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Capítulo 1 Conhecimento de plantas alimentícias em cinco comunidades da

1. Introdução

4.1. Consumo de plantas e o contexto alimentar

Nas entrevistas realizadas com o recordatório 24 horas para registro de dieta, as mesmas famílias das listagens livres foram convidadas a participar e todos os que estavam presentes na casa no momento da entrevista foram solicitados. O número de entrevistados por família variou entre um e sete. Assim, esta etapa de coleta de dados totalizou 249 entrevistados, pertencentes a 69 famílias, sendo 94 crianças e jovens (menores de 18 anos), 83 mulheres e 72 homens.

Foi registrado um total de 73 plantas consumidas no período de estudo de campo realizado. Destas, cará-roxo e cará representam variedades da mesma espécie, bem como pimenta-ardosa (murupi) e pimenta-cheirosa, totalizando assim 71 espécies. Este total de plantas consumidas no período da pesquisa corresponde a 32,27% das espécies conhecidas identificadas nas listagens livres e turnês-guiadas, que contabilizaram 220. A única espécie consumida não mencionada nas listagens livres foi Aniba canelilla (Kunth) Mez (preciosa), cuja madeira é consumida sob a forma de chá. Este resultado demonstra que menos da metade do conhecimento tradicional associado às plantas alimentícias foi de fato consumido, degustado, assimilado durante o período de levantamento dos dados. Alguns autores discutem que a discrepância entre conhecimento teórico e uso atual (conhecimento prático) de plantas pode representar erosão do conhecimento tradicional (Byg e Balslev 2001; Ladio e Lozada 2004; Reyes-García et al. 2005; Srithi et al. 2009). Acrescentamos, neste caso, que o conhecimento teórico existe, é rico e presente nas diferentes faixas etárias, como descrito no capítulo anterior, porém o efetivo consumo deste conhecimento é limitado e tentaremos discorrer a seguir sobre suas possíveis causas e consequências.

A maior riqueza das plantas registradas é consumida como frutos na merenda, em seguida, no almoço e jantar, principalmente sob a forma de temperos ou cozidos. O café da manhã é a refeição com menor riqueza de vegetais, com destaque para a

banana frita, consumida com frequência e muito apreciada. A diversidade de frutos in

natura relatada corresponde ao encontrado para o conhecimento de plantas

alimentícias, no qual também se destacam os frutos e a forma de consumo in natura (Figuras 20 e 21).Esta forma majoritária de consumo é relatada de forma recorrente na literatura, sendo menos mencionado o consumo de órgãos tuberosos, sementes e folhas pelas populações da Amazônia (Katz et al. 2012; Dufour et al. 2016).

Figura 20. Riqueza de espécies por refeição mencionadas no recordatório 24 horas pelas cinco

comunidades da RDS Piagaçu-Purus participantes. Número absoluto de espécies consumidas citadas para cada refeição e suas partes alimentícias. N=71.

0 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50

Café da manhã Almoço Merenda Jantar

Nú m er o d e esp éc ies

Riqueza de espécies por refeição

órgão tuberoso semente fruto folha caule

Figura 21. Formas de preparo nas refeições mencionadas pelas cinco comunidades da RDS

Piagaçu-Purus participantes. Porcentagem das formas de preparo citadas para cada refeição.

Por outro lado, no que diz respeito à frequência do consumo destas espécies mencionadas, observa-se a concentração destas no almoço e jantar, sob a forma de temperos e farinha, ou seja, apesar da maior diversidade de plantas consumidas terem sido relatadas para a merenda, o almoço e o jantar concentram o consumo em quantidade, porém com diversidade menor de plantas (Figura 22). Portanto, o momento em que se consome maior quantidade de vegetais é nas principais refeições, ainda que de forma monótona, prevalecendo os temperos como a chicória, alho, cebola, cebola-de-palha e coloral, enquanto a merenda é, por sua vez, responsável pela diversidade deste consumo (Murrieta e Dufor 2004). É relatado que a baixa diversidade alimentar pode contribuir para valores subótimos de micronutrientes como zinco, ferro, cálcio e vitamina C (Yuyama et al. 2008; Dufor et al. 2016) e que sistemas tradicionais de alimentação contribuem para a diversidade e nutrição em populações na Amazônia, daí a importância em valorizá-los (Roche et al. 2007).

