4. ANÁLISES DOS DADOS
4.1. CATEGORIAS ANALÍTICAS
4.1.4. Contra-argumentos
Esta competência consiste na capacidade de vislumbrar condições que poderiam falsear as teorias dos participantes, ou seja, a habilidade de antecipar um contra-argumento para a teoria do próprio entrevistado.
4.1.4.1.Contra-argumentos à suficiência e/ou necessidade causal
O mais cogente dos argumentos contra a exatidão de uma teoria causal é aquele que demonstra que o fator causal alegado não é suficiente para produzir o consequente e/ou não é
necessário produzir o consequente. Instâncias nas quais o antecedente é presente e o consequente não ocorre servem como evidências contra a suficiência causal do antecedente – nestes casos, não é suficiente para produzir o consequente. Instâncias nas quais o antecedente está ausente e o consequente ainda ocorre: servem como evidências contra a necessidade causal do antecedente – nestes casos, sua presença não é necessária para que o consequente ocorra.
De qualquer modo, no presente caso de busca por causas de um consequente conhecido, argumentos contra a necessidade causal têm menos força do que argumentos contra a suficiência causal. O primeiro tipo nos informa somente que outros casos podem ser suficientes para produzir o consequente, eles não negam o antecedente em termos de status de ser UMA causa para o consequente. Argumentos contra a suficiência, em contraste, concluem que o antecedente não produz o consequente.
Exemplo 24: participante 3 (TCH), tópico reincidência, turnos de fala 51-56
E: Suponhamos agora que alguém discordou de seu ponto de vista, de que essa é a causa da reincidência de adolescentes em atos infracionais. O que esta pessoa poderia dizer pra mostrar que você tá errada? P: Ela poderia dizer que... que mesmo com essas medidas que eu acabei de falar, isso não vai resolver, porque já tem existente medidas, essas medidas, tem essas políticas públicas organizadas pra resgatar esses jovens e tal, e isso não tem dado certo (...)
O exemplo 24 denota um contra-argumento à necessidade causal, ou seja, o consequente (reincidência) ocorre na ausência do antecedente (adoção de medidas, políticas públicas).
4.1.4.2.Contra-Argumentos Que Descontam
a) Desconto total
Outra estratégia de contra-argumentação é a negação da existência do antecedente. Se antecedente causal alegado é contrário ao fato – não ocorre – isto pode ser descontado como uma causa potencial do consequente. Em outras palavras, já que a causa alegada não existe, isto pode ser descontado como uma causa do fenômeno em questão. Ainda que se use o mesmo nome, os “contra-argumentos que descontam” (total ou parcial) são diferentes da categoria
evidências indiretas tipo desconto. No primeiro caso, o participante desconta a existência de
um antecedente especificado na teoria inicial, enquanto que no segundo caso, o participante evoca uma teoria alternativa e desconta (total ou parcialmente) uma causa
Exemplo 25: participante 10 (DIP), tópico desemprego, turnos de fala 71-74
E: Suponha agora que alguém discordou do seu ponto de vista, que discordou que esta é a causa do desemprego. O que esta pessoa poderia dizer para mostrar que você está errada?
P: Eu acredito que ela poderia dizer causas individuais, dizer talvez que o governo hoje já dá mais subsídios que antes. Na questão da educação já tem mais investimentos, já tem bolsa escola... Por exemplo, são políticas públicas que podem favorecer para que as pessoas continuem na escola e tal... O exemplo 25 denota um contra-argumento que nega a existência do antecedente (falta de investimentos, falta de políticas públicas). Desta forma, a estratégia envolvida no contra- argumento é negar que o antecedente de sua teoria causal (“acesso à educação”) existe.
b) Desconto parcial
Neste tipo de contra-argumento, em vez de negar que o antecedente sobretudo existe, o participante conclui que o antecedente é contrário ao fato em pelo menos uma das instâncias.
