, esquecimentos, silenciamentos ou pela materialidade em que essa memória se expressa (monumentos, arquivos, símbolos, rituais, comemorações.) (SEIXAS, 2001). Ou ainda, remetendo ao nosso estudo, pela perspectiva de preservação, atualização, transformação ou invenção de tradições associadas ao gaúcho e que produzem uma identificação regional, ao mesmo tempo em que nos faz pensar sobre o funcionamento do encontro da memória com a atualidade.
A história é da ordem do já-dito, que é repetido; a memória é da ordem do vivido, mas que ainda faz sentido na formação social (VENTURINI, 2009, p. 216).
Memória é muito mais que uma colagem, uma montagem, uma reciclagem, uma junção. Memória é tudo que pode deixar marcas dos tempos desjuntados que nós vivemos e que nos permite a todo momento fazer surgir e reunir as temporalidades passadas, presentes e que estão por vir (SCHERER e TASCHETTO, 2005, p. 122).
Entre lembranças e esquecimentos, ao refletirmos sobre que memórias e quais discursos retornam por essa linguagem da qual estamos tratando, podemos observar a recorrência de aspectos relacionados com a história do período de defesa do território e a trajetória histórica de ocupação do Rio Grande do Sul e formação da sociedade sul-rio-grandense no século XVII, o período de ocupação militar para defesa do território com a colocação de postos militares ao longo da fronteira, o período de povoamento com a chegada dos primeiros açorianos ao
Estado no século XVIII e o período de colonização no século XIX com a vinda dos imigrantes alemães e italianos para o desenvolvimento econômico da região. Ainda no século XIX ocorre a Revolução Farroupilha, a Revolução Federalista e a Revolução de 1930 que trouxe a presença de uma figura marcante da história gaúcha, o político Getúlio Vargas. Temos uma memória de dizeres que significa esse sujeito e produz sentidos sobre ele.
Esse processo de ocupação e formação da sociedade sul-rio-grandense contribuiu para ilustrar que a presença espanhola na fronteira brasileira, neste período, foi muito marcante. Essa presença ocorreu principalmente pelo espaço geográfico pouco delimitado, pelo caráter permeável da fronteira, o que permitiu uma livre circulação de línguas e pessoas nas zonas fronteiriças, a intensificação do comércio que contribuiu para o fluxo de pessoas e mercadorias, o uso do Rio Uruguai como travessia, a falta de controle político, militar e fiscal nas comunidades fronteiriças, fazendo surgir uma linguagem pertencente a um conjunto de representações histórico-sociais e interculturais. As línguas portuguesa e espanhola eram as línguas da intercomunicação. A língua espanhola então entra na língua portuguesa, constituindo uma linguagem específica que estamos denominando como gauchesca.
São memórias que marcam recortes de um passado histórico e o atualizam pela continuidade e vigência do discurso regional, ajudando na constituição da língua e do sujeito gaúcho na história.
A partir da perspectiva de Nora (1993, p. 15), “o que nós chamamos de memória, é de fato, a constituição gigantesca e vertiginosa do estoque material daquilo que nos é impossível lembrar, repertório insondável daquilo que poderíamos ter necessidade de lembrar”.
A memória, como pontua o autor, é viva e está em permanente evolução, sempre vulnerável tanto à lembrança quanto ao esquecimento.