Figura 22. Frequência das espécies consumidas mencionadas pelas cinco comunidades da RDS Piagaçu-Purus participantes. Porcentagem de citações de espécies consumidas em cada refeição em relação ao total geral de citações de consumo (N=5497).

Se os vegetais já não são a parte mais relevante da dieta das populações na Amazônia, e estes são consumidos de forma esporádica e pouco diversificada, é interessante atentar para os 67,73% do conhecimento botânico registrado nas entrevistas que não foram para a mesa, no período de coleta de dados. Este resultado perpassa a sazonalidade a qual o consumo de vegetais, principalmente frutos, está submetido na região amazônica. Durante as entrevistas, muitos participantes alertaram para o fato de que a época das frutas mais consumidas na mata corresponde ao “tempo da castanha”, que se estende principalmente do mês de janeiro a junho, quando muitos trabalham na coleta e venda dos frutos de Bertholletia excelsa Bonpl.

Em relação ao regime hidrológico, este tempo corresponde ao da enchente do rio Purus, e apesar de não terem sido coletados dados sobre a dieta nesta época, as comunidades foram visitadas no mês de março, e havia então maior diversidade de frutos nas casas, principalmente do açaí (Euterpe spp.), uixi (Endopleura uchi (Huber) Cuatrec.) e piquiá (Caryocar villosum (Aubl.) Pers.). Ressalta-se a importância de realizar levantamentos de dieta nesta época do ano, quando possivelmente o número de registros dos vegetais consumidos será mais elevado.

Apesar de a fenologia das espécies ser variável entre as regiões da Amazônia e nos diferentes ambientes dentro da mesma região de floresta, dados compilados na literatura (FAO 1986; Shanley e Medina 2005; Cavalcante 2010) sobre a frutificação de espécies alimentícias silvestres coletadas apresentam um panorama dos períodos de maior e menor disponibilidade de frutos (Figura 23).

0 % 10 % 20 % 30 % 40 % 50 % 60 %

Café da manhã Almoço Merenda Jantar

P o rcen tag em d e citaçõ es d e es p écies

Figura 23. Frutificação de espécies silvestres mencionadas nas listagens livres sobre plantas

alimentícias pelas cinco comunidades da RDS Piagaçu-Purus participantes e hidrologia do rio Purus. Número de algumas espécies silvestres coletadas nas turnês-guiadas possivelmente em fruto ao longo do ano, considerando os meses de frutificação das mesmas, compilados na literatura. Número de espécies consideradas = 86. Fonte: Haugaasen e Peres (2006).

Assim, é possível observar que a maior disponibilidade de frutos ocorre nos meses correspondentes à enchente (novembro-maio) e cheia (maio-julho) do rio Purus. Os meses de vazante (agosto) e seca (setembro-outubro) possuem menor número de espécies em possível frutificação. Nestes meses destacam-se as plantas cultivadas com capacidade de frutificar diversas vezes ao ano como Inga edulis Mart; Theobroma

cacao L; Garcinia brasiliensis Mart; Theobroma speciosum Willd. ex Spreng; bem

como espécies cuja frutificação coincidem com esta estação como Mangifera indica L;

Anacardium occidentale L; Pouteria caimito (Ruiz & Pav.) Radlk; Genipa americana

L.

A sazonalidade da dieta representa um vínculo entre a alimentação humana e o ciclo das florestas e dos ambientes naturais, e, portanto, deve ser respeitada. Comer o que o ambiente circundante pode produzir minimiza os impactos da agricultura sobre os recursos naturais e o trabalho necessário para a produção, sendo a regionalidade e sazonalidade um dos preceitos agroecológicos de produção de alimentos (Khatounian 2001). Desta forma, ressalta-se a importância do incremento de plantios e manejo das espécies silvestres próximos às casas, nos roçados ou sítios, as quais diversificam a produção e o consumo, proporcionando matéria-prima para consumo nas diferentes estações do ano, na tentativa de conciliar, enfim, biodiversidade e segurança alimentar (Chappell e LaValle 2011).

