4. ANÁLISES DOS DADOS
4.1. CATEGORIAS ANALÍTICAS
4.1.1. Teorias causais
A entrevista teve como foco dois consequentes causais conhecidos (desemprego e reincidência de adolescentes em atos infracionais), de forma que se buscou compreender como os participantes elaboram a suficiência causal (antecedentes), ou seja, que circunstâncias poderiam levar à ocorrência do consequente. As teorias causais denotam uma captura momentânea de como o indivíduo interpreta e compreende os fenômenos focados. As teorias causais dos participantes foram classificadas em termos de linhas causais (identificadas quanto à adesão em um tema) e em relação à adesão a uma ou mais linhas causais. Este último item interessa mais a este estudo tendo em vista que se trata de um indicador de complexidade do pensamento.
A comparação entre estas várias formas de estruturas causais mostra que suas diferenças não são em relação à quantidade de elementos, mas sim em função da relação estabelecida entre eles: (a) podendo estar ausente (caso somente uma linha causal estivesse presente), (b) podendo haver contribuição entre as linhas causais, ou (c) podendo ainda ser paralelas ou alternativas, no caso de teorias causais múltiplas.
4.1.1.1.Teoria de causa única a) Linha causal única
Neste tipo de resposta o participante elenca apenas uma linha causal para representar sua teoria causal, ou seja, “B” tem como única causa o antecedente “A”:
Exemplo 1: participante 1 (DIP), tópico desemprego – turnos de fala 1-7 ENTREVISTADOR: O que causa o desemprego?
PARTICIPANTE: (6 segundos depois) Capitalismo. É... o desemprego é necessário. Sem o desemprego você não tem excesso de mão de obra, você não tem produção que vá... é... uma... custeada... a um custo barato e que você realmente precisa daquela camada de pobreza, porque se você não tem pobre, você não tem o rico. Então, pra mim, é uma, pode até ser um pouco marxista, mas é... o que causa o desemprego pra mim, é que o desemprego é essencial para a manutenção do sistema capitalista.
No exemplo 1, o participante elenca o “capitalismo” como a causa do desemprego. A seguir, antecipa uma série de evidências para suportar suas ideias (“sem o desemprego você não tem excesso de mão de obra, você não tem uma produção [...] a um custo barato e que você
realmente precisa daquela camada de pobreza, porque se você não tem o pobre, você não tem o rico”). Por fim, reitera sua teoria causal (“o desemprego é essencial para manutenção do sistema capitalista”), de forma que apenas uma linha causal está envolvida na teoria da participante. Esta teoria causal pode ser representada da seguinte forma:
Manutenção do sistema capitalista → Desemprego
b) Linhas causais múltiplas
Neste tipo de teoria de causa única, o participante elenca várias linhas causais juntas como convergentes e conjuntamente produtoras do consequente, de forma que a causa de um fenômeno é a atuação de vários antecedentes conjuntamente.
Exemplo 2: participante 10 (TCH), tópico desemprego, turnos de fala 2-8 E: O que causa o desemprego?
P: Começar por muitas coisas... É por causa do desemprego é... primeiramente, é... O não acesso à educação, acredito que o fato de estar se precisando cada vez mais de especialização, de profissionalização e as pessoas não estão assim de acordo com a demanda de especialização e profissionalização. É que eu acredito que o motivo mais básico e não é só ele porque junto com ele vem vários outros, né? Desigualdade social... De certo modo... De certo modo não, de todo modo tem um privilégio as pessoas que são das classes mais altas então o desemprego é um resultado de um misto de coisas e situações políticas, sociais e culturais... Enfim, é isso.
No exemplo 2, os antecedentes causais elencados pela participante foram “o não acesso à educação”, “necessidade de especialização” e “desigualdade social”. Por fim, sumaria dizendo que o desemprego é “um misto de coisas”, fala que ilustra bem a característica essencial de uma linha causal múltipla: várias causas operam juntas para produzir o consequente, ou seja, para que haja desemprego, precisa-se haver ao mesmo tempo “o não acesso à educação”, “necessidade de especialização” e “desigualdade social”. Pode-se representar este tipo de teoria causal da seguinte forma:
Não acesso à educação
Necessidade de especialização Desemprego
Desigualdade social
4.1.1.2.Teorias de causas múltiplas
Nas teorias de causas múltiplas, as linhas causais não são integradas em uma estrutura causal única. Podem ser do tipo paralela ou alternativa.
a) Linhas causais múltiplas paralelas.
Neste tipo de resposta, o participante apresenta as linhas causais sucessivamente, não indicando integração numa estrutura causal simples. Neste caso, cada antecedente por si só é suficiente para produzir o efeito (consequente).
Exemplo 3: Participante 15 (DIL), tópico reincidência, turnos de fala 198-201
E: O que você acha que faz com que adolescentes que já se envolveram em atos infracionais, mesmo que tenham cumprido alguma medida socioeducativa, voltem a praticar infrações?
