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Contar histórias é uma arte ancestral, cujo fascínio sobre o ser humano permanece, ao longo do tempo, colaborando para a consolidação do imaginário coletivo e enredando narradores e ouvintes em uma mesma trama. Desde a in- fância e por toda a vida, ela faz parte da construção da identidade e da afetividade. Nesse sentido, a fabulação nos possibilita experimentar o prazer de perceber o mundo e a existência por meio de representações que nos levam a conhecer outras realidades, e a refletir, transcender e desen- volver uma acuidade sobre o real, nos habilitando a perce- bê-lo sob um olhar renovado. (MIRANDA, 2015, p. 9)

e a arte de contar histórias esteve sempre presente na história da humanidade, ela deve ser cultivada, com um ato prazeroso e ne- cessário. Por meio dela viajamos no mundo da imaginação, pois as histórias transportam o ouvinte para uma viagem, onde palavras novas são aprendidas, músicas são ouvidas e cantadas e culturas são conhecidas. “Du- rante a leitura ou escuta de uma história pode haver uma variedade muito grande de experiências misteriosas que, quando pequena, a criança conhece muito bem e com as quais tem familiaridade”. (MACHADO, 2004, p. 28). Vem à memória a experiência poética de Gilka Girardello (2012) dizendo que seu avô se entregava ao convívio com uma criança e a entregava a chave para abrir as portas para alegrias surpreendentes. E, podemos dizer que, não somente para a criança, mas também para o adulto.

A contação de histórias nos propicia ir além do tempo! É um momento que possibilita o reverberar sobre nossa infância, da possibilidade de revi- ver momentos já adormecidos.

Não contar por contar, mas arrebatar, ter um olhar sensível, de amor. Con- cordando com Freire (2006, p. 92), é a dialogicidade, o amor é também conversa, “[...] é ato de coragem, nunca de medo, o amor é compromisso com os homens [...]. O ato de amor é comprometer-se com a causa. A causa da libertação. Mas, este compromisso, porque é amoroso, é dialógico”. Acontece também ao con- tar histórias, quando a proximidade do diálogo acontece.

A narrativa está presente na vida do ser humano desde a mais tenra idade com histórias contadas pelos pais narrando o que vai acontecendo ao bebê, e assim, o mundo para ele, seja através de criações musicais que os pais muitas vezes “compõem” para ninar seus filhos e que mais tarde vão dando lugar às cantigas de roda ou às narrativas curtas sobre curiosidades vivenciadas pelos pequenos.

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No passado distante, não havia uma literatura voltada para crianças. Os contos eram narrados pelos adultos sobre situações vivenciadas ou inven- tadas por eles com conversas ao pé do fogo. Dito de outro modo, os adultos se reuniam ao redor de uma fogueira em suas fazendas e sítios para conver- sarem; contavam ou inventavam suas histórias.

As contadoras de histórias caprichavam nos detalhes assustadores. Nas versões originais, – a literatura ainda não era voltada para crianças – as his- tórias recebiam outros sentidos e envolviam fatos que traziam os perigos da estrada e da floresta. A crueldade fazia parte do roteiro, pois era pobreza e morte que se esperava do mundo no século XV. A fome, o maior mal daquele tempo, protagonizava muitas das narrativas, como em João e Maria3 (conto

de tradição oral coletado pelos irmãos Grimm, no século XIX), em que os pais abandonam as crianças na floresta por não ter como alimentá-los. Nesta his- tória há a preocupação dos adultos com a fome que assolava a todos e das crianças que temiam ser abandonadas. A história, relatada no período da Idade Média, um tempo de preocupações diversas e muita escassez, traz os acontecimentos vivenciados por duas crianças que se veem abandonadas por seu pai e sua madrasta, tendo que lidar com seus medos naquela situação de desamparo e tristeza, mas que superam através de suas próprias estratégias, se reorientam em suas capacidades e conseguem voltar para casa.

Na contemporaneidade, ainda encontramos e, com muita beleza, a contação inserida nos mais diversos contextos como séries, filmes, novelas e até no samba. Dois exemplos confirmam a contemporaneidade dos contos: o primeiro é a série norte americana para a televisão, que é vista pelo mundo todo intitulada Once Upon a Time (Era uma vez). Ela traz a beleza dos contos em uma nova roupagem, ou seja, os autores Adam Horowitz e Edward Kitsis desconstroem as histórias para construí-las partindo de elementos existentes no mundo real e fictício. Outro exemplo é o samba enredo da Escola de Sam-

ba Viradouro que relatou a magia da contação de histórias através do desfile

ocorrido no dia três de março de 2019.

3. Interpretação da história por: Laura Aidar – arte-educadora e pesquisadora. Disponível em: www.culturagenial.com/historia-joao-e-maria/. Acesso em: 16 mar. 2019.

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Quem me viu chorar Vai me ver sorrir

Pode acreditar, o amor está aqui Viraviradouro iluminou

O brilho no olhar voltou Se tem magia, encanto no ar Eu vou viajar ouvindo histórias De um livro secreto

Mistérios sem fim

Vovó desperta a infância em mim Em cada conto sou mais um menino Que muda a sorte e sela o destino Lançado o feitiço pra vida virar Pro bem ou pro mal, é carnaval E na fantasia

A minha alegria é um sonho real

No reino da ilusão O amor seduz o vilão

Num conto de fadas, a felicidade Encanta o meu coração pra cantar Deixando a tristeza do lado de lá E quem ousou desafiar a ira divina Vagou no mar

Cego pela sede da ambição Carregando a sina dessa maldição Seres da sombria madrugada O medo caminhou na escuridão Mas a coragem que me faz lutar É a esperança, razão de sonhar Imaginar e renascer

No Sol de cada amanhecer Das cinzas voltar

Nas cinzas vencer4

(grifos nosso)

A escola de samba trouxe como comissão de frente os contos e o incenti- vo à leitura através da avó contando histórias para seu neto. O carro abre-alas traz a casa da vovó onde havia o livro secreto dos encantos, e inicia a história quando o menino tenta abrir o livro, entre tantos outros elementos mágicos que fizeram parte desse momento.

