• Nenhum resultado encontrado

3. APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS

3.2 MODALIDADES DE EXERCÍCIO DO PODER

3.2.2 O poder através do controlo da participação no cuidado

3.2.2.2 Controlo do tempo

Tempo cronometrado, tempo ritualizado e tempo para fazer como se gosta são as manifestações de tempo vivido pelos enfermeiros face aos acontecimentos do seu quotidiano de vida profissional, evidenciando as regularidades e as explosões de um tempo que surge para além do tempo físico.

3.2.2.2.1 Tempo cronometrado

O controlo do tempo, enquanto tempo cronometrado, espelha as regularidades cíclicas de comportamentos aprendidos que se encadeiam num conjunto hierarquizado de acções conducentes a um procedimento técnico, inscrito numa norma que deve ser realizada a todos os doentes que dela carecem. Os cuidados de higiene são temporalizados num espaço-tempo que abarca todos os cuidados que o enfermeiro naquele dia tem de prestar, para que o tempo físico seja distribuído por todos de modo igual ou o mais aproximado possível. A leitura deste tempo é um dado importante para garantir uma equidade na distribuição do tempo.

“Se estou meia hora ou 45 minutos com aquele doente depois não vou conseguir estar nem 5 minutos com o outro. Portanto eu tenho que gerir o meu tempo em relação a isso” (EFB 284-286).

Esta necessidade de tempo cronometrado, que se prende com o sentimento de não prejudicar o outro, apela a uma distribuição equitativa e a uma justiça na quantidade

de tempo de cuidado atribuído a cada um, o qual depende de um modo geral mais do tempo físico que das necessidades do doente. O sentimento de uma justiça distributiva do tempo físico para prestar os cuidados e uma assunção de que todos têm o mesmo direito de ter os mesmos cuidados no mesmo tempo são sobrevalorizados. Este controlo do tempo também influi no controlo da participação do doente nos cuidados precisamente pelas mesmas razões de distribuição uniforme do tempo físico. Possibilitar e incentivar o doente a participar nos seus cuidados, realizando parte da sua higiene, é um risco que o enfermeiro não pode assumir quando o tempo que o doente leva a realizar é superior ao tempo que pode disponibilizar. Dar tempo implica que o enfermeiro tenha de assumir o compromisso e respeite o tempo que o doente leva a realizar o cuidado o que poderia significar que “para respeitar o tempo dele, por norma,

eu anulo outro doente ao lado” (EEF 117).

Os cuidados não só devem ser realizados num tempo que permita respeitar a necessidade de cuidados do outro, como devem ser realizados a todos os doentes que dele necessitem. A interpretação do tempo como um “tempo sem tempo” leva os enfermeiros a verem os doentes como um corpo objecto a que têm acesso e que manipulam; um corpo que se observa em busca de sinais e/ou sintomas; um corpo que se desnuda para realizar o cuidado com maior facilidade e rapidez, centrando o pensamento não no momento presente e na acção que estão a realizar mas no porvir, equacionando o que ainda têm de fazer num espaço-tempo determinado.

“Nós às vezes estamos com um doente e parece que é um objecto que ali está que temos de despachar porque eu não posso estar aqui e tenho que ir para ali” (EFB 805-807).

Numa expressão clara desta vivência de “tempo sem tempo” um enfermeiro comenta: “é

extremamente pouco profissional dizer eu ainda tenho tempo” (EFK 141). O ter tempo

é sentido como um sentimento proibido e penalizador, num serviço que se caracteriza por um correr de actividades que se sucedem sem tempo de paragens e que espera do enfermeiro um correr constante entre actividades. Por outro lado este sentimento penalizador não se refere aos cuidados mais instrumentais, aos cuidados reparadores, mas aos outros cuidados que se dirigem ao poder de existir, o que evidencia o sentido de centralidade conferida às rotinas e ao cumprimento das regras que as suportam, numa legitimação dum esgotar do tempo.

3.2.2.2.2 Tempo ritualizado

A realização dos cuidados de higiene numa fragmentação de tempo que, podendo não ser igual para todos, permite que todos os doentes recebem os cuidados repercute-se na regulação do modo, tempo e ritmo impostos pelos próprios enfermeiros e por outros agentes, como sejam o processo civilizacional, a sociedade, a profissão, a organização, os pares e o doente. Estes comportamentos regulados transformam-se em comportamentos rotinizados e ritualizados que se repetem diariamente sem necessidade de grandes tomadas de decisão, transformando os cuidados de higiene num ritual de limpeza41 diária, parcial ou total, escrupulosamente cumprido. A ritualização das rotinas é um meio de “facilitar o trabalho e conseguirmos fazer tudo” (EFA 81). Enquanto comportamento orientado para o cumprimento de uma tarefa conformada aos objectivos funcionalistas da organização hospitalar, a rotina pode ser enquadrada como um meio de redução da ansiedade e de imposição ou manutenção da ordem social, particularmente eficaz quando surgem situações ambíguas (Jones, 1995; Philpin, 2002; Zago e Rossi, 2003)42.