Para além disso, o baixo consumo de vegetais é historicamente registrado, não sendo a diversidade destes a fonte principal de energia para as populações nativas da Amazônia, as quais baseiam a dieta em peixes, como fonte proteica e farinha de mandioca e banana como fonte de amido (Cascudo 2011; Dufour et al. 2016). As demais plantas, porém, são consumidas esporadicamente e denominadas “alimentos secundários”, através de plantio ou extração da mata (Murrieta 2001; Alencar et al. 2002; Murrieta e Dufor 2004; Adams et al. 2005; Murrieta et al. 2008; Dufour et al. 2016).

A importância do consumo de plantas silvestres na Amazônia é mais esclarecida entre populações ribeirinhas em relação a indígenas e estima-se que cerca de 16% da energia consumida seja proveniente destas plantas (Dufour et al. 2016). Apesar desta porcentagem relativamente baixa na contribuição em energia, as plantas silvestres são importantes fontes de micronutrientes, especialmente betacarotenos (como Mauritia flexuosa L.f.) e antioxidantes (como Euterpe spp.), algumas são boas fontes de lipídios (como Poraqueiba sericea Tul.) (Dufour et al. 2016). Da mesma

forma, plantas cultivadas são fontes de micronutrientes como vitamina C (especialmente Citrus spp., mas também Anacardium occidentale L., Mangifera indica L., Psidium guajava L. e Theobroma cacao L.) e pró-vitamina A (como Bactris

gasipaes Kunth), bem como de macronutrientes, especialmente carboidrato (Dioscorea trifida L.f., Zea mays L., Musa x paradisiaca L.) (Dufour et al. 2016).

Atualmente, além da variável das estações do ano, da ecologia da floresta, da fenologia das espécies e dos hábitos alimentares cultural e historicamente construídos, insere-se a variável da transição nutricional, uma vez que as comunidades passam a ter alto acesso a produtos ultraprocessados que acabam por substituir espaços antes preenchidos por plantas alimentícias na dieta (Popkin 1993; Cerda 2014). Com a vivência nas comunidades foi mais observado o consumo de sucos em pó do que sucos de fruta, ainda que disponível próximo às comunidades. Da mesma forma, como relatados pelos mais velhos, o mingau de macaxeira, banana verde ou carimã, vem sendo radicalmente substituídos por amidos de milho ou arroz industrializados na alimentação de crianças. As merendas da tarde são mais facilmente compradas nas vendas sob a forma de salgadinhos do que coletadas na mata. Não que os produtos industrializados sejam novidade para estas populações, pois estão presentes na dieta desde os tempos de exploração da seringa (Loureiro 1981).

Porém, estes deixaram de ser itens básicos como o açúcar, o café e o óleo e passaram a ser também itens secundários, como o salgadinho e o suco em pó e tomam o espaço antes ocupado por frutas, sobretudo nas merendas entre as refeições principais. Entre exemplos, podemos citar itens mencionados pelos entrevistados mais idosos, como o leite do amapá antes consumido com café, o coloral feito com urucum, os tubérculos cozidos do café da manhã e o próprio melado da cana-de-açúcar, atualmente todos substituídos por “similares” industriais. Os produtos que chegam nas prateleiras de todas as comunidades participantes são os mesmos, ainda que comprados em cidades diferentes. A dieta, portanto, não tem como ser diversificada se depender apenas dos comércios. A chegada de produtos ultraprocessados nas vendas e o acesso facilitado a estes pelos programas de transferência de renda favorecem o processo de transição nutricional que estamos vivendo associado a uma mudança de estilo de vida (Byg e Balslev 2001; Reyes-García et al. 2005).

Alimentos a base de trigo (farinha) e soja (óleo) são consumidos diariamente, mas não foram considerados para a análise de dados deste trabalho. Porém, vale acrescentar que trigo e soja são plantas praticamente desconhecidas pelas comunidades, e não foram mencionadas nas listagens livres do capítulo anterior. Este distanciamento da matéria-prima da alimentação faz parte do processo de transição nutricional, da homogeneização alimentar e afeta comunidades rurais mesmo na Amazônia, um dos lugares mais biodiversos do mundo.

