Entre todos os serviços visitados, apenas um não possui equipe multidisciplinar (ONG 5), sendo uma unidade pequena, com envolvimento de poucos profissionais. Isso demonstra o rico potencial profissional que o enfrentamento da violência vem propiciando no país. Contudo, o perfil e a manutenção dos pro-fissionais difere segundo a natureza do serviço ser ou não gover-namental.
Os CRITÉRIOS DE SELEÇÃO para a contratação de profissi-onais definidos pelas ONGs são, em geral, mais detalhados e exigentes, refletindo a maior autonomia que têm sobre todo o processo seletivo. Nas OGs há muito mais um arranjo interno de profissionais pertencentes ao serviço público, ocorrendo freqüentemente a adesão daqueles que se interessam pelo aten-dimento à violência e/ou indicações de superiores. Chama a atenção o processo seletivo de uma ONG pela criatividade: uma situação problema é apresentada e pede-se que o candidato faça o encaminhamento do caso. Esse mesmo serviço exige, para determinadas categorias profissionais, a elaboração de um projeto de intervenção. Agregando todos os critérios gerais
lorizados para a escolha do profissional a ser absorvido pelas instituições, temos:
• formação técnica teórica e experiência na área da infân-cia, adolescência e família;
• experiência e disponibilidade interna para lidar com pes-soas em situação de vulnerabilidade social;
• identificação com o trabalho social e comunitário; • disponibilidade para o trabalho em equipe multidisciplinar;
• facilidade no estabelecimento de vínculos nas relações interpessoais com a equipe e com o público atendido;
• habilidade para atuar articuladamente com a rede social de apoio;
• disponibilidade afetiva para o trabalho com crianças, adolescentes e famílias que vivenciaram situação de violência psi-cológica, física e ou sexual.
• comprometimento pessoal, responsabilidade e compor-tamento moral e ético;
• perfil dinâmico, criativo, espírito de liderança, autono-mia;
• disponibilidade para momentos de planejamento e ava-liação sistemática, acompanhada de estudo de caso supervisiona-do;
• inclusão em processo psicoterapêutico ou que tenha se submetido ao mesmo (critério direcionado especialmente para a seleção de psicólogo);
• envolvimento permanente em processos de formação que o capacite para as questões da infância, adolescência e famí-lia no contexto da violência;
• habilitação em curso de especialização em violência doméstica contra criança e adolescente, e/ou especialização em terapia familiar sistêmica;
• capacidade de realizar estudos e pesquisas que subsi-diem a formulação de políticas e ações.
A maioria dos serviços relata que seus profissionais possuem CAPACITAÇÃO para o atendimento de crianças e adolescentes vítimas de violência e seus familiares. Apenas em dois serviços a
busca por capacitação é um esforço individual do profissional; a explicação dada para a inexistência de capacitação coletiva decor-re do fato de que a ONG 5 conta com trabalho voluntário e a OG2 não considera o atendimento às vítimas de violência como priori-dade. As OGs 3 e 5, que são serviços públicos hospitalares, se destacam por referirem que a capacitação de seus profissionais foi buscada individualmente ou em grupos, não sendo uma ativi-dade rotineira do serviço a formação dos seus técnicos.
Os demais tomaram a capacitação como parte da atuação do serviço. A maioria teve um momento de capacitação anterior (en-tre 1997 e 2002) para toda a equipe. Encontros regulares de capacitação mensais ou quinzenais foram descritos pelas organi-zações não-governamentais. Aulas, seminários, cursos, grupos de estudo, estudo de casos, sociodrama, supervisão, fóruns de de-bates, estímulo à participação de eventos e apresentação dos tra-balhos desenvolvidos na instituição são formas de aperfeiçoa-mento profissional mencionadas. A equipe das duas instituições investigadas na região 4 esteve matriculada em curso de especia-lização sobre violência doméstica, adquirindo importante referencial teórico. Mesmo assim, uma profissional dessa região (OG 4) la-menta não ter na equipe alguém com formação em terapia famili-ar, mostrando o quanto o atendimento à violência familiar neces-sita realmente de um enfoque interdisciplinar. A ONG 3 tem a formação de educadores sobre a problemática da violência contra a criança e o adolescente como uma de suas prioridades, manten-do um curso permanente para a equipe.
Embora as instituições de natureza não-governamental apre-sentem maior flexibilidade nos seus recursos para o investimento na seleção e contratação de recursos humanos, possuem maiores dificuldades na manutenção do seu staff. As OGs contam a seu favor com a possibilidade de manutenção das equipes, estabilida-de que a médio e longo prazo poestabilida-dem propiciar o estabilida-desenvolvimento de metodologias de trabalho e do conhecimento teórico-prático. No anexo apresentamos uma lista com referências bibliográficas e filmes citados pelas equipes como apoio para sua formação. Acre-ditamos que o material pode ser muito útil aos demais serviços atuantes nessa área.
O PERFIL DAS EQUIPES DE PROFISSIONAIS que trabalham nas instituições não-governamentais é variado segundo a região do país: as ONGs 2 e 5 são as menores, com apenas 4 e 6 profissionais; em posição intermediária está a ONG 3, com 13 pessoas. As duas mais amplas organizações são as ONGs 1 e 4, com 34 e 20 profissionais, respectivamente.