A fala dos enfermeiros expressa a necessidade de cumprirem a ritualização dos cuidados de higiene sob pena de serem alvo de críticas por parte dos doentes, familiares e colegas quanto à sua competência profissional.

“Uma pessoa chegar a uma passagem de turno, por exemplo, ou perguntar “então quantos banhos já deste? Ah não dei nenhum porque eles não querem”. Não é que seja mau mas parece, e é o estigma não é, perante os outros colegas parece que não se fez nada. Se calhar fez-se, fez-se de certeza, fez-se outras coisas” (EFD 295-299).

A este poder virtual e sancionatório reconhecido aos outros acresce o reconhecimento dos próprios enfermeiros de não estarem a cumprir o seu papel. Como diz um enfermeiro,

“No próprio processo de socialização e de integração, neste caso de internamento, é- nos também incutido que temos que, e uma das nossas actividades será essa (…) há uma dependência nessa actividade e temos que dar resposta e também nos é incutido que tem que haver um banho de manhã” (EFJ 180-182).

41

Segundo Walsh e Ford (1989) a acção ritual implica levar a cabo uma tarefa sem a pensar numa lógica de resolução de problemas; a enfermeira faz desta ou daquela maneira porque foi sempre assim que foi feito, não precisando de pensar numa solução individualizada. A acção multiplica-se e ritualiza-se.

Para responder às expectativas da organização, dos pares, e dos doentes o controlo do tempo é uma estratégia utilizadaque conforma doentes e enfermeiros.

3.2.2.2.3 Tempo para “fazer como se gosta”

O tempo para “fazer como se gosta" corresponde a um outro tipo de controlo do tempo em que o enfermeiro sente que não lhe falta tempo para atender o doente como a

pessoa é e tem um corpo. É um tempo que depende da conjugação de vários factores: o

número de doentes dependentes para cuidar, o nível de empatia estabelecido com o doente, o estado emocional do enfermeiro, o ser um doente em fim de vida. Numa primeira análise ter muitos doentes para cuidar é uma condição impeditiva de poder fazer as coisas como os enfermeiros gostam de fazer, mas nem sempre este factor é o único determinante. De um modo geral os enfermeiros preocupam-se em realizar os cuidados de higiene com mestria a fim de proporcionarem bem-estar ao doente e de proporcionarem a si próprios um sentimento de competência.

As diferentes modalidades de interpretação do outro, que interferem no modo de relacionamento e envolvimento com esse corpo, influenciam modos diferentes de envolvimento, como também verificaram Dowling (2006), Kirk (2007), Suhonen [et al] (2009) e Giske [et al] (2009). Este envolvimento pode ir de um simples envolvimento profissional até uma interacção que tem um significado diferente, porque abre possibilidades de desenvolvimento e superação de capacidades que se transformam num agir sobre os acontecimentos, num agir sobre o poder de existir como diz Collière e num agir competente, aliando saber e excelência profissional, como diz Benner. Possibilitar e incentivar o doente a participar no seu cuidado, realizando parte da sua higiene, é agora vivido não como um risco mas como um tempo que o enfermeiro dá ao doente, um tempo que o enfermeiro sente como fazendo parte do seu dever agir profissional e que se enquadra no modo como o perspectiva. O fazer como se gosta está associado a um dar tempo ao doente para participar no cuidado, respeitando o tempo que essa participação envolve. Sinivaara [et al] (2004) encontraram este dar tempo ao doente para realizar parte do cuidado, como uma dimensão do exercício do poder que estava presente no discurso da maioria dos enfermeiros.

Porém, como já mencionei, o enfermeiro não se envolve com todos os doentes do mesmo modo e perante o sofrimento e a vulnerabilidade destes responde de modos diferentes focalizando as respostas ora no doente ora em si (Morse, 1992). Como Dowling (2004) também evidencia, a personalidade dos doentes é um factor determinante na gestão do tempo e o enfermeiro, quando reencontra uma sensitividade no corpo do outro, consegue encontrar tempo para “fazer como se gosta” e encontrar um outro tempo que ultrapassa o momento do cuidado e o leva a estar com esse outro, mesmo quando não é responsável pelos seus cuidados naquele turno.