P: Existem tipos de pessoas que fazem atos infracionais. Existe aquela pessoa que faz pela adrenalina, existe a pessoa que faz por necessidade e existe a pessoa que faz... porque, como diria minha mãe, encontrou influência de jumentos, não é nem por adrenalina, ou porque gosta, é porque sei lá, é aquela questão do pensamento coletivo também (...).
No exemplo 3, a participante elencou três causas para reincidência: “adrenalina”, “necessidade” e “influência”. Cada um destes antecedentes separadamente é suficiente para produzir o consequente. Isto pode ser observado de duas formas: (a) quando a participante exclui duas causas (“não é nem por adrenalina, ou porque gosta”), indicando que um terceiro elemento (influência), que não estava ligado com os anteriores, por si só é suficiente para produzir o consequente, e (b), quando a participante elenca diferentes tipos de pessoas às quais diferentes linhas causais podem ser atribuídas.
Este exemplo pode ser esquematizado da seguinte forma:
Adrenalina → reincidência
Necessidade → reincidência
Influência → reincidência
b) Linhas causais alternativas múltiplas
Neste tipo de resposta, o participante contrasta linhas causais diferentes, indicando que estruturas causais alternativas estão envolvidas, podendo aparecer de três modos:
I. Uso explícito da disjunção (ou);
Exemplo 4: participante 7 (DIP), tópico desemprego, turnos de fala 13-17 E: O que causa o desemprego?
P: Então, pensando bem sobre o desemprego... no sistema capitalista o desemprego simplesmente ou não se há qualificação necessária para o que se demanda ou então simplesmente é um interesse político muitas vezes, deixar algum grupo excluído, ou por final, somente por uma falha de logística, por assim dizer do sistema (...)
No exemplo 4, o participante elenca três antecedentes causais (“não há qualificação necessária”, “interesse político” e “falha de logística”) para o desemprego. Com o uso do conectivo ou, o entrevistado indica que são causas excludentes, ou seja, quando existe o desemprego, uma das linhas causais está presente, mas não necessariamente duas ou mais ao mesmo tempo.
II. Uso do termo algum (e similares), para se referir a diferentes grupos aos quais as diferentes linhas causais se aplicam;
Exemplo 5: participante 5 (DIP), tópico reincidência, turnos de fala 5-8:
E: O que você acha que faz com que adolescentes que já se envolveram em atos infracionais, mesmo que já tenham cumprido alguma medida socioeducativa, voltem a praticar infrações?
P: às vezes é criação, às vezes é o meio social que não fornece coisas a ele, então, ele tem que, naturalmente, pegar pra si, enfim, eu acho que é muito mais impositivo, digamos assim, com aspas bem grandes, do que, literalmente, um querer, uma vontade. (...)
No exemplo 5, diferentes antecedentes causais (“criação” e “meio social”) são elencados para a reincidência. O termo às vezes denota que a diferentes linhas causais estão envolvidas, ora aplicando-se a um grupo, ora a outro.
III. Negação de uma das linhas causais
Neste caso, diferentes linhas causais alternativas foram elaboradas, porém o participante identifica uma das linhas como não sendo a causa. Ainda que reste apenas uma linha causal que o participante considere como verdadeira, respostas deste tipo foram classificadas como
alternativas, já que duas ou mais estruturas causais alternativas foram identificadas.
Exemplo 6: Participante 4 (DIP), tópico desemprego, turnos de fala 1-9
E: O que você acha que faz com que adolescentes que já se envolveram em atos infracionais, mesmo que já tenham cumprido alguma medida socioeducativa, voltem a praticar infrações?
P: Eu acredito na... falta de oportunidade, que infelizmente acontece, não ter outra... Porque eu vejo muito o crime como consequência da estrutura social e tudo mais... e que esses, essa retomada à infração é uma consequência disso, de, da falta de oportunidade, ter, ter no currículo, entre aspas, né, (incompreensível) medida socioeducativa e tudo mais, isso conta negativamente e tudo mais. Então eu acredito nessa falta de oportunidade, que acaba levando as pessoas a reincidirem no cri, no crime, como forma de sobrevivência também.
P: Eu acho, eu não acredito na... nessa patologização do crime e tudo mais... eu acho que, de uma maneira geral, e considerando esses crimes comuns, né, assalto, estupro, e outros tipos, eu acredito na... nesse fator social mesmo como maior fator.
No exemplo 6 a participante inicialmente elenca “falta de oportunidade” como causa para a reincidência. Esta linha causal posteriormente é expandida para “essa retomada à infração é uma consequência disso, da falta de oportunidade, ter no currículo [...] medida socioeducativa e tudo mais”. Quando perguntada sobre outras possíveis causas, a entrevistada elenca uma, mas nega-a (“eu não acredito na patologização do crime”) e reafirma “fator social” como maior fator. Sua teoria causal pode ser representada da seguinte forma:
Estrutura social→ falta de oportunidade → forma de sobrevivência→ reincidência
Patologização do crime