Exemplo 26: participante 1 (DIP), tópico desemprego, turno de fala 79-83
E: Agora suponhamos que alguém discordou de seu ponto de vista (...). O que esta pessoa poderia dizer pra mostrar que você está errado?
P: É... o capitalismo tem muitas histórias e pessoas que superam, então, aquele é... por exemplo, é... veja só. É uma história que saiu no NETV de um menino que ele é filho de uma catadora de lixo. Ele passou em primeiro lugar geral em biomedicina, ele frequentou toda a vida escola pública, mas ele foi assassinado quando ele tava terminando o curso de biomedicina. Eu me esqueci o nome dele. E podem dizer pra mim que aquele sujeito é um sujeito que venceu na vida.
Quando perguntado sobre o que alguém poderia dizer para mostrar que sua visão está errada, o participante 1 traz um exemplo que é contrário à teoria causal do participante em uma instância. O participante defendia a ideia que a falta de inserção social gerava o desemprego. Com isto, trouxe um caso que uma pessoa conseguiu se superar, desta forma, não negando o que havia dito anteriormente (falta de inserção social como causa do desemprego) e descontando parcialmente, já que uma instância ao menos foi contrária a este fato.
4.1.4.3.Outros contra-argumentos gerados com sucesso
Respostas desta subcategoria consistem em razoáveis sofisticadas críticas metodológicas para as evidências que o participante apresentou anteriormente. No conjunto de dados analisados para este estudo não foi observada esta subcategoria.
4.1.4.4.Teorias alternativas como contra-argumentos
Este tipo de resposta consiste no oferecimento de teorias alternativas como contra- argumentos e nenhum elemento a mais para refletir sobre a certeza de suas próprias teorias.
Exemplo 27: participante 5 (DIP), tópico reincidência, turno de fala 57
E: Suponha agora que alguém discordou do seu ponto de vista, de que essa é a causa da reincidência de menores em atos infracionais. Menores não, adolescentes. O que esta pessoa poderia dizer pra mostrar que você está errada?
P: É, não, eu acho que ele pode dizer qualquer coisa, agora, me convencer de que tá errado, não sei, ele poderia trazer bases teóricas, mas não sei, é como eu disse, como eu já tô tão concreta na minha ideia, que dificilmente provaria algum indício, levaria algum indício de que... chegasse a me mudar de opinião, mas eu ouviria, eu ouviria até mesmo pra saber a contrapartida.
No exemplo 27, o participante reconhece que outras perspectivas podem co-existir à sua própria, mas não expõe elementos que possam fazê-la refletir sobre a questão.
4.1.4.5.Tentativas sem sucesso de gerar contra-argumentos
Este tipo de resposta assume formas variadas, porém uma característica comum consiste em deixar a causa inicial no lugar do contra-argumento. A tentativa de direcionar o argumento é somente o consequente, não para a causa. No conjunto de dados analisados para este estudo não foi observada esta subcategoria.
4.1.4.6.Não tentam gerar contra-argumentos
As relutâncias na geração de contra-argumentos podem ser analisadas de três modos: (a) algumas respostas podem sugerir que os participantes estão abertos para a possibilidade de gerar contra-argumentos, mas não sabem como fazer; (b) os participantes rejeitam a possibilidade de oferecer contra-argumentos à sua própria teoria; ou (c) às vezes suas respostas refletem elementos de ambas instâncias.
Exemplo 28: participante 8 (TCH), tópico reincidência, turno de fala 48-49 E: Que evidências essas pessoas poderiam dar pra tentar mostrar que você estar errado?
P: É... eu não sei. Porque pra mim o sistema não traz assim tantos lados positivos. Eu não saberia dizer como uma pessoa iria... é, sei não.
No exemplo, quando perguntado sobre alguma evidência que poderia falsear a posição defendida, o participante explicitamente expressa não saber o que uma pessoa defensora de uma ideia divergente da sua poderia dizer em oposição à sua ideia.