4. Samba enredo da Unidos do Viradouro. Composição: Renan Gêmeo, Bebeto Maneiro, Thiago Carvalhal, Ludson Areia, Júnior Filhão, Raphael Richaid, Ricardo Neves e Carlinhos Viradouro. Disponível em: https://www.letras.mus.br/sambas/unidos-do-viradouro-2019/. Acesso em: 14 mar. 2019.

Fig. 01:

Carro Abre alas - Viradouro.

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A contação de histórias proporciona o exercício da oralidade, da en- cenação, do brilho no olhar, no semblante iluminado, da reflexão e um dos pontos mais importantes, promove o encantamento. E, com tantos adjetivos que podemos direcionar à contação, o que não podemos deixar de mencio- nar são as possibilidades de criação, imaginação, interação que uma história pode nos trazer. Machado (2004) diz que, significa oportunizamos àquele que lê e ouve a inserção dentro de si para buscar experiências vividas dos quais estão no conto ou em suas entrelinhas. Contar é trazer alegria para grandes e pequenos.

As crianças dão vida a tudo e não só elas, nós adultos também, de for- ma mais tímida, mas quando ouvimos uma história bem contada, interpretada, preparada, amada, nos remetemos a nossa “caixa de pandora”. Tudo pode ganhar vida ao redor como o sol, a lua, assim como todos os outros elementos do mundo, da natureza e até mesmo coisas inexistentes.

Através da história são proporcionados vários conhecimentos que enri- quecem a mente e nos envolvem. A história é a forma mais divertida e expres- siva, de mais fácil compreensão, tanto para criança como para o adulto. Quem ouve ou lê uma história, vivencia imaginariamente uma experiência, coloca-se no lugar do herói, sofre os seus sofrimentos, alegra-se com suas alegrias, toma para si todas as dores e prazeres fazendo parte dos acontecimentos.

Celso Sisto (2012), quando equipara a contação de histórias a uma sin- fonia orquestrada com palavras, uma opereta, uma dança coreográfica en- volve emoção, participação, atenção, percepção, pois o desenvolver de uma história necessita de estudos, planejamentos, sentido. Assim, contar histórias é uma arte sem idade que perdura até os dias de hoje e continuará viva. Mas, como contar uma história com arte? O que ela pode gerar?

Durante a leitura de uma história pode haver uma varieda- de muito grande de experiências que, quando pequena, a criança conhece muito bem e com as quais tem fami- liaridade. Tais experiências vão aos poucos constituindo as árvores do fundo de sua floresta interior. (MACHADO, 2004, p. 28)

E o que essas árvores significam? São os tesouros que estão guardados dentro de cada criança e dentro de cada um de nós, esquecidos ou adorme- cidos e, quando nos deparamos com uma contação que nos envolve desper- tamos. Nas palavras da professora e pesquisadora de contos de tradição oral Regina Machado (2004, p.27), a “possibilidade da transformação humana”, ou seja, memórias voltam à tona, sentimentos, imagens, cores, sons, sabores, cheiros que evidenciam a beleza existente no interior de cada um.

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É sabido que as histórias têm o poder de encantar e de criar um clima mágico, despertando e aguçando a imaginação, é notório constatar o envol- vimento das crianças com as histórias; sua interação é tamanha, pois ao final da narração as crianças costumam dizer: “Conte de novo, mais uma vez; conta outra história?”. Isso se dá devido à curiosidade dos pequenos em saber o que irá acontecer com os personagens; com a vontade de ouvir aquela parte que mais gostam quando já conhecem a história, marcam as falas dos persona- gens, se envolvem dentro de si mesmos imaginando como são todos aqueles que passam por sua imaginação.

Ao ouvir essas histórias repletas de simbolismos, as crianças são esti- muladas a pensar, a imaginar e a expressar seus sentimentos e emoções. Na contação de histórias, fica claro que as crianças se identificam com os contos e seus personagens e por que não ir um pouco mais além e sendo ousados em dizer que, em muitos momentos a criança cria uma aliança tão significati- va que talvez consiga realizar a interface da mensagem contida naquela de- terminada história e se coloque no lugar dos personagens. Segundo Ferreira e Motoyama (2015, p. 47).

A arte de contar histórias coloca as emoções, de quem con- ta e ouve, à flor da pele, pois permite externar o que está intrínseco em cada indivíduo, revelando o mundo imagi- nário que existe dentro de cada um. Além disso, uma boa narrativa é capaz de mexer não apenas com a imaginação, mas também pode contribuir para a educação e socializa- ção dos sujeitos.

A história nos permite refletir sobre vários aspectos e, a criança, quando se vê em uma contação, traz à tona através de sua imaginação, sentimentos, lembranças que fizeram e fazem parte de sua vida. Através da história podemos proporcionar à criança a compreensão de que ela faz parte de uma sociedade e que tem voz. Essa voz deve ressoar em qualquer momento de sua história.

A criança se expressa através de seus conhecimentos prévios encena- dos pela linguagem imaginativa, ela externa suas vivências brincando de casinha, fazendo de conta que é um super-herói, imaginando que é o papai ou a mamãe; através da brincadeira do faz de conta o infante externa sua linguagem, pois “o que a criança vê e ouve constitui desse modo os primeiros pontos de apoio para sua criatividade futura” (VIGOTSKI, 2014, p. 25).

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SOBRE

CRIATIVIDADE