Estudos já discutiram a influência que programas de transferência de renda causam no modo de vida de comunidades tradicionais, e na alimentação não é diferente (Piperata et al. 2011; Brasil 2015). A introdução destes programas nas comunidades é importante para inserir populações em vulnerabilidade social ao mercado e tornar mais acessíveis produtos antes muito difíceis, caros ou laboriosos. Esta introdução de renda, porém, associada a uma tendência de desvalorização cultural dos povos tradicionais, pode levar a mudanças que afetam a saúde, o bem-estar, a identidade e a autonomia destas comunidades (Leite 2007). A mudança dos hábitos alimentares de produtos extraídos da mata, quintais ou roçados para produtos oriundos da indústria alimentícia, ainda que apenas entre as refeições, pode representar uma ameaça à segurança alimentar das comunidades, que passam a depender de alimentos de baixa qualidade, advindos exclusivamente por relações monetárias e que contribuem para a desvalorização da cultura e dos produtos regionais. Apesar de o

enfoque deste estudo ser o consumo de plantas, foi observado um amplo consumo de carnes enlatadas e embutidos, e estes nas refeições principais, o que leva a crer que a lógica aqui discutida é generalizada.

A merenda escolar não foge à regra, e o cardápio oferecido pelas prefeituras dos municípios são baseados em itens processados, enlatados ou congelados (Apêndices). Nas comunidades de acesso irregular, a merenda escolar é raramente oferecida, e foi relatado que o recebimento ocorreu apenas duas vezes durante ano, quando deveria ser mensal. Nas comunidades de acesso ocasional e de acesso constante a oferta de merenda é suprida com maior regularidade, ainda que inconstante. Nenhum produto do cardápio é adquirido dos produtores locais, e as merendeiras acrescentam de forma independente temperos trazidos de suas próprias hortas às preparações pré-definidas pelo cardápio escolar, na busca de manter o sabor da cultura local.

Em um processo lento, porém crescente de uma “colonização alimentar”, as comunidades de pescadores, agricultores e agricultoras vendem seus produtos extraídos ou cultivados e compram e consomem produtos industrializados de baixa qualidade, vendem pirarucu para comprar salsicha, trocam cupuaçu por suco em pó. Leite (2007) observa a mesma tendência na alimentação Wari’ e discute que estas mudanças de hábitos no sentido de uma alimentação industrializada não afetam apenas a saúde ou as condições nutricionais da população, apesar de um notável aumento na ingestão de açúcar, sal e óleo por exemplo, mas também exige um investimento temporal maior na produção da qual o povo depende para se inserir no mercado, seja esta a agricultura ou a pesca. A venda deste excedente de produção para a qual é preciso dedicação e tempo é o que fornecerá a possibilidade de compra dos industrializados.

No caso da produção ser a agricultura, há, ainda, a disputa de terras agricultáveis que poderiam estar sendo utilizadas para a produção diversificada de alimentos para o consumo próprio (Khatounian 2001). Assim, seria interessante investir em redes e políticas públicas que integrassem a produção e o consumo local, valorizando a cultura e o trabalho dos comunitários, e neste sentido a merenda escolar desempenha um papel chave porque conecta a produção dos adultos com o consumo das crianças.

Conforme a Lei nº 11.947/2009 (Programa Nacional de Alimentação Escolar), no mínimo trinta por cento dos produtos adquiridos para a alimentação escolar devem ser oriundos da agricultura familiar, sendo preferencialmente orgânicos e priorizando assentamentos da reforma agrária e comunidades tradicionais, dispensando para estes o processo licitatório, desde que os preços sejam compatíveis com o comércio local e que atendam aos critérios de qualidade. Segundo Saraiva et al. (2013), a maior dificuldade para a compra de agricultores familiares é a inviabilidade de fornecimento regular e constante dos produtos. Este motivo aponta para a demanda de articulação entre agricultores e necessidades do cardápio escolar, destacando o planejamento e adequação deste último como fator chave para que esta relação se torne efetiva.