Bernardo Monteiro11, 22 anos, um dos entrevistados para esta pesquisa, é um jovem negro que nasceu no Rio Grande do Norte e, aos 5 anos, veio morar em Brasília, com a mãe, mais especificamente na cidade Estrutural. Essa região, em Brasília, surge como um lixão, em torno do qual se forma um bairro com moradores que se sustentam como catadores de matérias recicláveis. Não há infraestrutura social e educacional nesse espaço. Na época de sua criação, não havia uma organização urbana, sanitária, espacial para a região. Segundo Bernardo, a primeira escola chega a Estrutural em meados dos anos 2000: “A gente nunca teve escola lá, então eu estudei na primeira escola que foi fundada em 2006, 2007”.
Como a escola demorou a chegar a Estrutural, as crianças eram encaminhadas para estudar em um bairro vizinho, mais bem estruturado chamado Guará. Porém, por serem da Estrutural, eram estigmatizadas. Bernardo narra o seguinte episódio:
Então eu sempre fui uma criança muito dócil, muito paciente, muito comportado. Então assim, se você era uma criança negra da Estrutural, mas era dócil e comportada, você tinha um tratamento, agora se você não era você tinha outro comportamento diferente. Então assim, a gente tinha os nossos amigos da Estrutural, crianças negras que já eram mais rebeldes, nesse sentido e que a professora realmente não olhava. Então tinha essa repulsa. Inclusive, normalmente essas crianças que eram mais rebeldes e menos dóceis, eram as que viviam uma situação de vulnerabilidade extrema. Normalmente era crianças em situação de fome extrema ou a gente tinha história de crianças que era violentada ou que já tinham que trabalhar desde muito cedo. Era a criança que vinha suja, malcuidada, que de repente era a irmã mais velha que levava para ir para a escola (MONTEIRO, 2017, informação verbal12).
11Nome fictício, a pedido do entrevistado. 12 Entrevista concedida à autora em 15 jul. 2017
A experiência de vida do Bernardo sustenta o que o promotor Anderson Andrade viveu durante os 20 anos de sua atuação na vara da infância e da juventude no Ministério Público do Distrito Federal e Território (MPDFT). Ao ser indagado sobre os desafios que enfrentou ao trabalhar nesta vara, o promotor respondeu:
Ausência de políticas públicas para auxiliar as famílias na criação das crianças na primeira infância; depois uma política pública escolar falha que não inclui essa criança, que muitas vezes já chega com defasagem cognitiva, encontra uma escola também pouco inclusiva. E aí você tem essa criança que teve uma primeira infância difícil, com muitas carências, entra na escola e essa escola é pouco receptiva, pouco inclusiva e muitas vezes essa criança, especialmente se for um adolescente do sexo masculino e morador das periferias, ele vai muitas vezes ser expulso dessa escola e quando ele é expulso dessa escola é o primeiro passo para ele partir para a delinquência (ANDRADE, 2017, informação verbal13).
Considerando o que afirmou Andrade (2017), a escola e a família são duas instituições que, quando fracassam no processo de formação e crescimento de um jovem, podem gerar um custo social. A esse respeito, Munanga (2005) critica os educadores por se absterem de discutir os preconceitos em sala de aula e aproveitar o ensejo como forma de afirmação das diferenças e, consequentemente, elevação da autoestima do aluno discriminado:
No entanto, alguns professores, por falta de preparo ou por preconceitos neles introjetados, não sabem lançar mão das situações flagrantes de discriminação no espaço escolar e na sala como momento pedagógico privilegiado para discutir a diversidade e conscientizar seus alunos sobre a importância e a riqueza que ela traz à nossa cultura e à nossa identidade nacional. Na maioria dos casos, praticam a política de avestruz ou sentem pena dos “coitadinhos”, em vez de uma atitude responsável que consistiria, por um lado, em mostrar que a diversidade não constitui um fator de superioridade e inferioridade entre os grupos humanos, mas sim, ao contrário, um fator de complementaridade e de enriquecimento da humanidade em geral; e por outro lado, em ajudar o aluno discriminado para que ele possa assumir com orgulho e dignidade os atributos de sua diferença, sobretudo quando esta foi negativamente introjetada em detrimento de sua própria natureza humana (MUNANGA, 2005, p. 15).
Quando Bernardo relaciona o tratamento que as “crianças negras rebeldes” recebem no sistema de ensino por parte do professor, o jovem fala desse “não olhar” dos educadores para o preconceito. Como sugere Munanga (2005), o “não olhar” é uma prática que pode gerar sentimentos de rejeição e de não pertencimento àquele lugar. Considerando a escola como um espaço de produção de conhecimento, é possível entendê-la também como um espaço simbólico. A definição parte do conceito desenvolvido por Bourdieu (1989) de que os sistemas simbólicos, como instrumentos de conhecimento e comunicação, só podem exercer um poder
estruturante porque são estruturados, ou seja, o poder simbólico é um poder de construção da realidade.
Nesse sentido, o professor só possui tal poder porque a escola é uma instituição estruturada socialmente que legitima tais práticas pedagógicas. Ao não olhar para o “aluno negro rebelde”, o educador reitera o preconceito estruturante de que há alunos que não merecem a sua atenção, e consequentemente, reforça, por este poder simbólico, a realidade de exclusão social e evasão de jovens negros, ou seja, reafirma uma construção de realidade excludente para este grupo, conforme a fala do promotor Anderson Andrade, já citada em trecho anterior: “ele vai muitas vezes ser expulso dessa escola e quando ele é expulso dessa escola é o primeiro passo para ele é partir para a delinquência”.
Na prática da expulsão da escola do jovem, negro e pobre, por inadequação, há uma violência. A mesma violência acontece quando o próprio jovem desiste da escola por entendê- la como um território inóspito. Este tipo de violência sobre os jovens negros pode ser considerada a primeira etapa do genocídio desse grupo. O conceito de genocídio, que será utilizado, baseia-se na obra Genocídio do Negro Brasileiro (1978), de Abdias do Nascimento, que afirma:
O uso de medidas deliberadas e sistemáticas (como morte, injúria corporal e mental, impossíveis condições de vida, prevenção de nascimentos), calculadas para a exterminação de um grupo racial, político ou cultural, ou para destruir a língua, a religião ou a cultura de um grupo (NASCIMENTO, 1978, p. 8).
Mais adiante, será mais bem discutido o conceito de genocídio dentro da prática de extermínio da juventude negra. Para sintetizar esse pensamento e relacioná-lo à trajetória vivida por Bernardo Monteiro, da sua infância até o caminho para a delinquência, e aos apontamentos feitos pelo Promotor Anderson Andrade, serão apresentados os conceitos de violência com base nos pressupostos de Pierre Bourdieu (2002) e John Galtung (1968). Tais autores explicam como a violência é um poder estruturante nas sociedades contemporâneas.