CAPÍTULO II | ENQUADRAMENTO TEÓRICO
1. DESIGN E SUSTENTABILIDADE
1.6. Design no âmbito da sustentabilidade
1.6.1. Contexto e Precursores do Design para o Ambiente
Para melhor compreendermos ambiente ou sustentabilidade é necessário analisar o modelo de desenvolvimento em que a nossa sociedade está assente e que advém da revolução industrial. É um modelo que se baseia em três premissas: (1) crescimento permanente, ou seja não há desenvolvimento se não houver crescimento económico; (2) existe uma abundância quase infinita de recursos; (3) é fácil e barato obter e transformar esses recursos, pois não é necessário pagar ao fornecedor Terra e existe muita mão-de-obra. Sabemos hoje que estes três factores não são totalmente verdadeiros e que nos têm trazido alguns efeitos secundários perniciosos, pois é impossível uma sociedade viver num planeta finito e continuar a crescer ad eternum mantendo uma utilização desregrada dos recursos.
DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL CONSUMO PRODUÇÃO DESIGN SUSTENTÁVEL ECODESIGN DESIGN DE PRODUTO + ASPECTOS AMBIENTAIS + ASPECTOS SOCIAIS/ÉTICOS
Apesar deste modelo de desenvolvimento ter trazido um grande aumento de bem-estar e qualidade de vida, tem também provocado problemas ambientais e sociais significativos. Temos 20% da população a consumir 80% dos recursos; e se os restantes 80% da população conseguirem obter o mesmo nível de vida da mesma forma, iremos acentuar a catástrofe ecológica já em curso, e se apenas uma parte desses conseguirem e a maioria não, teremos uma catástrofe social (Vezzoli e Manzini, 2008).
Com a revolução industrial nasceram também movimentos filosóficos que reflectiam sobre as suas implicações sociais, morais, éticas e ambientais, quer sobre a Humanidade quer sobre o planeta. Assim, a fundação da sustentabilidade assenta sobre a ligação do ser humano com a natureza, tal como foi expresso no movimento transcendentalista no início do séc. XIX por Henry David Thoreau e Ralph Waldo Emerson que acreditavam na apreciação da natureza pelo seu simbolismo e espiritualidade e que ela devia servir de guia para a evolução humana (Edwards, 2005). Thoreau é por muitos considerado um dos avós do ambientalismo. Já no final do séc. XIX, e por influência dos anteriores, dá-se o movimento naturalista ou conservacionista, que tem como figura principal John Muir. Este movimento via a natureza de forma mais pragmática como um ecossistema com um valor intrínseco e que serve de base à nossa sobrevivência, no qual nos integramos e que portanto deve ser conservado. Assim, um dos legados do séc. XIX para o seguinte seria a necessidade de termos uma abordagem ética baseada no respeito pela natureza (Edwards, 2005).
Por esta altura o movimento Arts and Crafts visava promover a qualidade, não só material mas também intelectual, do trabalho artesanal face à industrialização e prover de algum sentido e autenticidade a produção de objectos, que deixou de existir devido ao afastamento entre a indústria e a Natureza (Morris, 2008). Apesar do objectivo de criar produtos plenos de significado e beleza para todos e a preços acessíveis ter fracassado, esta visão de utilizar a produção artística como guia para a produção industrial perdurou em grande parte através da actividade do design, nomeadamente na Deutsche Werkbund e na Bauhaus que ajudaram a definir a profissão de designer nos termos genéricos que a entendemos hoje, nesta mescla de integração artística com incorporação da normalização e simplificação industrial (Bürdek, 2006).
Como forma de recuperação da economia mundial, particularmente da europeia, no pós-2ª Guerra Mundial foram definidos instrumentos de apoio à recuperação económica, como o Plano Marshall. Esta foi uma era marcada por um grande crescimento económico, em que o fomento do consumo teve um papel importantíssimo na recuperação económica e social. Com o aumento de confiança as economias desenvolveram-se de forma muito superior ao período pré-guerra, o que aumentou a quantidade de produtos consumidos e a rotatividade dos mesmos. O design ajudou a este processo através de exercícios de styling e ao desenvolver o conceito de obsolescência planeada, pois existia um grande aprimoramento formal que mudava regularmente mediante factores de moda (Julier, 1993b). O styling dos Cadillacs e o trabalho de Raymond Lowey são os exemplos mais emblemáticos deste modus operandi.
