Um dos aspectos sócio-históricos que o Bernardo recebeu ao nascer, na condição de uma criança negra, é que ele é um afrodescendente, herdeiro da diáspora africana. Os seus antepassados foram submetidos à violência, por meio da escravidão, por mais de 300 anos no Brasil. Na abertura do livro os Condenados da Terra (1961), Sartre sintetiza o que é a violência colonial:
A violência colonial não tem somente o objetivo de garantir o respeito destes homens subjugados: procura desumanizá-los. Nada deve ser poupado para liquidar as suas tradições, para substituir a língua deles pela nossa, para destruir a sua cultura sem lhes dar a nossa, é preciso embrutecê-los pela fadiga (SARTRE, apud FANON1961, p. 9).
A violência sofrida pelos corpos negros possui esse componente histórico de desumanização como garantia de poder por aquele que domina. A construção de uma identidade se dá por meio da diferença entre o subjugado e o dominador. Quando questionado como constrói a identidade como criança negra, Bernardo responde:
Entrevistadora: Pela sua mãe ser branca e você veio morar com cinco anos aqui com
um padrasto branco, como você constrói a sua identidade racial? Como você se percebe enquanto um menino negro?
Bernardo: Então assim, eu sempre construí em torno dessa diferença. Entrevistada: Você era o diferente na casa?
Bernardo: Exatamente. Então assim, por ser a única criança negra dentro daquela
família, isso sempre me condicionou também a me perceber enquanto negro desde muito cedo.
Entrevistadora: Mas para você era evidente que você era negro?
Bernardo: Era. Não tinha discussão em torno disso. [...] situações que meu padrasto
já me violentou e tudo mais descaradamente mesmo (MONTEIRO, 2017, informação verbal).
Acerca dessa temática, não serão aprofundadas questões raciais, uma vez que será abordado em outra seção, mas a característica da formação da identidade a partir da diferença é um fenômeno que só aconteceu por meio da violência colonial14. Por mais que não seja aprofundado o processo de escravidão no Brasil, que já foi exaustivamente discutido na academia, cabe destacar que um jovem negro brasileiro, ao nascer, herda esses componentes históricos, mesmo sem ter consciência do que se trata (MOURA, 1988). Como destaca Bernardo, ele descobriu ser negro por ser a única criança negra da família e pela violência familiar que ele sofre, por ser o diferente dentro daquele núcleo.
Essa violência, que começou no período colonial, é introjetada nas relações familiares e muitas vezes ela é reiterada por fazer parte de um imaginário social, o qual é naturalizado. Acerca do conceito de imaginário, Motta (2002) esclarece que:
O entendimento do imaginário como uma categoria com essa amplitude ajuda-nos na compreensão do pensamento de uma determinada formação social ´porque assim concebido, o imaginário transforma-se numa categoria analítica que engloba tanto a contraditória história das representações das relações sociais concretas assim como das complexas manifestações simbólicas de um povo – a complexa potência dramática e poética de cada sociedade. Queremos com isso dizer que o imaginário de um povo
14 Franz Fanon, no livro os Condenados da terra (1961), vai explicar melhor essa violência colonial, principalmente no processo de dominação da França sobre o território da Argélia, abordando como o colonizado passa, por meio da violência que sofre, a descontruir sua mente de colonizado para descolonizado.
abarca tanto as representações e práticas ideológicas que são parte de confrontos sociais objetivos entre os diversos segmentos e classes sociais num determinado contexto histórico como as alegorias, metáforas e práticas que expressam os sentimentos individuais ou coletivos mais profundos e inconscientes (MOTTA, 2002, p. 105).
É dentro do imaginário que são construídos valores simbólicos que podem ser usados para humanizar ou desumanizar um grupo, um segmento social ou um povo. Munanga (2005) mostra que o impacto dessa violência no imaginário causa um apagamento da história, da cultura e da identidade no sistema educativo, justificando a evasão dos jovens negros da escola, o que dialoga com a fala do Bernardo sobre “as crianças negras rebeldes”.
