3.4 TEMÁTICAS RELACIONADAS AO GENOCÍDIO DA JUVENTUDE NEGRA
3.4.3 Comissões Parlamentares de Inquérito sobre o genocídio da juventude negra
3.4.3.2 CPI do Assassinato de Jovens do Senado Federal
Na CPI do Senado Federal, basicamente os temas relacionados à alta letalidade dos jovens negros foram os mesmos que a CPI da Câmara abordou – genocídio da juventude negra, homicídios decorrentes da ação policial e a reforma da segurança pública. As diferenças estão em um capítulo dedicado ao tráfico de drogas e aos homicídios que ocorrem dentro das unidades socioeducativas.
Sobre o tráfico de drogas, o relatório faz um levantamento histórico de como a falta de políticas públicas nos territórios de periferia e favela contribuíram para que, nos anos 1970, a comercialização de drogas começasse nesses espaços e, nas décadas de 1980 e 1990, isso se tornou um negócio organizado com hierarquia, armamento pesado e com a formação de facções que começaram disputas entre si para ocuparem mais territórios.
Nos anos 1990, o crime organizado se reproduz em grupos rivais organizados que passam a disputar os pontos de venda e as comunidades. A “Guerra às Drogas” passa a ser o mote da atuação da polícia. Mais e mais as organizações criminosas se munem de armamentos pesados, passando a recrutar meninos das favelas, tornando a vida nessas comunidades cada vez mais violenta. De seu lado a polícia institucionaliza a relação com a favela nos moldes de uma verdadeira guerra, com um forte apoio midiático, sobretudo dos programas televisivos de maior apelo à violência. Reforçava- se assim o já presente estigma de comunidades perigosas para as quais o Estado deveria agir sempre com pulso firme e estratégia bélica (BRASIL, 2016, p. 68)64.
O relatório destaca que esse fenômeno de ocupação dos territórios começa no Rio de Janeiro, mas se prolifera para outras capitais brasileiras, seguindo a mesma lógica – bairros periféricos, população pobre e majoritariamente negra, ausência do Estado, ocupação do crime organizado e atuação da polícia por meio da “Guerra as Drogas”. Essa guerra que justifica as mortes dos criminosos contribui também para as estatísticas do aumento de homicídios entre jovens, pobres e negros.
A Guerra às Drogas proporcionou uma cisão importante no tecido social das cidades. De um lado, constata-se a omissão do Estado, que apresenta a violência coercitiva como sua principal face de intervenção nas favelas, que faz com que os residentes prefiram mesmo a ausência do Estado. Isso fortalece a presença do tráfico como poder paralelo que organiza a vida da comunidade (BRASIL, 2016, p. 71)65.
Outro dado importante que a CPI do Senado apresenta são as mortes de adolescentes dentro do sistema socioeducativo. Dados obtidos pelo Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo, do ano de 2013, apontam um total de 29 óbitos em todo o território nacional, ou seja, morrem pelo menos 2 jovens por mês nas unidades socioeducativas.
Os adolescentes sob custódia do Estado morrem por diferentes fatores, sendo o mais comum deles descrito como “conflito interpessoal” (17 adolescentes ao longo do ano, ou seja, 59% do total). Em seguida, vem conflito generalizado (17%) e um número estarrecedor de suicídios dentro das unidades do sistema: 14% (BRASIL, 2016, p. 81)66.
As mortes são um cume de um processo que não respeita o Estatuto da Criança e do Adolescente e muito menos os Direitos Humanos. A CPI do Senado Federal utilizou dados da Rede Nacional de Defesa do Adolescente em Conflito com a Lei – RENADE – que visitou várias unidades educativas em todo o país. Ao se verificarem questões relacionadas à infraestrutura, atendimento pedagógico e psicológico e direitos fundamentais relacionados à vida e à dignidade humana, identificaram-se várias irregularidades.