A maioria dos profissionais que trabalha nas ONGs possui nível superior, predominando a formação em psicologia, seguida por serviço social e pedagogia. A presença de formação em psi-quiatria e nutrição foi mencionada apenas por um serviço. Entre os profissionais que ocupam outros cargos, estão: secretárias, recepcionistas, educadores sociais, técnicos em contabilidade ou contadores, motorista, cozinheira, tecelã e estagiários de diversas formações profissionais. O vínculo trabalhista mais freqüente é a contratação via CLT (Consolidação das Leis de Trabalho), seguido pela prestação de serviços específicos. O voluntariado surge como a opção colateral para a maioria das unidades, sendo contudo a principal forma de absorção de profissionais da ONG 5, onde ape-nas uma pessoa é funcionária. A opção de convênios que possibi-litam o pagamento de pessoas via RPA (Recibo de Pagamento a Autônomos) para trabalhar na unidade foi pouco mencionada.
Todas as ONGs contam com o apoio de estagiários na equipe, especialmente dos cursos de psicologia, serviço social e pedago-gia. Em menor freqüência também foi mencionada a presença de alunos dos cursos de letras, história, educação física e design gráfico. Além de colaborar para garantir a multiprofissionalidade das equi-pes, a estratégia é importante uma vez que permite a troca com universidades e colabora para a formação de futuros profissionais da área. As atividades por eles desempenhadas dependem das ações oferecidas nas instituições. Dão apoio psicossocial na sala de brin-quedo, no atendimento psicoterapêutico, nas entrevistas com pais e visitas domiciliares, nas oficinas de prevenção realizadas na co-munidade, nas atividades de lazer e no reforço escolar de crianças e adolescentes com dificuldades de aprendizado.
A carga horária dos profissionais das ONGs é muito variada, de 4 a 40 horas semanais, com exceção dos voluntários, que
ficam tempo restrito nas unidades. As variadas formas de vinculação apontam para as inúmeras dificuldades de sobrevivên-cia dessas organizações, que precisam constantemente angariar fundos para a manutenção de suas equipes. A remuneração que oferecem também é variada, dependendo da carga de trabalho despendida na unidade. É mais comum observar profissionais de nível superior recebendo acima de 7 salários mínimos por 40 horas de trabalho e profissionais de apoio recebendo entre 1 e 3 salários mínimos. Duas ONGs (1 e 5) mencionaram o pagamento de 1 salário mínimo para profissionais menos qualificados.
As dificuldades enfrentadas pelos profissionais que traba-lham em instituições governamentais são de outra ordem. A maio-ria que trabalha em hospital possui nível superior e é funcionário público. A OG 4 agrega outros profissionais associados a uma cooperativa. A prestação de serviços e a contratação via CLT são estratégias também utilizadas para esse fim, face à dificuldade de contratação existente no serviço público. Os assistentes sociais são a categoria profissional predominante, seguidos pelos psicó-logos, médicos e enfermeiros. Outras profissões atuam na equipe interdisciplinar, tais como nutricionista, farmacêutico, terapeuta ocupacional.
O regime de trabalho é variado, oscilando de 12 a 40 horas semanais, sendo que uma unidade ambulatorial possui regime de plantão 12/36 horas. A remuneração para aqueles que possuem nível superior e trabalham 40 horas é de mais de 7 salários míni-mos. Profissionais cooperativados recebem um pouco menos. Pro-fissionais de pouca qualificação profissional recebem um salário mínimo (OG 1).
Apenas duas organizações governamentais contam com a ajuda de estagiários (2 e 5), indicando lacunas nesse tipo de investi-mento. Há nesses dois serviços estagiários de especialidades da área da saúde: medicina (incluindo psiquiatria), enfermagem e fisi-oterapia.
A COMPOSIÇÃO DA EQUIPE foi considerada uma grande dificuldade pelos profissionais da maioria das instituições,
sen-do comum a insuficiência de pessoal frente às demandas sen-do atendimento. As ausências mais sentidas são as dos profissio-nais da área de saúde mental (psicólogos e psiquiatras). Consta-tamos também a escassez de especialistas em terapia familiar.
Outra sorte de problemas é a troca constante de profissio-nais, que contribui para a falta de coesão de equipe e torna mais difícil a manutenção da continuidade do atendimento. Essa troca de profissionais ocorre por diferentes motivos. No caso das OGs, há casos de mudança de lotação do servidor ou saída da equipe por considerar o salário inadequado para as funções realizadas. Já em relação às ONGs, nem sempre é possível man-ter a contratação de serviços prestados, uma vez que, às vezes, a fonte dos recursos cessa quando finda um projeto financiado por um órgão de fomento. Essas dificuldades conformam um problema de sustentabilidade institucional, como será visto mais adiante.
A experiência com pessoal voluntário é problemática, especi-almente devido à precária assiduidade e a dificuldades no cumpri-mento dos compromissos assumidos (ONG 5).