Nesse cenário, escola, família e jornalismo são instituições que estruturam a sociedade contemporânea e possuem poderes simbólicos estruturantes dentro das relações sociais. Os sujeitos podem ter consciência, ou não, de que há uma relação de dominante e dominado, porém, todos são afetados por essas práticas. Para Bourdieu (2002):
A violência simbólica não se processa senão através de um ato de conhecimento e de desconhecimento prático, ato este que efetiva aquém da consciência e da vontade e que confere seu ‘poder hipnótico’ a todas as suas manifestações, injunções, sugestões, seduções, ameaças, censuras, ordens ou chamadas às ordens. Mas uma relação de dominação, que só funciona por meio desta cumplicidade de tendências, depende, profundamente para a sua perpetuação ou para a sua transformação das estruturas de que tais disposições resultantes (BOURDIEU, 2002, p. 27).
Além da herança dessa violência colonial e da violência simbólica, há a violência direta e indireta que atinge o jovem negro e pobre. Nesse sentido, John Galtung (1968), sociólogo norueguês, escreve em seu artigo mais famoso, Violence, Peace and Peace Research, que a paz é a negação ou a redução de qualquer tipo de violência. Tendo como ponto de partida esse conceito de senso comum, Galtung define o que é a violência:
Violence is here defined as the cause of the difference between the potential and the actual, between what could have been and what is. Violence is that which increases the distance between the potential and the actual, and that which impedes the decrease of this distance. (...) In other words, when the potentialis higher than the actual is by definition avoidable and when it is avoidable, then violence is (GALTUNG, 1968, p. 169)15 present.
Dessa forma, se o efetivo é inevitável, não existe violência ainda que o efetivo esteja situado em um nível muito baixo. Galtung dá exemplo de como a esperança de vida de trinta
15 Violência é aqui definida como a causa da diferença entre o potencial e o efetivo, entre aquilo que poderia ter sido e aquilo que realmente é. A violência é aquilo que aumenta a distância entre o potencial e o efetivo, e aquilo que cria obstáculo para o decrescimento desta distância. Em outras palavras, quando o potencial é maior que o efetivo e ele for evitável, existe violência (GALTUNG, 1968, p. 169, tradução própria).
anos, no período neolítico, não era uma expressão de violência; porém, a mesma esperança de vida na atualidade (devido às guerras, à injustiça social, ou a ambas as coisas) deveria entender- se, segundo Galtung, como violência. Assim:
O nível potencial de realização é aquele que é possível com um nível dado de conhecimentos e recursos. Se o conhecimento e/ou os recursos estão monopolizados por um grupo ou uma classe, ou se são utilizados para outros propósitos, então o nível efetivo cai por debaixo do nível potencial, e existe violência no sistema (GALTUNG, 1985, p. 31-32, tradução própria).
A definição de violência proposta por Galtung (1985) evita uma tendência de reduzir a violência à incapacidade somática ou à privação de saúde imposta intencionalmente por um agente determinado, ou seja, evita reduzir a violência a apenas uma de suas formas: a violência direta e física. Nesse contexto, a juventude negra brasileira é privada, desde o nascer até a morte prematura, de toda uma estrutura de bens materiais e simbólicos o que aumenta a diferença entre a potencialidade deste jovem e a realidade efetiva e concreta que este jovem vive nos dias atuais.
Ao nascer, muitas vezes, esse jovem negro nasce em condições desfavoráveis de estrutura familiar, de acesso a bens fundamentais como alimentação, saúde, moradia educação e segurança. O promotor Anderson Andrade corrobora essa tese:
Eu não tenho dúvida que nascer em determinadas famílias, em determinados locais, com determinada cor, porque é predominante a cor determinada, vai lhe fazer ter um prognóstico muito maior de ter a sua vida abreviada durante a juventude (ANDRADE, 2017).
É a violência em decorrência do processo de colonização e também simbólica, direta e indireta, que determina o lugar social desse jovem.