64 BRASIL. Relatório da CPI de Assassinato de Jovens. Brasília: Senado Federal, 2016. 65 Idem
Foram visitados locais muito sujos e insalubres e de odores intragáveis vindo das celas, como foi o caso do CIAD em Natal-RN. Aliás, a sujeira no geral das unidades de internação no RN é algo que chamou atenção, havendo muitos meninos no sistema com escabiose e a sarna. A sujeira parece se repetir nessas localidades a ponto de se observar muitos adolescentes com doenças de pele. Foram reiterados os relatos de ratos e baratas convivendo nos alojamentos juntos com os meninos e meninas (BRASIL, 2016, p. 84)67.
Condições insalubres, torturas, espancamentos, conflitos entre adolescentes e funcionários, punição física como forma de coerção são fenômenos que ocorrem em todas as unidades socioeducativas do país, segundo o relatório da CPI. Nesse sentido, dados da Sinase apontam que 57,41% dos que cumprem medida socioeducativa são pretos e pardos, ou seja, são negros. A maioria dos crimes cometidos é roubo (42%), seguido pelo tráfico (24,81%) e em terceiro homicídio (9,23%) (BRASIL, 2016, p. 80).
Retomando a frase do promotor Anderson Andrade, que disse que “o sistema socioeducativo são minipresídios”, o relatório corrobora essa tese ao afirmar:
O relato dos/as adolescentes confirma que as unidades de internação em grande parte do Brasil não vêm cumprindo com seus objetivos pedagógicos e socioeducativos, muito pelo contrário, vem sendo locais onde se morre e se aprende a matar, se torna traficante, aprende muito mais sobre crimes com os irmãos, para sair e continuar na atividade só que mais experiente. Ensina a apanhar mais que a educar (BRASIL, 2016, p. 88)68.
Tráfico de drogas, internação para medida socioeducativa, assassinato, essa foi a trajetória percorrida por Matheus Maciel, irmão de Claudia, que abriu esta seção. Nesta tese, Claudia representa as mães dos jovens negros e pobres que seguem esse percurso. Dar visibilidade às mães e à vida desses jovens foi outro diferencial entre a CPI da Câmara e do Senado Federal.
Na introdução do relatório, as mães das vítimas são reconhecidas como mulheres que transformam o luto em luta. Elas criam movimentos, associações, buscam a justiça para honrar a memória dos seus filhos. Assim como Claudia Maciel, são elas que sofrem ao saber da morte, que vão reconhecer o corpo, fazer o enterro e ainda procurar forças para entender o porquê de o filho ter sido assassinado.
A CPI ouviu 21 mães, de vários locais do país e incluiu a história desses 21 jovens. Esse ato de narrar a vida desses adolescentes é uma estratégia de humanização, que muitas vezes, não é retratada de forma digna nos jornais brasileiros. A estratégia de divulgar a notícia
67 Renade in Relatório da CPI de Assassinato de Jovens. Brasília: Senado Federal, 2016. 68 Renade in Relatório da CPI de Assassinato de Jovens. Brasília: Senado Federal, 2016.
de mais uma morte, ou chacina, invisibiliza e perpetua a desumanização desse jovem, pobre e negro. É o racismo atuando mais uma vez para não discutir um problema muito sério e urgente para o país.
Uma das mães ouvidas na CPI foi Débora Maria da Silva, mãe de Edson Rogério da Silva69, assassinado em maio de 2006, pela polícia paulista, como forma de retaliação aos ataques do PCC que ocorreram naquele mês. Depois da morte do filho, Débora Dias70 criou o Movimento Mães de Maio71, com o objetivo de esclarecer a morte dos 450 jovens que morreram entre 12 e 20 de maio de 2006.
A atuação de Débora Dias é reconhecida nacional e internacionalmente. Ela foi ouvida na CPI da Câmara dos Deputados, no Senado, durante o desenvolvimento do projeto de lei 2438/2015, da Câmara para a criação do Plano Nacional do Homicídio de Jovens e tem viajado para os Estados Unidos onde está estabelecendo um diálogo com o movimento Black Lives Matter72.
A CPI do Senado também propõe, seguindo a proposta da Câmara dos Deputados, um Plano Nacional de Enfrentamento ao Homicídio de Jovens e se propõe a denunciar esse fenômeno para organismos internacionais como a Organização dos Estados Americanos e o Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas.