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obre a contação de histórias, não há como dissocia-la do narrador, intérprete, personagem, mais conhecido como contador de histórias.

Os contadores de histórias tradicionais nunca fizeram cur- sos, mas com certeza aprenderam intuitivamente sua arte, exercitando suas habilidades andando pela rua, conver- sando com as pessoas, cismando sobre a vida, tomando banho... Quer dizer, essa qualidade não é algo inacessí- vel, conferida como um dom para escolhidos. (MACHADO, 2004, p. 73)

Ou seja, de alguma forma esse contador teve sua experiência com a lite- ratura ou com histórias de experiências vividas de familiares. Nas palavras de Sisto (2012, p. 39), “[...] aprendeu a brincar com as palavras e aprendeu a ‘des- cascá-las’, e vislumbrou a possibilidade de construir um outro mundo por meio da ficção.” Mas, todas as pessoas podem contar histórias? Acredito que sim, umas com mais desenvoltura, outras nem tanto, pois tem mais para aprender. Alguns professores buscam formação com cursos que visem às estraté- gias e técnicas para contar histórias, como escolher, como iniciar e terminar, mas concordando com Regina Machado (2004, p. 69), “é raro, no entanto, que perguntem: Como posso me preparar, ou seja, o que posso aprender, para que eu mesmo encontre respostas para minhas perguntas?”

Vivemos na era do fast food, infelizmente é raro termos pessoas inte- ressadas em pesquisar teorias, cursos que lhes possibilitem refletir; hoje tudo tem que estar pronto para não se perder tempo. Em se tratando de contação de histórias, é mais fácil colocar um filme, que conte uma história, do que se preparar para tal momento.

O contador de histórias é o elemento/personagem principal que pro- porcionará e conduzirá àquele que ouve o adentrar no mundo da imaginação! Quanto mais ele se prepara, conhece a história, se apropria dela, mais auto- ridade e controle sobre a narração terá. Mais encantamento irá proporcionar! Uma contadora de histórias deve, cada vez que for narrar, se preparar para tal ação (não que seja fácil).

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É certo que, para aqueles que estão iniciando a ação poética do con- tar histórias, surgem várias dúvidas e podem ocorrer alguns equívocos como esquecer que está contando a história para um público e não para si mes- mo. Sisto (2012) e Machado (2004), salientam a importância do processo de aprendizagem do contador, trazendo à reflexão a relevância de se acionar recursos internos e externos, percepções. Foi assim que nasceu o minicurso no curso de Pedagogia.

Por ser uma contadora de histórias, busquei teorias que me dessem suporte para a construção do mesmo e coloquei em prática meu desejo de despertar nas alunas a reflexão de que contar uma história não se limita; devemos planejar, estudar, buscar, pesquisar, provocar, dito de outro modo, a partir do minicurso, meu desejo era despertar nas alunas a vontade de pensar a contação como um momento mágico; uma ação poética que dá lugar à imaginação.

Para iniciar, trouxe a parte teórica que teve como escopo mostrar as técnicas da contação de história, o planejamento do que fazer antes, durante e depois da narrativa, a ornamentação do espaço, entre outros. Para esse momento, me apoiei no livro de Betty Coelho (1989).

O ambiente é um espaço mediador, pois prepara o ouvinte para a con- tação. Para essa prática do contar histórias, pensei em deixar o espaço mais acolhedor possível dispondo livros por toda sala, fantoches de frente para o outro simulando uma conversa, dedoches em posições estratégicas para ob- servação, o flanelógrafo de maneira a poder manuseá-lo durante a apresen- tação etc., pois esse lugar é um espaço de mediação onde se pode envolver o estudante para que realize sua leitura de forma prazerosa.

Minha intenção ao fazer do espaço um lugar de mediação foi propor- cionar às alunas participantes a compreensão de que, quando possível, de- ve-se preparar o local onde a contação será realizada para que os alunos sintam-se acolhidos e incentivados; seja a sala de aula, pátio, biblioteca etc. A mediação, através do espaço, proporciona várias “experiências e vivências que os deixam mais receptivos a buscar novas sensações.” (SOUZA; MOTOYA- MA, 2014, p. 165)

Fig. 02: Registro da parte teórica do minicurso com apresentação dos meios para contação. Fonte: Arquivo pessoal.

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Iniciei a fala trazendo um mistério para as ouvintes, ou seja, disse que após a teoria receberíamos uma visitante que faria a parte prática da con- tação de histórias; na verdade se tratava de minha pessoa. Acredito que, para cativar nossos ouvintes, precisamos utilizar de estratégias que agucem a curiosidade dos mesmos. Após, iniciei a explanação das técnicas expostas por Coelho (1989), quais sejam, o uso do flanelógrafo, do livro de imagens, livro de figuras, simples narrativa; acrescentei outras possibilidades de con- tação como o avental e tapete.

No exercício de apresentação do material era mostrado como utilizá-lo e, após, algumas alunas eram convidadas a irem à frente para colocar em prática o que foi mostrado e ensinado. O relato delas foi que, olhando pare- cia fácil, mas no momento da execução percebiam o quanto é necessário se preparar.

Ao término da apresentação, as alunas foram para uma sala onde havia um coffee break. Nesse momento, me ausentei e fui me preparar para o momento da contação de histórias, lembrando que no início disse que era uma convidada.

Pedi para a aluna que estava me ajudando me avisar quando elas voltassem. Nesse ínterim, me vesti de Emília do “Sítio do Pica-pau Amarelo” e, quando todas se encontravam na sala fui até elas para iniciar a performance. Ao entrar, as alunas demoraram um tempo para perceber que era eu.

O momento, que eu chamo de performance artística, iniciou com um mo- vimento que Matos e Sorsy (2007, p. 57) chamam de aquecimento, pois o mes- mo pretende “catalisar a atenção em torno da palavra do contador, criando uma atmosfera de unidade no grupo”. Com isso, faz-se necessário o pensar em como será contada a história, que modulação de voz usar, como demonstrar, através do corpo o que a história diz.

A modulação da voz deve sempre ser feita de acordo com as intenções e significados daquilo que se quer comunicar ao outro [...] Também fundamental é o domínio da expressão corporal [...], auxiliam na visualização do que é contado, fun- cionando como uma extensão da história. (SILVA, 2015, p.23)

Fig. 03: A organização do espaço para contação. Fonte: Arquivo pessoal.

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Quando modulamos nossa voz para chamar a atenção dos ouvintes ao que pretendemos, temos a interação com eles, os chamamos para o mergulho imaginário.

Pedi para as alunas prestarem muita atenção porque nós precisávamos chamar um elemento importantíssimo antes de iniciarmos a história. Perguntei a elas se imaginavam qual seria; deixei que falassem até que chegarem na palavra concentração. Tal ato leva a uma sensibilização inicial.

Nosso movimento foi que deveríamos passar a concentração em alguns lugares do nosso corpo e, mais uma vez, as deixei falar onde era necessário. Foi uma festa!

A história escolhida foi “As estrelas do céu” do livro Virtudes para crian-

ças, organizado por William J. Bennett, de 1997. A narrativa fala sobre uma

menina que tem o desejo de tocar as estrelas e ela percorre uma longa ca- minhada a procura de alcançar seu desejo. Quando está prestes a realizar seu sonho, acorda e percebe que estava dormindo, mas vê na palma de suas mãos o brilho das estrelas.

Encerro o minicurso dizendo às alunas que somos capazes de desem- penhar nosso trabalho quando nos dedicamos e buscamos, todos os dias; re- ver nossa prática. Tentando, mesmo que sem incentivo na maioria das vezes, olhar para nossos alunos de maneira diferente.

Após o minicurso, algumas alunas me procuraram para relatar a re- levância que o mesmo havia proporcionado. Destaco uma discente que me disse que havia uma contadora de histórias adormecida dentro dela, que o minicurso a fez despertar e, que a alegria havia sido reacendida em seu co- ração pelo fato de ter conseguido vencer a timidez e, agora, voltar a ser uma contadora. Em suas palavras: “eu havia esquecido o quanto amo histórias, o quanto amo contar histórias e o minicurso me fez lembrar do que realmente gosto de fazer!”

Em 2018, na Semana da Pedagogia na UniSR, ela teve sua participação levando o encantamento através da contação de histórias que realizou para as turmas de Pedagogia, trazendo em formato reduzido o minicurso que par- ticipou ministrado por mim.

Fig. 04: Parte prática do minicurso. Fonte: Arquivo pessoal.

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Além dos relatos das alunas que me impulsionaram a elaborar o mi- nicurso, outra motivação foi a experiência vivida na minha graduação e no curso de Mestrado. Em ambos os momentos fiz parte do grupo de pesquisa (já mencionado na introdução) na Universidade Paulista “Júlio de Mesquita Filho” — UNESP/Presidente Prudente, no Centro de Estudos em Leitura e Literatura Infanto-Juvenil — “Maria Betty Coelho” (CELLIJ), coordenado pela professora doutora Renata Junqueira de Souza. Nesse grupo há um projeto, entre tantos outros, sobre contação de histórias do qual eu fazia parte e, acredito que esse amor que me move pela contação partiu dessa experiência ímpar.

Tínhamos grupos formados por alunas de graduação, mestrado e dou- torado para o estudo dos autores que falam sobre a contação de histórias, literatura, entre outros. Nos reuníamos para a escolha da história, divisão de personagens e momentos de ensaio, não esquecendo da caracterização do espaço que receberíamos as crianças de escolas públicas e privadas para a hora do conto.

Fig. 05: Aluna, participante do minicurso, na Contação da Semana da Pedagogia. Fonte: Arquivo pessoal.

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Várias apresentações de trabalhos foram realizadas em congressos como: Minicurso de contação de histórias na biblioteca escolar: práticas de

dinamização deste espaço, em 2009 – UNESP/Presidente Prudente; Contos de Fadas e Contação de Histórias: um relato de experiência do CELLIJ, em 2013,

no XI Encontro Anual de Extensão (ENAEXT) inserido no Encontro de Ensino, Pesquisa e Extensão (ENEPE/2013) – UNOESTE/Presidente Prudente; A Hora

do Conto: semeando literatura e colhendo leitores, em 2013, no 12º Seminá-

rio Internacional de Pesquisa em Leitura e Patrimônio Cultural, na cidade de Passo Fundo — SC; Técnicas de Contação de História: um rico instrumento de

ensino-aprendizagem, em 2013, na XXIV Semana de Educação e Pedagogia:

professor polivalente para uma educação contemporânea – UNESP/Presiden- te Prudente, entre outros.

O contar histórias é uma força que nos impulsiona!

Após essas experiências e somada à experiência vivida no minicurso, pude perceber como seria importante um jogo que proporcionasse a criação de uma história somado à reflexão da ação entre os estudantes do curso de Pedagogia sobre a possibilidade do trabalho com a arte, a pesquisa, as inte- rações, entre outros.

Assim, diante de inúmeras possibilidades de trabalho com a contação de histórias, de encantamento que pode ser proporcionado e criado pelos estudantes do curso de Pedagogia, através do jogo de Dados Poéticos, no próximo capítulo está em evidência o jogo e o perscrutar teórico para o dire- cionamento prático de ação da pesquisa.

CAP. 2

CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS:

SINFONIA ORQUESTRADA