No entanto, a consciência de que este tipo de acções não seria a mais adequada não se fez esperar e ainda durante a década de 50 o arquitecto Richard Neutra escreve Survival through design onde exortava “uma abordagem não comercial para o design”, seguido dos livros de Vance Packard, nomeadamente The Waste Makers (Packard, 1963), onde é criticada a influência da sociedade de consumo, insurgindo-se o autor contra a obsolescência planeada do desejo. Outro dos principais
Contributos para uma Metodologia de Design Sustentável Aplicada à Indústria do Mobiliário: O Caso Português 50
precursores do design com preocupações ambientais e sociais foi Buckminster Fuller, que desde a década 30 (e até aos anos 80) expõe as suas preocupações, desenvolvendo vários produtos, conceitos e teorias que vão de encontro a uma utilização mais eficiente e uma melhor disponibilização dos recursos.
O nascimento do movimento ambientalista moderno nos anos 60, que muitos atribuem ao livro pioneiro de Rachel Carson, Primavera Silenciosa, de 1962 (Carson, 2000) levou a uma maior consciência dos problemas ambientais por todo o mundo, alertando a sociedade para os erros do actual modelo de actividade económica sem responsabilidade ambiental e social. A percepção de que estamos num planeta finito foi solidificada em 1968 quando a NASA tirou uma fotografia à Terra (Gore, 2006), onde, pela primeira vez na história, a podíamos ver suspensa e sozinha no silêncio do espaço. No entanto, a consciencialização de estarmos a poluir e destruir os recursos só foi possível devido aos avanços técnicos que permitiram detectar substâncias tóxicas no ambiente (Lovelock, 2001). Este facto demonstra bem a dualidade existente na evolução das sociedades que permite a ocorrência destes paradoxos.
Na década de 60 já era notório que os princípios modernistas utilizados em vários países não foram capazes de responder à mudança de paradigma da sociedade de consumo do pós-guerra e as questões relacionadas com os efeitos da produção em massa no ambiente e na sociedade foram deixados para um grupo de ecologistas pós-modernos e designers alternativos (Fuad-Luke, 2009). Começavam assim a desenvolver-se alguns movimentos e debates na área do design para que os designers considerassem o seu impacte na economia, no ambiente e na sociedade. O auge deste momento é o lançamento do livro de Victor Papanek Design for the Real World em 1971, onde o design é apresentado como uma das profissões que mais potencial tem para prejudicar tanto o ambiente natural como o ambiente humano. Papanek refere, inclusivamente, no prefácio, que existem poucas profissões mais “prejudiciais” que a de designer industrial.
Papanek define a profissão de designer e o impacte que ela tem, não só ambientalmente, mas também social e economicamente traçando uma visão negra da actividade tal qual estava e apontando caminhos através da inovação, do olhar para a natureza, da ética e responsabilização do designer, através da educação dos designers e também pela utilização de materiais e processos que causem um menor impacte no ambiente. É, portanto, um conceito de design responsável com uma grande componente ambiental, ética, social e com uma visão mais focada na resolução de problemas reais do que no desenvolvimento de produtos efémeros. Esta visão integrada dos problemas viria a ser desintegrada mais tarde num extremismo ambientalista nos anos 90, apenas para ser recuperada já no novo século.
A complementar o impacte das afirmações de Papanek, o lançamento do relatório do Clube de Roma sobre os limites do crescimento e do consumo de recursos, o choque petrolífero e a realização da 1ª Conferência das Nações Unidas sobre o Ambiente Humano em 1972 em Estocolmo – da qual sairá o Programa Ambiental das Nações Unidas (UNEP) – fomentaram o aparecimento dos primeiros trabalhos científicos sobre preocupações ambientais e das primeiras legislações ambientais, ainda que focadas em soluções de fim-de-linha para evitar a poluição. Assim, no final dos anos 70 já era considerado inaceitável descarregar resíduos perigosos no solo ou na água ou mesmo queimá-los.
Este contexto permitiu, apesar de forma ainda minoritária, o desenvolvimento da consciência ambiental e social dos designers e com ela a possibilidade de criação das primeiras ferramentas e processos de avaliação do impacte ambiental.